janeiro 20th, 2010

Onde Vivem os Monstros

Where the Wild Things Are_1

A mente de uma criança triste, segundo Spike Jonze

Max (Max Records) é um menino triste. Não tem pai, sua irmã  (Pepita Emmerichs) é adolescente e obviamente não liga pra ele, enquanto sua mãe (Catherine Keener) luta diariamente para manter o emprego, dar atenção ao filho mais novo e, ao mesmo tempo, ao namorado (Mark Ruffalo). Sua mãe o ama. Não se trata daquela mãe que não liga para o filho, mas ela tem desejos não realizados ou problemas que tomam seu tempo. E tudo isso é demais para a cabeça do pequeno Max, que está sempre brincando, correndo, gritando e pulando para esquecer (ou ignorar) a injusta realidade. Mas há um porém nessas tentativas de Max viver a infância intensamente: Ele é triste. O sentimento e todos os seus problemas são levados para dentro de sua imaginação de criança. Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009) é o diretor Spike Jonze examinando (ou imaginando) a mente de uma criança triste. Não que um menino como Max brinque necessariamente assim. Mas é a visão de um adulto (melancólico ou não) sobre como brinca uma criança triste.

O filme é uma versão do diretor para as telas do livro infantil Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak, que traz muito mais ilustrações do que textos. É uma leitura rápida sobre um menino que é mandado para o quarto de castigo e imagina um mundo de criaturas que o compreende. Lá, ele se torna rei e esquece completamente da realidade. O filme de Spike Jonze é isso aí também. Mas, claro, ele toma certas (e necessárias) liberdades para preencher um filme com cerca de uma hora e quarenta minutos.

Quando Max leva uma bronca de sua mãe, ele foge de casa e encontra um mundo povoado por monstros… solitários e tristes. São poucas criaturas, mas que vivem sempre juntas. Ao chegar lá, Max logo se identifica com Carol (voz de James Gandolfini), o mais problemático e incompreendido dos monstros. O menino ganha o posto de rei e abre a temporada de brincadeiras, onde ele dita as regras e os monstros o seguem. Mas, como em sua vida real, a diversão sempre acaba mal. Ou os monstros brigam, discutem ou ficam tristes. Alguns chegam a ter seus braços arrancados, é verdade. E as brincadeiras de mau gosto não param aqui. Max e seus monstros vivem destruindo árvores e suas próprias casas, sem falar que uma das criaturas derruba aves com arremessos de pedras. Spike Jonze ficou louco? Não é bem assim.

Where the Wild Things Are_2

Tudo o que acontece no reino dos monstros tem ligação com a vida real de Max: a instabilidade emocional em casa e o distanciamento da irmã mais velha e o ciúme em relação à mãe levam Max a se entregar de corpo e alma à sua imaginação, que atua como válvula de escape. Suas brincadeiras são intensas, mas exageradas, de vez em quando caindo na agressividade, que não mede consequências. Acontece com muitas crianças.

A própria imaginação de Max, no mundo dos monstros, gera cenários belíssimos e situações encantadoras, que logo são devastadas pelas brigas e discussões, ou pela câmera de Spike Jonze que insiste propositalmente em tremer, balançar para quebrar o encanto e a beleza, afinal a infância passa rápido e é preciso aproveitá-la antes da chegada da vida adulta.

Onde Vivem os Monstros
tem suas falhas, talvez no ritmo ou na dificuldade de empatia com os personagens, mas é o tipo de filme que acerta o coração em cheio, deixando as reclamações (críticas) em segundo plano. Quem já foi criança um dia e, principalmente, quem ainda consegue entender uma criança, sabe que não vale a pena bater no filme de Spike Jonze.

E não é um filme infantil, mas uma fábula bonita, sensível, mas triste para os adultos que deixaram de ver o mundo com os olhos de uma criança. É sobre a criança com a obrigação de amadurecer, quando ainda há muito tempo para ser apenas criança.

Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009)
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers (Baseado no livro de Maurice Sendak)
Elenco:
Max Records, James Gandolfini, Catherine Keener, Paul Dano, Catherine O’Hara, Forest Whitaker, Michael Berry Jr., Chris Cooper e Lauren Ambros

Críticas . Posts