fevereiro 5th, 2010

Guerra ao Terror

The Hurt Locker
Sob qualquer ponto de vista, Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009) é o melhor filme já feito sobre a Guerra do Iraque. Mas isso chega a ser redundante, afinal não existem tantas produções assim sobre um conflito tão recente, que os próprios americanos ainda estão digerindo. Sabendo disso, a diretora Kathryn Bigelow olhou para as pessoas que convivem com o horror da guerra diariamente, privilegiando uma visão intimista, mas sem deixar de lado o cinema-espetáculo.

Guerra ao Terror é um esforço e tanto de uma surpreendente Kathryn Bigelow (Caçadores de Emoção, Estranhos Prazeres, K-19: The Widowmaker) para chamar a atenção do povão, que não vê a CNN, com um mix visceral de ação e suspense, ilustrando, na medida do possível, a dura realidade dos soldados americanos no Iraque.

Bigelow captura a essência do combate, assim como suas complicações morais e a influência disso tudo na vida de um soldado. Mas também dá um show para quem conhece a guerra pelos videogames. É um casamento perfeito entre os melhores recursos oferecidos por Hollywood e as influências do estilo documentarista. O espectador se sente como um correspondente no Iraque graças a uma câmera dominada pela tensão, reforçada pela fotografia queimada pelo sol de Barry Ackroyd e a montagem mais competente do ano, assinada por Chris Innis e Bob Murawski. É realidade, mas não deixa de ser cinemão.

The Hurt Locker 2
Porém, o terreno não é o que mais importa para a diretora. Guerra ao Terror é, principalmente, um fascinante estudo de personagens, podendo ser visto como um filme sobre vícios e viciados. Bom, pelo menos UM viciado. Exemplo ideal de um indivíduo da atual sociedade alienada, o Sargento William James (Jeremy Renner, em atuação estupenda) está no Iraque para desarmar bombas. Ele tem o pior trabalho do mundo, mas parece amar o que faz. Está certo que alguém precisa cortar os fios e não existe ninguém melhor do que ele. Mas pelas palavras de Chris Hedges, ex-correspondente de guerra do The New York Times, que abrem o filme, o Sargento James é mesmo viciado na adrenalina do combate. Ele é um artista, um gênio, como Picasso ou Da Vinci.

Só não pense que sua personalidade é escancarada na tela por Kathryn Bigelow e Jeremy Renner. Nada é óbvio em Guerra ao Terror. No início, o filme repleto de atores desconhecidos (tirando as ligeiras participações especiais de Ralph Fiennes, David Morse e Guy Pierce) sugere que o Sargento Sanborn (o ótimo Anthony Mackie) é o protagonista. Mas, aos poucos, a diretora revela que o complexo William James é o verdadeiro líder do elenco. Aliás, uma liderança que se torna evidente na fantástica cena do sniper, que joga no ar a imagem de um sujeito longe de ser um cara comum, vencido facilmente por suas emoções. James é a guerra encarnada.

Se a maioria dos soldados quer seguir as regras e voltar o quanto antes para casa, James não consegue ficar longe do inferno. Do contrário, sua vida não tem sentido. A complexidade aumenta: Estamos falando de vício ou a busca pela felicidade? E se ele realmente ama desarmar bombas? Pode ser que Guerra ao Terror questione se há uma interligação entre amor, desejo, loucura, sofrimento e vício em algum lugar dentro do ser humano.

The Hurt Locker 3
Mas Guerra ao Terror só tem pose de diferente. O Sargento James ama a sua família, mas jamais trairá seu verdadeiro “eu”. São demonstrações da razão da existência do homem na Terra. Por mais que as pessoas não compreendam seus métodos, James, assim como todos nós, está aqui para ser feliz. Guerra ao Terror é uma ode original à procura pela felicidade. Não confunda, portanto, com um apoio ao conflito armado. Kathryn está interessada em buscar humanidade, mesmo que dentro de um personagem tão frio e estranho aos nossos olhos. Ao mesmo tempo, ela assume a decadência da sociedade, reduzida a valores que não deveriam fazer parte de nossas vidas. De certa forma, William James dialoga com Ryan Bingham, o personagem de George Clooney em Amor sem Escalas, outro cara preenchido por valores vazios, mas que não consegue se livrar deles.

O ótimo roteiro de Mark Boal, repórter de guerra que também escreveu No Vale das Sombras (outra análise hollywoodiana sobre o Iraque), pode jogar com a experiência de quem esteve lá. Mas Guerra ao Terror busca originalidade na abordagem de um dos temas mais adorados pelo cinemão: a felicidade a qualquer preço. Pode trair “a volta para casa” e “a importância da família”, outras duas vertentes da indústria, mas não deixa de ser um filme acadêmico. E que mal há nisso? Guerra ao Terror chega onde Hollywood quer, mas, pelo menos, pega uma outra estrada.

E existe algo mais clássico do que uma trilha sonora marcante? A composição melancólica de Marco Beltrami e Buck Sanders, que surge nos raros momentos de silêncio, fica para o espectador, como a guerra fica para o soldado. Guerra ao Terror é como a droga. Dá aquela adrenalina no começo, mas logo vem o soco no estômago e a sensação de depressão. E, estranhamente, você não vê a hora de repetir a dose. Para Hollywood, não há nada melhor do que unir arte com ambições comerciais.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009)
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse e Evangeline Lilly

Obs: Crítica originalmente postada em 26 de agosto de 2009
(Acrescentando somente a viagem em relação ao filme “Amor sem Escalas”)

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