Sherlock Holmes

Herói da literatura inglesa criado por Sir Arthur Conan Doyle, o detetive Sherlock Holmes andava esquecido pelo cinema. E em pleno auge da era lucrativa das adaptações de HQs para a tela grande, Hollywood encontrou uma graphic novel (assinada por Lionel Wigram) que ensina o ídolo mais inteligente e brilhante da cultura pop a falar e agir como os maiores super-heróis das histórias em quadrinhos.
Não que a indústria cinematográfica seja apaixonada pela nona arte. O importante é que isso vende ingresso nos dias de hoje. Não se trata de maldade ou desrespeito com a obra de Conan Doyle. São negócios. É apenas a fórmula atual que Hollywood deve seguir para falar a língua do público que a sustenta: os fãs de cultura pop.
Esse é o Sherlock Holmes (Sherlock Holmes, 2009), de Guy Ritchie, diretor que entende o que é pop e sabe montar muito bem seus filmes com extrema agilidade, sem entregar um videoclipe, mas cinema em busca de modernidade. Se é pra ser assim, Ritchie (Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Snatch) é um bom nome para comandar esta produção estrelada por Robert Downey Jr., como Holmes, e Jude Law, como Watson.
E não entenda “pop” como “popular”. A definição está ligada à compreensão de temas e características locais, utilizados de maneiras universais, sendo assim adotados pelo mundo inteiro. É uma linguagem sem fronteiras. E explorá-la é até bom para a indústria, que abre a mente e entende parte de seu público. O perigo é tornar essa linguagem uma tendência. Mas deixemos de pensar no pior e, com base nesta introdução, vamos direto ao ponto: O Sherlock Holmes de Guy Ritchie é divertidíssimo e tem um Robert Downey Jr. ligado no 220, vivendo um de seus melhores momentos.
Que fique claro: Nenhum fã do filme correrá atrás da obra de Conan Doyle com a intenção de conhecê-la. O que esse fã quer saber é se o próximo filme já está a caminho. Guy Ritchie entregou um filmão-pipoca para ser apreciado somente dessa forma. Nada mais. Com cinco minutos de projeção, você já sabe disso. É pegar ou largar.
Para o diretor, Sherlock Holmes representa uma ótima chance para marcar seu nome na indústria. Ele fez um filme baseado em contos famosos da literatura, respeitou as (reais) origens do personagem e, ainda por cima, conseguiu manter sua assinatura visual e os diálogos rápidos e desesperados de RocknRolla e seus outros longas.
Já Robert Downey Jr. é um capítulo à parte. Você pode até achar que ele tem seus trejeitos, mas é um ator que conseguiu emplacar somente nos últimos dois anos simplesmente três figuras marcantes e completamente diferentes como Tony Stark (Homem de Ferro), Kirk Lazarus (Trovão Tropical) e, agora, Sherlock Holmes. Não é pouca coisa. Ator de verdade não sabe apenas olhar para o tempo, pensar na vida e recitar versos inspirados do roteirista. Ator de verdade se entrega de corpo e alma na mesma proporção. Sabe equilibrar o drama e a comédia em reações imprevisíveis, ora calmas, ora tensas, com palavras desferidas na velocidade de socos e tiros. É o que faz Robert Downey Jr. neste filme, que lhe rendeu uma merecida indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator (Comédia/Musical). Daqui há 20 anos, seu Sherlock Holmes ainda será lembrado ao lado de outros grandes atores que viveram o personagem nas telas, como Basil Rathbone, Peter Cushing, Christopher Plummer, Frank Langella, Michael Caine, Charlton Heston, e Jonathan Pryce.

Ao lado de Downey Jr., Jude Law faz um ótimo contraponto como o Watson mais humano do cinema, com vontades, sonhos e falhas particulares. Não há mais aquela relação de total admiração que marcou o personagem ao longo dos anos. Law está muito bem e entende que seu papel é tornar evidente, nem que apenas com o olhar, a relação duradoura de amizade incondicional entre Holmes e Watson – você pode pensar o que quiser a respeito disso. Fique a vontade.
Já Rachel McAdams parece um tanto deslocada na trama, embora sua personagem, Irene Adler, a desejada rival de Holmes, seja vital para o mistério investigado pela dupla de protagonistas, todos nós sabemos que ela está ali como fórmula para manter o interesse do público feminino em um filme de… meninos. Digamos que Rachel McAdams é dispensável em Sherlock Holmes. Não é o caso do ótimo Mark Strong, que faz o vilão Lorde Blackwood, que aparece pouco por uma razão nobre, que só contribui positivamente para a estrutura do roteiro.
Sherlock Holmes também tem uma das melhores e mais criativas trilhas sonoras de 2009. Assinadas pelo maestro Hans Zimmer, as composições são engenhosamente empolgantes, alternando entre tons sombrios e cômicos, para um filme passado em pleno século XIX. Vale destacar também a qualidade dos cenários criados por Sarah Greenwood e a fotografia de Philippe Rousselot. Combinando trilha, direção de arte e cinematografia, com uma pitada de efeitos visuais, especialmente na cena da London Bridge, Sherlock Holmes é um deleite visual e sonoro para os cinéfilos.
Se a brincadeira não é perfeita, a culpa também é de Guy Ritchie, que permitiu que o roteiro de Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg construísse uma trama eficiente, porém pouco criativa. Pior: não deixa tempo e espaço para o público raciocinar junto com Holmes. É como se a plateia pudesse chegar perto, mas não tivesse permissão para tocar ou sentir. É um distanciamento que incomoda. E então vem aquele final com explicações disparadas por uma metralhadora emperrada e enlouquecida com os detalhes do raciocínio do detetive para deixar tudo explicadinho no melhor estilo Fred, Daphne, Velma, Salsicha e Scooby. Bem diferente da melhor cena do filme: a do jantar, em que Watson apresenta sua noiva a Holmes. Ali sim, somos apresentados à genialidade do detetive. Era o suficiente, daquele momento em diante, para que todos se sentissem convidados a participar do “jogo” de Holmes Vs. Blackwood. Mas não.
Resta saber se o inevitável Sherlock Holmes 2 será um pouco mais ousado neste aspecto. É curioso constatar, agora, como os fãs mais rigorosos de Arthur Conan Doyle não podem mais bater na caracterização do Sherlock Holmes de Robert Downey Jr., que foi alvo de inúmeras e injustas polêmicas antes da estreia. O Holmes deste filme é bem mais fiel às historias originais do que muita gente nova pensa. Eu disse “curioso”, porque o problema do filme não é esse. O “porém” está no medo habitual de Hollywood em confiar na inteligência, na capacidade de dedução de seu próprio público. Isso sim Arthur Conan Doyle condenaria.
Sherlock Holmes (Sherlock Holmes, 2009)
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg (Baseado na HQ de Lionel Wigram e nos contos de Arthur Conan Doyle)
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong e Kelly Reilly



