janeiro 29th, 2010

O fim da Miramax

Pulp Fiction

"Pulp Fiction" consagrou Quentin Tarantino com o Oscar de Melhor Roteiro Original

Criada em 1979 pelos irmãos Harvey e Bob Weinstein, a Miramax fechou as portas na última quinta-feira, dia 28 de janeiro de 2010. Após diversos problemas, a Disney, que comprou a empresa por cerca de US$ 70 milhões em 1993, declarou oficialmente o encerramento das atividades da Miramax, colocando diversos trabalhadores no olho da rua.

É o fim de uma era que gerou um misto de celebração e polêmica entre cinéfilos, críticos e profissionais de Hollywood. Mas, sem entrar na discussão dos erros e acertos da Miramax, os Weinstein foram responsáveis pela consagração de muitos diretores importantes nos dias de hoje, além da realização de vários filmes premiados.

Atuando como uma divisão ousada da Disney, a empresa distribuia filmes independentes no sentido original da palavra; tudo saia dos bolsos dos Weinstein. Eram os filmes de arte da Disney, com total liberdade criativa para seus diretores, chegando com outro selo aos cinemas, e fazendo frente aos grandes estúdios rivais, que, cada vez mais, gastavam muito dinheiro e produziam menos produtos de qualidade.

Na Disney/Miramax, a equação era simples, mas eficiente: filmes bons, bonitos e baratos. Pela primeira vez em Hollywood, pequenas produções tinham campanhas de marketing gigantescas, que envolviam financiamento, distribuição nos cinemas, lançamentos em VHS e DVD, além do barulho na hora das principais premiações da indústria, como o Oscar e o Globo de Ouro.

Nesse ponto, a Miramax foi comendo pelas beiradas. Com campanhas espertas e agressivas, os Weinstein foram ganhando atenção considerável quando levaram Sexo, Mentiras e Videotape, de um desconhecido Steven Soderbergh, à Palma de Ouro em Cannes, no ano de 1989, quando filmes americanos raramente saiam vitoriosos da Croisette.

Rapidamente, filmes de baixo orçamento começaram a desbancar a concorrência na hora das indicações ao Oscar. Todos eram da Miramax: Meu Pé Esquerdo, de Jim Sheridan, em 1990, Traídos Pelo Desejo, de Neil Jordan, em 1993, O Piano, de Jane Campion, em 1994, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, em 1995,  e O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford, em 1996, foram indicados ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção. Embora não tenham vencido nessas categorias, todos esses longas levaram estatuetas importantes.

Gwyneth_Shakespeare in Love

"Shakespeare Apaixonado" ganhou 7 Oscars e roubou o prêmio de Melhor Filme de "O Resgate do Soldado Ryan", da rival Dreamworks

Em 1997, a Miramax dominou a festa da Academia ao conquistar 9 Oscars com o épico romântico O Paciente Inglês, incluindo as estatuetas de filme e direção (o até então desconhecido Anthony Minghella). Além de consagrar a maior distribuidora independente daquele momento, Hollywood só havia indicado UM longa de grande estúdio para o Oscar de Melhor Filme: Jerry Maguire. Os outros concorrentes à estatueta chegaram ao mercado (e ao Academy Awards), por outras distribuidoras, com baixíssimo orçamento: Shine, Segredos & Mentiras e Fargo. 1997 foi o ano do Oscar independente.

Os grandes estúdios começaram a reclamar das campanhas dos irmãos Weinstein no Oscar. A Miramax ganhou a alcunha de “Papa-Oscar”. Mas não teve jeito. Os estúdios precisaram criar divisões independentes, para concorrer contra os filmes da Miramax. Mas nem todo o dinheiro de Harvey e Bob Weinstein foi capaz de parar Titanic na edição seguinte da entrega do Oscar. Hollywood voltava a premiar uma superprodução. A Miramax bem que tentou com Gênio Indomável. Mas não ficou triste, pois garantiu para o filme de Gus Van Sant os Oscars de Melhor Roteiro Original (Matt Damon e Ben Affleck) e Melhor Ator Coadjuvante (Robin Williams).

