dezembro 16th, 2009

Julie & Julia

Julia

Meryl Streep só pode ser a melhor atriz do mundo. Ela é capaz de carregar  nas costas filmes inteiros, que não são dignos de sua brilhante carreira. O mais incrível é que Meryl arrasa a concorrência ano após ano, mas nem por isso Hollywood se incomoda em colocá-la em um filmaço. Sei muito bem que ela não está nem aí, já que nos acostumamos a vê-la agarrando seus papéis com muita raça, amor e paixão. E a mesma coisa acontece em Julie & Julia (Julie & Julia, 2009). Pouco tempo após o fim da sessão, esquecemos o filme e ficamos com a imagem da Julia Child de Meryl Streep e sua voz irritante, que martelará para sempre na cabeça dos cinéfilos.

Sim, eu disse “irritante”. E isso foi um elogio para Meryl. Se Julia Child revolucionou a cozinha das donas de casa americanas, mesmo com aquela voz de Barney Rubble de saias, Meryl não tem nada com isso. Ela simplesmente encarna a chef à perfeição, com uma ajudinha da produção que a deixou cerca de 20cm mais alta para viver a personagem. Meryl não conduz apenas a parte mais interessante do longa de Nora Ephron. Ela leva o filme inteiro, satisfazendo o paladar exigente de sua plateia, mesmo em um restaurante de segunda categoria.

E Julie & Julia não anda no ritmo de Meryl, porque sua diretora e roteirista Nora Ephron nunca mais conseguiu acertar a receita do sucesso de Sintonia de Amor. Sem querer tocar em feridas, acho que Nora é uma mulher das antigas, no pior sentido da expressão. Falo daquelas que se conformavam com o vazio de suas vidas. É claro que posso estar aqui falando uma tremenda besteira, mas talvez Julie & Julia seja voltado para adoráveis vovós que obedeciam a seus maridos carrancudos, cheios de dinheiro e poder. Será que o filme é para este público?

Julie
Ora, em 2002, Julie Powell (Amy Adams) estava insatisfeita com seu novo apartamento e o emprego sofrível. Enquanto o marido (Chris Messina) trabalhava sem reclamar, ela criou um blog para relatar suas experiências culinárias preparando as 524 receitas do livro Mastering the Art of French Cooking, em que Julia Child (Meryl Streep), no período do pós-Segunda Guerra, traduziu os segredos da refinada cozinha francesa para ajudar suas leitoras americanas. Naquela época, em que acabava de chegar a Paris, Julia aprendeu culinária para preencher suas eternas horas vagas, já que o marido (Stanley Tucci) se dedicava ao trabalho na embaixada americana em Paris. Enfim, as duas moças abraçam seus mundos vazios, mesmo em épocas e classes distintas. Ainda mais quando seus maridos não ajudam em nada e apenas se esbaldam com os melhores pratos feitos por suas esposas.

Será que nada mudou até os dias de hoje? Ou será que Nora Ephron anda para trás? E olha que estamos falando de uma cineasta que já fez filmes sobre e-mails (Mensagem Para Você) e agora, de uma certa forma, sobre blogs.

Não concordo com tal postura, afinal as mulheres ganham cada vez mais espaço neste mundo (ainda) de homens. O filme segue as duas histórias (baseadas nos livros de Julia Child e Julie Powell), mas compará-las com a parte moderna vivida pela personagem de Amy Adams, mostra que nada (ou quase nada) mudou. É como se o desafio de Julie Powell, compartilhado com os internautas, fosse a celebração de uma fama irreal, justificando o papel apagado da mulher na sociedade. É um pensamento bem retrógrado, não?

Mas se você quer zerar o cérebro no cinema, para esquecer a dura realidade, e embarcar sem culpa na diversão fake de Nora Ephron, sem tentar enxergar pêlo em ovo como eu fiz, aposto que vai sair do cinema satisfeito. E você tem direito a isso. É tudo o que Hollywood quer: que o público vá ao cinema,  relaxe, não pense e apenas se divirta, enquanto os bolsos da indústria ficam ainda mais cheios de dinheiro.

Se é para seguir a linha de raciocínio do entretenimento, bem que Nora Ephron poderia caprichar um pouco mais em seu roteiro. E começa realmente bem, costurando as duas histórias separadas pelo tempo com equilíbrio, apoiando-se, claro, no talento de Meryl Streep e no carisma de Amy Adams. Mas como a saga de Julie Powell é enganosa, o vazio que tanto falei nesta crítica se torna visível na meia hora final do filme.

É quando Julie percebe que talvez esteja vivendo uma ilusão e sua história periga chegar a lugar algum. Mas isso não é nada que Nora Ephron não possa consertar. É hora de ver todo aquele moralismo barato de Hollywood, em que a gracinha Amy Adams aprende que o importante é lutar, seguir em frente e blá, blá, blá…

Neste ponto, fica evidente que somente a história de Julia Child renderia um filme no mínimo mais interessante. Ainda assim, o esforço de Nora Ephron em contar os feitos de Julie e Julia é compreensível. Mas como cineasta, ela corta cebola à moda antiga, quando hoje temos máquinas incríveis capazes de fazer isso. Pelo menos, Meryl Streep vale o ingresso.

Julie & Julia (Julie & Julia, 2009)
Direção: Nora Ephron
Roteiro: Nora Ephron (Baseado nos livros Julie & Julia: 365 Days, 524 Recipes, 1 Tiny Apartment Kitchen, de Julie Powell, e Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child)
Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Linda Emond, Helen Carey, Jane Lynch, Joan Juliet Buck e Crystal Noelle

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