fevereiro 21st, 2010

Educação

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Jenny (Carey Mulligan) tem 16 anos e vive na conservadora Inglaterra dos anos 60. É bonita, inteligente, educada, boa filha e ótima aluna que encanta amigos, professores e os próprios pais. Mas como toda menina, ela tem seus sonhos. O principal é conhecer Paris. É delicada, meiga e tem bom gosto pela música francesa da época. Toca cello, tem ideias avançadas para o seu tempo, além de uma alegria contagiante expressada em um sorriso cheio de vida. Sim, ela é maravilhosa. É a filha que gostaríamos de ter. Mas, claro, como toda menina de 16 anos, Jenny ainda tem uma percepção ingênua do mundo.

Se hoje o sistema ideal de educação ainda é discutido, imagine nos anos 60. Jenny é a filha que todo mundo pediu a Deus. Ela também é a aluna perfeita, que orgulha seus professores. Mas, cá entre nós, não queremos dizer aos filhos, sobrinhos ou irmãos mais novos que é impossível adquirir conhecimento e experiência na vida, além de uma noção mais abrangente do mundo sem sair da sala de aula ou das páginas de um belo livro. No fim, o que fica? Qual é o melhor caminho para o aprendizado de uma jovem brilhante, cheia de potencial? Existe um meio termo? Essa é a discussão em torno de Educação (An Education, 2009), filme da diretora dinamarquesa Lone Scherfig, de Italiano Para Principiantes, baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber.

Pronta para entrar em Oxford, Jenny conhece David (Peter Sarsgaard), um homem com o dobro de sua idade, mas que pode lhe mostrar o mundo de uma forma que só existia em seus sonhos. Com David, ela dá um tempo em sua vida de classe média e recebe a educação exigida no circuito de alto padrão, em restaurantes finos, concertos e… Paris. Ele diz, promete e cumpre coisas que jamais passariam pela cabeça dos meninos da escola.

Se David parece o príncipe encantado para muitas mulheres dos dias de hoje, imagine então o que ele significa para uma garota de 16 anos vivendo em um período da história em que o sexo feminino dificilmente teria outro destino além das funções de esposa e dona de casa. Sejamos francos: Jenny pode estudar nas melhores escolas e universidades, mas não fugiria da vassoura, do avental e da pilha de louças para lavar na pia.

Mas o que seria melhor para ela? O colégio como instituição ou a escola da vida? Seu pai (Alfred Molina, ótimo) é extremamente rigoroso e exigente no que diz respeito a sua educação. Ele a ama e jamais é violento ou grosso com Jenny, mas precisa assumir a função de pai, o homem da casa, que sabe que sua filha precisar estudar muito para vencer numa sociedade que não é justa com as mulheres. Mas quando ele é apresentado ao namorado (cheio da grana) da filha, surge uma luz no fim do túnel em sua mente: Agora, Jenny não precisa mais da escola, nem dos livros. David é um homem com totais condições de garantir um bom futuro a sua filha. Por outro lado, sua professora (Olivia Williams), que tem uma postura independente, rara entre as mulheres da época, condena o consequente desprezo de Jenny em relação aos estudos. Acha SIM que sua aluna pode se tornar uma mulher brilhante, sem depender de qualquer homem, nem ninguém.

Carey Mulligan_Best Actress 2
Educação parece pertencer àquela época em que os filmes eram bons. Um de seus charmes é ser um drama assumidamente à moda antiga. E isso inclui seu espírito, que esbanja leveza, encanto e inocência, apesar da protagonista defender conceitos consideravelmente avançados para os anos 60. Em parte, pelo roteiro pop de Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade, Febre de Bola, Um Grande Garoto), cheio de observações e sutilezas atuais, dando voz e personalidade a uma jovem à frente de sua época.

Mais do que tudo, Educação deve seu sucesso à atuação magistral de uma estrela que acaba de nascer: Carey Mulligan. Para quem gosta de cinema é impossível não se entusiasmar com sua presença na tela. Ela é encantadora sim, mas é dona de um talento explosivo para a sua idade que falta em muitas atrizes mais velhas. Ela dá a Jenny a inocência e a pureza que o filme pede para valorizar o drama de uma menina que ameaça amadurecer antes do tempo, sem ter muita consciência do que está fazendo, afinal ela tem apenas 16 anos. Lá no fundo, Jenny pode estar usando David, mas como é que ela pode saber disso com tal idade?

Carey Mulligan merece o Oscar de Melhor Atriz, mas não precisa dele para provar que Hollywood tem uma estrela em que estúdios, cineastas, produtores e o próprio público podem confiar. Cada reação de Jenny é sentida pela plateia, como se estivéssemos olhando em seus olhos e não houvesse nenhuma tela ali na frente separando a personagem de ficção da sala de cinema do mundo real.

Ela é a nova bonequinha de luxo. Aliás, preste atenção nas cenas em Paris, e tente não se lembrar de Audrey Hepburn, que também foi uma atriz talentosa, que emprestava a dramas e comédias uma sensação mágica de elegância, bom humor e energia. Todo e qualquer elogio feito a Carey Mulligan será pouco.

Educação (An Education, 2009)
Direção: Lone Scherfig
Roteiro: Nick Hornby (Baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber)
Elenco: Carey Mulligan, Olivia Williams, Dominic Cooper, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Rosamund Pike, Sally Hawkins e Emma Thompson

Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan) e Melhor Roteiro Adaptado

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