janeiro 22nd, 2010

Amor sem Escalas

George Clooney and Vera Farmiga_Up in the Air

À noite, quando todos nós voltamos para casa e as estrelas já estão brilhando no céu, aquela que mais pisca é, na verdade, a asa do avião onde está Ryan Bingham (George Clooney). Mas não se preocupe com ele, que aceita muito bem sua condição solitária, embora ele conte isso de outro modo: Como passa grande parte de sua vida em aviões e aeroportos, Bingham garante que está rodeado de pessoas o tempo inteiro. Mas só um homem frio, sem vínculos  emocionais com pessoas ou, muito menos, bens materiais seria um mestre no que faz para ganhar o pão de cada dia: Demitir funcionários de grandes empresas, já que seus chefes não tem a coragem necessária para fazer este trabalho sujo. Amor sem Escalas (Up in the Air, 2009) é a história deste homem, que jamais seria lembrado se passasse por nossas vidas. É a história de um homem que qualquer um classificaria como desprezível ou insensível à primeira vista. E que seria difícil de encontrar até mesmo no escritório de sua firma,  já que ele, teoricamente, não tem um escritório. Ele está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum.

Amor sem Escalas é um filme sobre e para o nosso tempo: Desemprego, indiferença, alienação, relacionamentos à distância, ausência de compromisso, crise econômica, insensibilidade, excessos e vícios que nos distanciam da realidade marcam o universo de Ryan Bingham. Tanto tempo neste ramo fez com que ele desenvolvesse técnicas especiais para acalmar a situação do mais novo desempregado do mercado: Após dar a notícia ruim, Bingham tenta mostrar à “vítima” que há uma luz no fim do túnel. Não que ele se importe. É apenas parte do negócio. E ele é o melhor no que faz.

Ainda assim, precisa provar ao próprio chefe (Jason Bateman) que seu estilo ainda é o mais eficiente, já que uma novata ambiciosa, Natalie Keener (Anna Kendrick), mostra ao patrão que a empresa precisa se modernizar, demitindo funcionários em videoconferências – isso tiraria o último elo com a humanidade deste trabalho, porém, do ponto de vista da empresa, menos viagens pelo país significam  gastos reduzidos. Bingham, no entanto, ganha uma chance de provar que o melhor modo de fazer isso é olho no olho do funcionário. Mas é obrigado a levar a jovem Natalie com ele para ensiná-la a fazer o “trabalho de verdade”.

Anna Kendrick and George Clooney_Up in the Air

Se seu chefe ficar convencido com o sistema defendido por Natalie, Bingham não sentiria falta exatamente de seu trabalho. É o modo de vida nômade que ele lamentaria deixar para trás. Mas poderia recomeçar, como qualquer outra pessoa que ele demite. É neste ponto que entra a verdadeira intenção do diretor Jason Reitman, de Obrigado por Fumar e Juno: Estudar o lado humano de Ryan Bingham; saber se ele já teve um coração ou se ainda terá um.

E são as mulheres que fazem Bingham ter uma chance de… tentar uma segunda chance: Em suas viagens, ele costuma encontrar, mesmo que por acaso, a misteriosa Alex (Vera Farmiga), que parece uma versão masculina de Ryan Bingham. Há também a presença de Natalie, que pode ser o Ryan Bingham do futuro. Além disso, ele precisa dar atenção às duas irmãs, que quase não vê.

Aos poucos, na companhia de todas essas mulheres,  Ryan Bingham começa a ver o outro lado da moeda. De certa forma, Amor sem Escalas segue os passos de Jerry Maguire, filmaço de Cameron Crowe sobre um homem de negócios, que (re)descobre sua condição humana.

George Clooney_Up in the Air

Amor sem Escalas é o segundo filme de Jason Reitman sobre a humanização de um sujeito tomado até o pescoço por um trabalho incomum. O outro é Obrigado por Fumar, com Aaron Eckhart. Será que veremos uma trilogia sobre o tema?

As duas produções seriam muito difíceis para as massas sem um cara como Jason Reitman, que pode ter a coragem de um diretor indie, mas que faz filmes para o grande público. Amor sem Escalas é o melhor exemplo de como se pode equilibrar perfeitamente drama e comédia, com  respeito aos temas e problemas atuais, como foi o caso de Jerry Maguire em outra época.

Tudo muito bem traduzido para a plateia, graças a um George Clooney mais expressivo e humano; a uma sensual e enigmática Vera Farmiga, que jamais dá brechas ao espectador sobre seu “verdadeiro eu”, e uma Anna Kendrick pronta para explodir como a jovem profissional impetuosa dos dias de hoje, que só deixa a máscara cair após algumas doses de uísque. Os três entregam as melhores performances de suas carreiras.

Se Ryan Bingham terá ou não o mesmo destino feliz de Jerry Maguire, aí é melhor você conferir o filme. Mas isso tanto faz. O que o diretor Jason Reitman quer é que cada um de nós pare um pouco, neste mundo estressante, dominado por informações, e reflita sobre o que (ou quem) vale a pena nesta vida, que é muito curta. Se você já está condenado e não tem saída, pelo menos, procure o melhor final feliz possível: Prove a si próprio que tentou. E que continuará tentando. A exemplo da conclusão de Um Grande Garoto, outro filmão com Hugh Grant, “nenhum homem é uma ilha”.

Amor sem Escalas (Up in the Air, 2009)
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman e Sheldon Turner (Baseado no livro de Walter Kim)
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, Amy Morton, Melanie Lynskey, Danny McBride, Zach Galifianakis e J.K. Simmons

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