Irvin Kershner, diretor de um filme só

Você já viu Os Olhos de Laura Mars, filme de 1978 com Faye Dunaway, Tommy Lee Jones e Raul Julia? É um thriller datado, mas bacana sobre uma mulher (Faye), que começa a enxergar com os olhos de um serial killer, enquanto ele retalha suas vÃtimas. O diretor é um tal de Irvin Kershner, que soube, pelo menos, conduzir a tensão do começo até a última cena, graças a um belo trabalho de direção de atores. O maior suspense que toma conta de Os Olhos de Laura Mars reside dentro das cabeças dos personagens.
Dois anos depois, George Lucas curtia seu sucesso pessoal com a vitória de Guerra nas Estrelas nas bilheterias. Com isso, o caminho para uma desejada sequência estava mais do que aberto, mas o cineasta estava muito mais preocupado em consolidar sua independência em Hollywood. Lucas queria, ao mesmo tempo, desenvolver o merchandising em torno da marca Star Wars, assim como sua produtora, a Lucasfilm, e sua divisão de efeitos especiais, a Industrial Light & Magic. Sem falar no fato de que precisava dar continuidade à sua saga cinematográfica.
Com liberdade total para fazer o que bem entendesse, Lucas decidiu que não teria tempo para dirigir O Império Contra-Ataca. Para isso, convidou Irvin Kershner, afinal o cineasta havia ficado fascinado com a profundidade dos personagens de Os Olhos de Laura Mars. Sabia que os heróis de Star Wars precisavam da ajuda de um diretor de fora, com um olhar mais sensÃvel. De cara, Kershner exitou, mas seu agente gritou: “Você está louco? Aceite!” Lucas explicou ao diretor o que queria para a continuação e… só. O resto era com Irvin Kershner, que curiosamente foi professor de George Lucas na USC (University of Southern California).
O diretor entendeu exatamente a relação de sua presença no set com o tom sombrio e dramático de O Império Contra-Ataca, o ato do meio de uma trilogia, ou uma grande ópera espacial, como ele diz. Um ato onde os heróis sofrem e tudo dá errado. É o pesadelo antes do triunfo final.

Kershner teve carta branca de George Lucas para explorar ainda mais os personagens principais. Todos passaram a enfrentar dilemas grandiosos, entre o amor, a amizade e o ódio, sentimentos que não foram tão aprofundados assim na primeira parte da saga, que, sozinha, é muito mais uma aventura inocente do que um épico extremamente dramático. Kershner explorou o amadurecimento de Luke Skywalker (Mark Hamill), ainda impetuoso, mas rumo à uma descoberta surpreendente que mudaria sua vida para sempre, e desenvolveu o romance entre a Princesa Leia (Carrie Fisher) e Han Solo (Harrison Ford). O diretor também trabalhou um pouco mais o senso de humor dos personagens e, claro, das situações. Nada de piadas, apenas humor. Achou que faltou esse detalhe no filme anterior. E ele estava certo.
Além do cinema, Irvin Kershner é apaixonado por pintura, fotografia e música, artes evidentes em O Império Contra-Ataca. Curiosamente, o sucesso do filme não impulsionou sua carreira. É como se George Lucas, com uma imagem já muito forte na indústria, levasse todos os créditos pela execução do (até hoje) melhor filme da saga Star Wars. De lá para cá, Kersh, como é chamado por seus amigos, assinou outras continuações de franquias consagradas, como 007 – Nunca Mais Outra Vez e RoboCop 2, mas jamais alcançou resultado semelhante em qualidade.
Aos 87 anos, Irvin Kershner está afastado do cinema. É praticamente o diretor de um filme só. Mas os milhões de fãs de Star Wars espalhados pelo mundo colocam sua carreira no nÃvel das obras de grandes cineastas que tiveram muito mais oportunidades do que ele. Para essa (imensa) faixa de público, Irvin Kershner será lembrado eternamente como um dos maiores diretores de todos os tempos.



Perfeito


“O Império Contra-Ataca” é mesmo o melhor filme de toda a série, então ao menos esse grande filme em sua carreira deve ser para sempre lembrado.
O q/ importa é a qualidade.Kershner acertou de primeira(e única) vez q/ produziu um filme. “O Império contra-ataca” é um dos grandes clássicos de ficção cientÃfica, com um enredo bem muito bem conduzido p/ uma continuação.
Melhor fazer um único filme que será lembrado por toda a eternidade do que nenhum. Acho que eu ficaria satisfeito com isso.
Pouca gente sabe, mas Lucas ficou furioso com a demora que Kershner em “Império…” apesar de ter contratado ele justamente pela capacidade de fazer o que ele não sabia, dirigir atores. O problema para Lucas é que ele havia jogado em “Império…” as fichas de seu futuro: queria fazer o filme sem ajuda nenhuma do estúdio, mas devido à demora nas filmagens, teve que pedir ajuda à FOX.
Recomendo fortemente Otávio que veja IMPÉRIO DOS SONHOS, documentário que fala da gênese, filmagem, bastidores e época dos três filmes da trilogia clássica. O documentário faz parte daquele boz em DVD da trilogia lançado anos atrás. É maravilhoso, com imagens de época, bastidores e depoimento, acompanhando os 3 filmes.
A história de Kershner e muita coisa sobre Lucas, suas razões para filmar Star Wars, as reações dele mesmo e os bastidores também tem em “Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock n’Roll salvou Hollywood”. Terminei de ler o livro semana passada e ainda estou salivando de satisfaçao, abrange desde Bonnie & Clyde até Touro Indomável e O Portal do ParaÃso, ascensão e queda da geração de outsiders e cineastas autorais que mudou o cinema. Lucas, Coppola, Scorsese, Bogdanovich, Friedkin, Spielberg, Ashby, Beaty e outros vistos nos bastidores com histórias cabeludas e revelações surpreendentes.
Ótima lembrança o anivesário do filme, está entre as 3 ficções de todos os tempos para mim. Eu ainda pretendo lembrar o mesmo aniversário de “Touro Indomável” daqui a alguns dias.
O Irvin acertou como raramente alguém faz. Fazer um filme, único! (em todos os sentidos bons da palavra).
Grande abraço.
Parabéns pelo excelente site.