janeiro 6th, 2010

A quem pertence Sherlock Holmes?

Young Sherlock Holmes

É o velho caso do “não comi e não gostei”. Mesmo antes da estreia no Brasil, que acontece nesta sexta-feira, dia 8 de janeiro, muita gente anda reclamando da “reinvenção” de Sherlock Holmes no novo filme de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. no papel principal. Há, porém, um detalhe importantíssimo que deve ser levado em conta: Esse Sherlock Holmes, que também tem Jude Law como Watson, saiu de uma série de HQs de Lionel Wigram, que obviamente se inspirou nos contos de Sir Arthur Conan Doyle. Enfim, não é o Holmes que você conhece.

Confesso que não gosto das reinvenções radicais de Hollywood para personagens clássicos. Como James Bond, por exemplo. Até hoje eu não consigo entender o 007 brucutu, estilo Jason Bourne, de Daniel Craig. Desculpe-me, mas aquilo é tudo, menos Bond. Pode ser bom, legal, divertido, mas não é Bond. Há uma descaracterização violenta do mito. Mas compreendo que é bom para a indústria, que consegue assim capturar a atenção da massa. Por outro lado, acredito na visão, na interpretação do diretor.

Para ficar claro: Respeito muito mais os casos de Star Trek e Batman, que conseguiram chegar ao terceiro milênio, de cara nova, com novo fôlego, respeitando as origens ou a imagem coletiva dos heróis e suas aventuras, que por sua vez saíram da mente de seus autores Gene Roddenberry e Bob Kane, respectivamente. Ainda assim, seus diretores, J.J. Abrams e Christopher Nolan, mesmo respeitando os mitos, deixaram suas marcas evidentes. São suas interpretações dos personagens e seus universos, mas jamais esquecem aqueles que vão pagar pra ver: o público.

O caso de Sherlock Holmes merece cuidado semelhante. É um ícone que vai muito além dos contos de Sir Arthur Conan Doyle. Por isso mesmo, virou domínio público. Em Londres, vários cantos remetem a Holmes. Vemos um pouco (ou muito) do detetive em pubs, teatros e hotéis. Aliás, ele “morou” na 221B Baker Street, rua que entrou para a eternidade graças às suas aventuras. Lá dentro, podemos até ver seus velhos pertences. E é neste ponto que reside o erro no agressivo pé atrás generalizado em relação ao filme de Guy Ritchie.

Ora, Holmes nunca teve uma versão definitiva para o cinema. Foram várias “leituras”, passando por atores como Basil Rathbone, Peter Cushing e há até mesmo a sátira com Gene Wilder como o “irmão mais esperto de Sherlock Holmes”. Mas jamais houve um filme definitivo, que imortalizasse sua imagem na tela grande.

Para começo de conversa, você conhece as histórias de Conan Doyle? Sabia que o clássico cachimbo de Holmes, que vem agora à sua mente, não foi descrito assim pelo autor? Sabia que o Holmes da literatura não era lá muito social? E que também era violonista e praticava esgrima e boxe? Tudo isso está no longa de Guy Ritchie.

No filme O Enigma da Pirâmide (Young Sherlock Holmes, 1985), uma aventura inocente e maravilhosa produzida por Steven Spielberg e dirigida por Barry Levinson, Holmes tinha aulas de esgrima. No de Guy Ritchie, o Holmes de Robert Downey Jr. luta boxe. Aliás, O Enigma da Pirâmide (FOTO) imaginava o encontro de Holmes e Watson, ainda estudantes, em sua primeira grande aventura, que… jamais foi escrita por Conan Doyle. Então, por que Guy Ritchie não pode imaginar seus próprio detetive? E qual seria a pergunta correta para aqueles que ainda não viram o novo filme? Bom, talvez: “Será que eu conseguirei reconhecer alguma coisa do MEU Sherlock Holmes neste filme?”

Mas caso o personagem se perca por completo, e vire um Jason Bourne, como Bond fez, então prepare o tomate. O melhor é ver para depois criticar. Ou elogiar. A mente do público precisa ficar “aberta”. Não vejo problema algum se um diretor decide modernizar uma história clássica e seus personagens, desde que mantenha a identidade de seus protagonistas. Nossos heróis devem continuar os de sempre, com algumas leves mudanças em seus hábitos, claro, afinal estamos no terceiro milênio. E não temos mais os olhos da Londres onde nasceu Sherlock Holmes.

Obs: O Sherlock Holmes das telas preferido do blog é “O Enigma da Pirâmide”. Que Sir Arthur Conan Doyle não me ouça. E descanse em paz.

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