Mas foi uma exceção: Já em 1999, a Miramax aprontou a maior das marmeladas da história recente da Academia. Seu bonitinho, mas ordinário Shakespeare Apaixonado simplesmente roubou a estatueta de Melhor Filme de O Resgate do Soldado Ryan, filmaço de Steven Spielberg, que, por outro lado, começava a estabelecer na indústria a maior concorrente da Miramax nas grandes premiações: a Dreamworks. Shakespeare Apaixonado foi a gota d’água para a Miramax receber uma série de acusações em cima de suas estratégias de divulgação.

Em 2000, a Dreamworks levou seu primeiro Oscar de Melhor Filme com Beleza Americana. Mas a Miramax estava lá, concorrendo por Regras da Vida. Em 2001, deu Dreamworks de novo, com Gladiador. Porém,  os Weinstein bateram cartão novamente com o “inacreditável” Chocolate, que roubou a vaga na categoria de Melhor Filme do infinitamente superior Quase Famosos, de Cameron Crowe. Em 2002, a Miramax disputou o Oscar principal com o drama Entre Quatro Paredes, mas perdeu novamente para a Dreamworks, que teve a carta na manga chamada Uma Mente Brilhante. Tudo bem, afinal os Weinstein garantiriam o último Oscar de Melhor Filme para a Miramax no ano seguinte, com o musical Chicago.

Mas, naquele momento, os outros estúdios já haviam entendido o recado e a concorrência estava ainda mais implacável. Foi quando Harvey e Bob bateram cabeças com a Disney e deixaram o barco, fundando uma nova empresa: a The Weinstein Company, que após alguns anos modestos, estabelecendo-se silenciosamente, finalmente conseguiu fazer graça no Oscar de 2009, quando tirou o elogiado blockbuster Batman – O Cavaleiro das Trevas da categoria de Melhor Filme, para garantir o seu O Leitor. Agora, a The Weinstein Company concentra todas as suas fichas em um produto de extrema qualidade: Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. Se não for agora, o Oscar volta em questão de tempo para as mãos dos Weinstein.

The English Patient

Com 9 Oscars, "O Paciente Inglês" foi o maior sucesso da Miramax em premiações

O fato é que a Miramax continuou na Disney. E foi “mofando”. Ao contrário do que acontecia há cerca de 15 anos, poucos filmes foram lançados com o selo. Muitos projetos nem chegaram a ver a luz do dia. E a crise econômica mundial veio para sepultar a Miramax, que demitiu um número em torno de 50 funcionários no último dia 28. Na verdade, a Disney continuará a lançar filmes de baixo orçamento com o selo Miramax, mas trata-se apenas de uma marca. Não há mais ninguém por trás dela bancando novos nomes ou projetos ousados. A Miramax como você conhece acabou.

Que fique claro: Considerar a Miramax como a vilã do Oscar não é a intenção do Hollywoodiano. De fato, os Weinstein sabem vender seus filmes e convencer os votantes das principais premiações. E o mundo é dos espertos. Mas o que vale é reconhecer a importância de uma empresa que pagou pra ver novos diretores, atores, atrizes e roteiristas na indústria; nomes que ninguém mais queria bancar. De lá, surgiram talentos como Quentin Tarantino, Anthony Minghella, Steven Soderbergh, Jim Sheridan, Jane Campion, Todd Field e John Madden. A Miramax também resgatou ou ajudou a estabelecer na indústria os diretores Lasse Hallström, David Lynch, Roberto Benigni, Wes Craven e Gus Van Sant. Sem falar que rendeu a Woody Allen sua última indicação ao Oscar de Melhor Diretor, por Tiros na Broadway.

Nem só de prêmios viveu a Miramax, afinal não se sobrevive em Hollywood sem grana no bolso. Em 1996, os Weisntein deram carta branca a Wes Craven para dirigir Pânico, que virou mania mundial e uma trilogia de sucesso, que inspirou tantos outros filmes do gênero.

Resta saber, agora, como ficam os filmes independentes sem um ombro amigo como o da Miramax. Ultimamente, as “divisões de arte” dos grandes estúdios vêm acolhendo os longas que mais se destacam no Sundance Film Festival. Mas nem todos têm vez. Aliás, neste exato momento, Sundance discute o futuro do cinema independente, que sai desesperadamente à caça de distribuição. É bom que os estúdios olhem com atenção para as opções dos pequenos festivais. Seria muito triste “achar” certos filmes independentes somente na TV por assinatura, ou perdido nas prateleiras das locadoras, quando ninguém sabe que o longa X ou Y saiu direto em DVD.

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