Guerra ao Terror

Sob qualquer ponto de vista, Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009) é o melhor filme já feito sobre a Guerra do Iraque. Mas isso chega a ser redundante, afinal não existem tantas produções assim sobre um conflito tão recente, que os próprios americanos ainda estão digerindo. Sabendo disso, a diretora Kathryn Bigelow olhou para as pessoas que convivem com o horror da guerra diariamente, privilegiando uma visão intimista, mas sem deixar de lado o cinema-espetáculo.
Guerra ao Terror é um esforço e tanto de uma surpreendente Kathryn Bigelow (Caçadores de Emoção, Estranhos Prazeres, K-19: The Widowmaker) para chamar a atenção do povão, que não vê a CNN, com um mix visceral de ação e suspense, ilustrando, na medida do possível, a dura realidade dos soldados americanos no Iraque.
Bigelow captura a essência do combate, assim como suas complicações morais e a influência disso tudo na vida de um soldado. Mas também dá um show para quem conhece a guerra pelos videogames. É um casamento perfeito entre os melhores recursos oferecidos por Hollywood e as influências do estilo documentarista. O espectador se sente como um correspondente no Iraque graças a uma câmera dominada pela tensão, reforçada pela fotografia queimada pelo sol de Barry Ackroyd e a montagem mais competente do ano, assinada por Chris Innis e Bob Murawski. É realidade, mas não deixa de ser cinemão.

Porém, o terreno não é o que mais importa para a diretora. Guerra ao Terror é, principalmente, um fascinante estudo de personagens, podendo ser visto como um filme sobre vícios e viciados. Bom, pelo menos UM viciado. Exemplo ideal de um indivíduo da atual sociedade alienada, o Sargento William James (Jeremy Renner, em atuação estupenda) está no Iraque para desarmar bombas. Ele tem o pior trabalho do mundo, mas parece amar o que faz. Está certo que alguém precisa cortar os fios e não existe ninguém melhor do que ele. Mas pelas palavras de Chris Hedges, ex-correspondente de guerra do The New York Times, que abrem o filme, o Sargento James é mesmo viciado na adrenalina do combate. Ele é um artista, um gênio, como Picasso ou Da Vinci.
Só não pense que sua personalidade é escancarada na tela por Kathryn Bigelow e Jeremy Renner. Nada é óbvio em Guerra ao Terror. No início, o filme repleto de atores desconhecidos (tirando as ligeiras participações especiais de Ralph Fiennes, David Morse e Guy Pierce) sugere que o Sargento Sanborn (o ótimo Anthony Mackie) é o protagonista. Mas, aos poucos, a diretora revela que o complexo William James é o verdadeiro líder do elenco. Aliás, uma liderança que se torna evidente na fantástica cena do sniper, que joga no ar a imagem de um sujeito longe de ser um cara comum, vencido facilmente por suas emoções. James é a guerra encarnada.
Se a maioria dos soldados quer seguir as regras e voltar o quanto antes para casa, James não consegue ficar longe do inferno. Do contrário, sua vida não tem sentido. A complexidade aumenta: Estamos falando de vício ou a busca pela felicidade? E se ele realmente ama desarmar bombas? Pode ser que Guerra ao Terror questione se há uma interligação entre amor, desejo, loucura, sofrimento e vício em algum lugar dentro do ser humano.

Mas Guerra ao Terror só tem pose de diferente. O Sargento James ama a sua família, mas jamais trairá seu verdadeiro “eu”. São demonstrações da razão da existência do homem na Terra. Por mais que as pessoas não compreendam seus métodos, James, assim como todos nós, está aqui para ser feliz. Guerra ao Terror é uma ode original à procura pela felicidade. Não confunda, portanto, com um apoio ao conflito armado. Kathryn está interessada em buscar humanidade, mesmo que dentro de um personagem tão frio e estranho aos nossos olhos. Ao mesmo tempo, ela assume a decadência da sociedade, reduzida a valores que não deveriam fazer parte de nossas vidas. De certa forma, William James dialoga com Ryan Bingham, o personagem de George Clooney em Amor sem Escalas, outro cara preenchido por valores vazios, mas que não consegue se livrar deles.
O ótimo roteiro de Mark Boal, repórter de guerra que também escreveu No Vale das Sombras (outra análise hollywoodiana sobre o Iraque), pode jogar com a experiência de quem esteve lá. Mas Guerra ao Terror busca originalidade na abordagem de um dos temas mais adorados pelo cinemão: a felicidade a qualquer preço. Pode trair “a volta para casa” e “a importância da família”, outras duas vertentes da indústria, mas não deixa de ser um filme acadêmico. E que mal há nisso? Guerra ao Terror chega onde Hollywood quer, mas, pelo menos, pega uma outra estrada.
E existe algo mais clássico do que uma trilha sonora marcante? A composição melancólica de Marco Beltrami e Buck Sanders, que surge nos raros momentos de silêncio, fica para o espectador, como a guerra fica para o soldado. Guerra ao Terror é como a droga. Dá aquela adrenalina no começo, mas logo vem o soco no estômago e a sensação de depressão. E, estranhamente, você não vê a hora de repetir a dose. Para Hollywood, não há nada melhor do que unir arte com ambições comerciais.
Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009)
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse e Evangeline Lilly
Obs: Crítica originalmente postada em 26 de agosto de 2009
(Acrescentando somente a viagem em relação ao filme “Amor sem Escalas”)



