Onde Vivem os Monstros

A mente de uma criança triste, segundo Spike Jonze
Max (Max Records) é um menino triste. Não tem pai, sua irmã (Pepita Emmerichs) é adolescente e obviamente não liga pra ele, enquanto sua mãe (Catherine Keener) luta diariamente para manter o emprego, dar atenção ao filho mais novo e, ao mesmo tempo, ao namorado (Mark Ruffalo). Sua mãe o ama. Não se trata daquela mãe que não liga para o filho, mas ela tem desejos não realizados ou problemas que tomam seu tempo. E tudo isso é demais para a cabeça do pequeno Max, que está sempre brincando, correndo, gritando e pulando para esquecer (ou ignorar) a injusta realidade. Mas há um porém nessas tentativas de Max viver a infância intensamente: Ele é triste. O sentimento e todos os seus problemas são levados para dentro de sua imaginação de criança. Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009) é o diretor Spike Jonze examinando (ou imaginando) a mente de uma criança triste. Não que um menino como Max brinque necessariamente assim. Mas é a visão de um adulto (melancólico ou não) sobre como brinca uma criança triste.
O filme é uma versão do diretor para as telas do livro infantil Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak, que traz muito mais ilustrações do que textos. É uma leitura rápida sobre um menino que é mandado para o quarto de castigo e imagina um mundo de criaturas que o compreende. Lá, ele se torna rei e esquece completamente da realidade. O filme de Spike Jonze é isso aí também. Mas, claro, ele toma certas (e necessárias) liberdades para preencher um filme com cerca de uma hora e quarenta minutos.
Quando Max leva uma bronca de sua mãe, ele foge de casa e encontra um mundo povoado por monstros… solitários e tristes. São poucas criaturas, mas que vivem sempre juntas. Ao chegar lá, Max logo se identifica com Carol (voz de James Gandolfini), o mais problemático e incompreendido dos monstros. O menino ganha o posto de rei e abre a temporada de brincadeiras, onde ele dita as regras e os monstros o seguem. Mas, como em sua vida real, a diversão sempre acaba mal. Ou os monstros brigam, discutem ou ficam tristes. Alguns chegam a ter seus braços arrancados, é verdade. E as brincadeiras de mau gosto não param aqui. Max e seus monstros vivem destruindo árvores e suas próprias casas, sem falar que uma das criaturas derruba aves com arremessos de pedras. Spike Jonze ficou louco? Não é bem assim.

Tudo o que acontece no reino dos monstros tem ligação com a vida real de Max: a instabilidade emocional em casa e o distanciamento da irmã mais velha e o ciúme em relação à mãe levam Max a se entregar de corpo e alma à sua imaginação, que atua como válvula de escape. Suas brincadeiras são intensas, mas exageradas, de vez em quando caindo na agressividade, que não mede consequências. Acontece com muitas crianças.
A própria imaginação de Max, no mundo dos monstros, gera cenários belíssimos e situações encantadoras, que logo são devastadas pelas brigas e discussões, ou pela câmera de Spike Jonze que insiste propositalmente em tremer, balançar para quebrar o encanto e a beleza, afinal a infância passa rápido e é preciso aproveitá-la antes da chegada da vida adulta.
Onde Vivem os Monstros tem suas falhas, talvez no ritmo ou na dificuldade de empatia com os personagens, mas é o tipo de filme que acerta o coração em cheio, deixando as reclamações (críticas) em segundo plano. Quem já foi criança um dia e, principalmente, quem ainda consegue entender uma criança, sabe que não vale a pena bater no filme de Spike Jonze.
E não é um filme infantil, mas uma fábula bonita, sensível, mas triste para os adultos que deixaram de ver o mundo com os olhos de uma criança. É sobre a criança com a obrigação de amadurecer, quando ainda há muito tempo para ser apenas criança.
Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009)
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers (Baseado no livro de Maurice Sendak)
Elenco: Max Records, James Gandolfini, Catherine Keener, Paul Dano, Catherine O’Hara, Forest Whitaker, Michael Berry Jr., Chris Cooper e Lauren Ambros



Perfeito


Que texto lindo, Otavio. Eu tive uma impressao semelhante ao ver alguns stills do filme. Pena que vai demorar um pouco pra eu ve-lo, eh um dos filmes que mais tenho aguardado…
não achei exatamente ruim, mas do mesmo que senti falta de uma direção mais talentosa em SINÉDOQUE, NEW YORK, senti falta de idéias mais bem desenvolvidas nesse aqui. uma soma dos 2 daria 1 ótimo filme.
Otávio, li na Folha que das mais de 100 salas que passavam avatar em 3-D, somente 2 estavam corretamente equipadas com o projetor correto para esse tipo de exibição. Can you believe it? It´s an outrage!
Desculpe os excessos de “correto” na frase, rsrs.
Gostei um pouco mais, em nenhum momento achei cansativo e adorei os personagens. De qualquer forma é mesmo uma bela fábula.
Vontade de assistir ao filme, mas ouvi dizer q a Waner só disponibilizou algo em torno de 20 cópias do filme, o q praticamente me empurra para a pirataria, ou dvd daqui a seis meses =/
Eu não estava muito com vontade de ver esse filme, vi umas críticas nada animadoras, mas li duas outras que me deixam muito ansiosa para conferir a obra. Como eu gosto de longas assim, vou conferir. Beijos!
Eu adorei este filme! Desde já um dos melhores filmes [e roteiro adaptado] do ano! O garotinho é ótimo! Os monstros adoráveis! Dei risadas, me emocionei. Voltei a ser criança novamente assistindo ao filme! Abs!
Sem medo, digo que está no meu TOP 5 do ano passado. Fábula moderna. Sutil, triste, belo, surreal. Uma bela obra de arte.
Um filme delicado e comovente para adultos e adolescentes( é claro, pq não?), e o recado sobre amadurecimento, responsabilidade, amor e companheirismo foi muito bem dado.