Perfeito


Bom saber que as polêmicas que o filme sofreu antes de sua estreia foram em grande parte injustas. Só pelo Downey Jr., já deve valer a pena…
Hey. Eu gostei pacas da Rachel McAdams, não concordo que ela seja dispensável.
Mas concordo que a cena do jantar é uma das melhores do filme — que tem, como ponto forte ao meu ver, a inteligência dos diálogos, recheados de humor e sarcasmo!
Hasta!
VINICIUS
Robert DOwney Jr. está ótimo, mas o filme é muito divertido! Abs!
ADRIANO
Você aqui, meu amigo? Valeu!! Hehe, Eu adoro a Rachel McAdams, mas achei ela mal aproveitada… Quem sabe no 2? Abs!
bacana a tua definição de um ator de verdade, no sétimo parágrafo. com certeza o downey jr pode ser definido como um ator de verdade!
e como você falou, esse filme é mais fiel ao sherlock do que muitos imaginam.
é um belo filme-pipoca.
BRUNO
Obrigado! Mas isso me ocorreu na hora. Para falar corretamente sobre “atores de verdade”, acho que é necessário um outro post só pra isso… Abs!
Concordo com grande parte de seu texto, porém a presença de Rachel McAdams é marcante sim. Ela faz um personagem feminino nada típico e se saiu muito bem. Pode até ser que ela foi colocada lá para agradar o público feminino, mas o romance velado e a resistência de Holmes em assumi-la é divertida e interessante. É curioso notar que Guy foi tão fiel à história do personagem e mesmo assim ainda conseguiu sair um pouco do mais do mesmo, como vc bem observou. A explicação final é lamentável mesmo e deveria ser feita pelo Holmes de maneira mais elucidativa e devagar, como numa conversa informal entre ele e Watson num pub inglês. Seria muito melhor, concorda?
DENIS
Se é pra explicar tudo no fim, até que você imaginou uma solução melhor. Concordo com tudo o que disse, menos sobre Rachel McAdams, que parece atrasar o filme. Eu adoro ela, mas minha implicância é a mesma com a personagem de Scarlett Johansson em “O GRANDE TRUQUE”. É o mesmo problema… Abs!
Concordo que o filme diverte, mas eu me decepcionei. Particularmente, não acho que a criação do Downey é original, parece ser uma colagem de alguns personagens anteriores, com traços de cada um para criar o Sherlock dele. O grande astro do filme, pra mim, ainda é o diretor. O grande fraco, o roteiro. O elenco fica no meio do caminho.
E eu acho que sou o único que achou a trilha do Zimmer, principalmente nos momentos de ação, irritante. Conseguiu, com aqueles chiados de violino altos no meio das lutas, desviar minha atenção do que acontecia na tela. Incrível!
Algo me diz que a adição do Brad Pitt como Moriarty vai fazer um bem enorme à essa suposta nova série – por favor, troquem a atriz, que eu adorei em “Notebook”, mas que aqui não emplaca.
apesar de ter o downey e a macadams, ainda não vi. mas parece divertido mesmo, hein?
agora… o q vc acha do marc webb assumindo o reboot do ARANHA?
Acho que você foi direto ao ponto. Reconheceu as principais virtudes, reclamou da principal falha, e abraçou o filme pelo o que ele é: entretenimento agradável.
3/5
FABIO
Brad Pitt como Moriarty seria legal, mas prefiro um ator melhor no papel… Abs!
BRUNO
Acho terrível! Marc Webb fez um ótimo trabalho em 500 DIAS COM ELA e merece uma chance de continuar sua marca com algo que realmente o inspire. Ele ainda não falhou para precisar assumir um “HOMEM-ARANHA” no meio de uma franquia. Não acha? Abs!
WALLY
Obrigado! E é isso mesmo! Abs!
Não tinha muita expectativa, mas depois de ouvir a ótima trilha do Hans Zimmer, me convenci de dar uma chance ao filme.
Beijos!
Estou aqui para avisar que o Cinefilando fará liveblogging da cerimônia do globo de ouro amanhã a partir das 22:30!!!!!
Muito provavelmente faremos no Sags e no Oscar também!!!