Perfeito

Que texto bom! Só fez aumentar minha ansiedade para conferir esse filme.
Beijos!
Gostei muito desse filme otávio.É a primeira vez que vejo um filme indicado ao Oscar(no período das nomeações)que está em DVD.Isso ocorreu porque o filme é de 2008,então pude ver o filme dublado e não precisei ir no cinema.Concordo com sua crítica,principalmente quando você diz que nada é obvio no filme.Continuo achando o filme No Vale das Sombras de Paul Haggis o melhor sobre a guerra do iraque,mas considero Guerra ao terror um filmaço e com uma fotografia simplesmente estupenda.O pior filme sobre a guerra no iraque?Leões e Cordeiros de Robert Radford que é super manipulativo.Abraço e seu blog assim como o do Vinicius é muito bacana.
KAMILA
Muito obrigado! Torço para que você veja o filme o quanto antes. Bjs!
PAULO RICARDO
Cara, concordo com seus comentários. A única divergência que temos é em relação ao melhor filme sobre a Guerra do Iraque, embora eu goste de NO VALE DAS SOMBRAS. E muito obrigado pelas palavras! Abs!
Exato, é o melhor sobre a guerra do Iraque. Há essa questão do conflito ser muito recente, mas também as tentativas de retratar tal guerra até o momento foram totalmente fracassadas. Por isso impressiona que uma diretora tenha feito o melhor filme de guerra em alguns anos. Só a trilha que não tem nada de mais…
VINICIUS
E ela pode ser a primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Direção, fazendo um filme de… homens. Abs!
Eu gostei bastante do filme, para mim, só não ganha de Bastardos Inglórios.
No longa, a Kathryn Bigelow, nos mostra como o Sargento William James “aprendeu a parar de se preocupar e começou a amar a bomba”. The Hurt Locker é um filme completo e que mantem uma regularidade narrativa, por isso, digno de todas as honras recebidas e que ainda receberá.
Abraço!
SANTIAGO
Legal, gostei da comparação com o título de DR. FANTÁSTICO. Mas é isso mesmo que você disse: Ele parou de se preocupar e começou a amar a bomba. Todo mundo merece ser feliz!
Abs!
Viagem mesmo, Otávio! haiuehaiu…
Valeu!
Como sabe, o filme passou despercebido por aqui, graças a um “belíssimo” trabalho por parte da distribuidora. Mas ainda estou procurando o DVD, senão vamos para o cinema mesmo. rsrsrsrs. Uma pena que este tipo de trabalho acontece com um filme como este, parece ótimo mesmo.
Beijos!
VINICIUS
Eu avisei, hehe…
MAYARA
Culpa da falta de conhecimento do pessoal que trabalha com a distribuição aqui no Brasil. Nem todo mundo trabalha com o que gosta nessa vida… Bjs!
Obviamente que discordamos né Otávio!
Acho engraçado que os adoradores desse filme, vc incluso, diz que é o melhor filme sobre a guerra do iraque.
Minha mémoria é ruim, confesso, mas não lembro de outro tirando Três Reis, que é superior a esse.
Guerra ao Terror é produto da academia. Tem méritos? Sim, mas tá longe de ser melhor em alguma coisa, mesmo que sem muito concorrente.
CASSIANO
Hmm, teve NO VALE DAS SOMBRAS, REDACTED, SOLDADO ANÔNIMO… Mas isso é redundante… Abs!
Nunca estive nem pretendo estar em guerra alguma, mas ao assistir “Guerra ao terror” tive a sensação de desespero e medo q/ os soldados provavelmente sentem. Talvez tenha sido esse o objetivo de Bigelow, portanto, se é produto da Academia(e é), foi muito bem dirigido e produzido, mesmo c/ outros bons filmes sobre o assunto.
Eu gosto de Soldado Anônimo, acho que é um filme subestimado.
Mas Guerra ao Terror é bem melhor. Que filme fantástico.
Abraços!
Ahhh Otávio, Soldado Anônimo é melhor!
superestimado.
GUSTAVO
Eu gosto do filme, mas entendo o que quer dizer. Abs!