janeiro 31st, 2010

Invictus

Invictus 3

Ao analisar o pensamento “triste do povo que precisa de heróis”, de Bertold Brecht, você precisa entender o referencial para julgar se o ditado é certo ou errado. No caso do estado de oposição entre brancos e negros na África do Sul, quando Nelson Mandela deixou a prisão em 1990, o país realmente precisava de heróis ou mitos, e que sua história fosse reescrita por feitos extraordinários de grandes homens, capazes de darem ao povo a esperança e a força necessárias para levantar da cama todos os dias. Que ninguém pense que Invictus (Invictus, 2009) é a cinebiografia de Nelson Mandela. Trata-se da visão de mundo do Clint Eastwood da Era Obama, que continua o grande diretor-autor que sempre tem algo a dizer, mas que cultiva a esperança na humanidade desde que realizou A Troca, em plena mudança de governo nos EUA.

E falar desta parte da vida de Nelson Mandela inspirou Clint Eastwood a seguir em frente com o cinema que gosta de fazer. Menos amargo, é verdade, dos tempos de Os Imperdoáveis, Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro. Mais otimista, como em seus últimos filmes (A Troca e Gran Torino). Mais uma vez, pensando na América moderna, mesmo que esteja usando outro território (a África do Sul). Mais uma vez falando de intolerância racial e da relação problemática entre pais e filhos, que jamais se reconciliam, em um mundo dominado pela raiva e a violência. Todos esses elementos estão nos filmes de Clint Eastwood. Agora, ele só mostra mais otimismo.

Aliás, é curioso ver como Clint é um diretor diferenciado. Quando faz filmes de guerra, como A Conquista da Honra, foge do óbvio e se concentra em um símbolo, como a foto clássica dos soldados americanos erguendo a bandeira na batalha de Iwo Jima. Em Invictus, diferente da maioria dos diretores que tocam no delicado tema do racismo, Clint não fala diretamente sobre injustiças, crimes ou atos de violência, mas olha para a união das raças e imagina o fim da intolerância, usando o esporte como símbolo. Comento isso porque muitos acham o cinema de Clint Eastwood demasiadamente trivial. Mas, na verdade, ele é um dos poucos diretores na atualidade que tem algo a dizer.

Invictus 2

É natural que a trama de Invictus seja carregada de emoção. E ela pode vir de momentos tensos, mas que sempre são aliviados pela verdadeira intenção de Clint: Não há mortes ou violência em Invictus. É um filme situado na África sem matança generalizada, como acostumamos a ver nos últimos anos em produções como Diamante de Sangue, Hotel Ruanda e O Jardineiro Fiel. Sempre achei que veria, pelo menos, uma morte até o fim do filme. Mas não, Clint quer falar do lado bom do ser humano. Ele, agora, tem esperança. É como a sensação que causa a conclusão da fantástica cena do avião, mostrando que o diretor tem o público nas mãos, controlando as emoções que vão do medo ao alívio . Essa cena é a síntese da mensagem de Invictus, que é um dos maiores libelos contra o racismo já feito pelo cinema. É um filme, que como Gran Torino, segue a ideia de que o combate à violência pela violência é inútil. A violência destroi a si própria.

Clint fala de temas atuais como poucos. Consegue ser moderno sem precisar colocar a câmera na bola para mostrar sua trajetória em primeira pessoa, ou fazer gracinhas com pausas e acelerações na montagem. Nem balança sua câmera na hora do jogo de rugby para alcançar mais “realidade”, como fazem nove em cada dez diretores hoje em dia. Clint é Clint. Elegante, preciso, econômico na montagem final. Filma o necessário. Nem mais, nem menos. Clint é Clint. Repare na cena de abertura, em que o diretor, em apenas um plano, situa o espectador no problema do Apartheid: Brancos jogam rugby de um lado da rua. Sem cortar a cena, a câmera vira para o outro lado da rua e mostra negros jogando futebol. Clint é Clint.

Mas a primeira grande produção hollywoodiana sobre Nelson Mandela saiu graças a Morgan Freeman, que queria fazer este filme há muito tempo e o entregou ao amigo, que já o dirigiu em Os Imperdoáveis e Menina de Ouro. Freeman assina Invictus como produtor executivo e apresenta uma atuação que transmite aquilo tudo que esperamos de Nelson Mandela. Acho que o melhor elogio à atuação de Morgan Freeman é que o ator desaparece dentro do personagem.

Invictus 1

O Mandela de Morgan Freeman e Clint Eastwood esbanja carisma e liderança naturais, dando aula de humanidade, cidadania e, sobretudo política. É como um bom político deveria ser, colocando sua autoridade à serviço do povo, que é a verdadeira família do governante.

Invictus é um dos melhores filmes já feitos contra o racismo e, ao mesmo tempo, sobre política. Também é um dos maiores exemplares do cinema sobre esportes. Não exatamente sobre o jogo de rugby, mas especialmente sobre o espírito de união do esporte, que fingimos lembrar na época de copas e olimpíadas. Não importa quem ganhe ou perca o jogo. O que vale é o espetáculo para o povo, que paga pra ver, como no cinema. No caso de Mandela, trata-se do “pão e circo” no bom sentido. Assim que sai da prisão, vê a oportunidade de unir brancos e negros pelo esporte. É o seu primeiro passo para uma África (ou um mundo) melhor.

Emocionante e inspirador à moda antiga, com música eufórica e alta em momentos de glória, e trilha melosa em cenas tristes – algumas beiram o sublime, como a visita do capitão do time de rugby, François (Matt Damon), à prisão de Mandela, Invictus é o tipo de filme que poderia ter sido dirigido por John Ford, que também colocaria sua câmera – no mesmo ângulo que Clint na saída do túnel que liga o vestiário aos gramados – posicionada atrás dos seguranças de Mandela, tomados pela sombra, vislumbrando o campo sendo irrigado para a partida final. Como John Wayne, na cena da porta, em Rastros de Ódio. Clint é Clint.

Invictus (Invictus, 2009)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Anthony Peckham (Baseado no livro de John Carlin)
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Patrick Lyster, Penny Downie e Shakes Myeko

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