fevereiro 8th, 2010

Lunar

Sam Rockwell_Moon

2009 foi um grande ano para a ficção científica. Como todo bom exemplar do gênero, Avatar, Distrito 9 e Star Trek refletem os problemas da atualidade, mas são focados no espetáculo, oferecendo as melhores aventuras que o cinema pode produzir. Colaborando para a manutenção do gênero, como seus colegas James Cameron, Neill Blomkamp e J.J. Abrams, mas remando contra a maré que privilegia o entretenimento, o diretor Duncan Jones (filho do grande David Bowie) fez de Lunar (Moon, 2009) um retorno à ficção científica enraizada na filosofia, que não olha para o espaço e suas estrelas, mas para os mistérios do complexo universo da mente humana.

Saem tiros, explosões e o som das naves cortando o espaço, entra o barulho mais insuportável de todos para o ser humano: o silêncio. Neste momento, você começa a associar Lunar a um grande clássico do cinema, não? Não deixa de ser correto, afinal os cenários internos da estação na Lua, com suas paredes brancas estouradas pela luz, e o clima silencioso são emprestados de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Mas as comparações com o clássico de Stanley Kubrick param aqui. As influências para a história de Duncan Jones estão mais ligadas a Metropolis e Blade Runner.

Sam Rockwell é Sam Bell, funcionário da empresa Lunar, que está chegando ao fim do trabalho de três longos anos de mineração do Helium 3, gás existente na Lua capaz de encerrar a crise de energia na Terra. Sua única companhia é o computador Gerty (voz de Kevin Spacey). Agora, Sam Bell espera pelas duas últimas semanas de trabalho para, enfim, voltar para casa, onde reencontrará mulher e filha. Bom, se você lembrou de HAL 9000 ao ler esse parágrafo, sabe que a espera de Sam Bell não será um mar de rosas. Mas é bom prestar atenção em outros aspectos, pois o foco de Duncan Jones não é bem 2001.

Quando o protagonista de Lunar descobre o tamanho da encrenca, o diretor lança velhas perguntas no ar, como “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?” ou “Para onde vamos?”. Mas ele quer mesmo é discutir sobre a opressão do patrão ao seu assalariado. Lunar é a visão sufocante do funcionário ideal de uma grande empresa. Para Duncan Jones, podemos trabalhar dobrado e mostrar o quanto somos bons nisso, mas sempre seremos descartáveis. Em seu filme, o protagonista trabalha, trabalha, mas tem prazo de validade. Para a empresa, tanto faz. Alguma ligação com os nossos tempos? Ou mera coincidência?

Rodado em apenas 33 dias, com truques à moda antiga, como as miniaturas nas cenas externas, Lunar é uma boa surpresa para os fãs do gênero. É a força da imaginação de um diretor superando os limites de um baixo orçamento para se fazer uma ficção científica. É o poder da narrativa, que domina a atenção do público desde os primeiros minutos, sem que ninguém pare de pensar na trama para avaliar a parte técnica do filme.

Ligado na história do gênero favorito de Isaac Asimov, Philip K. Dick e Arthur C. Clarke dentro do cinema, Duncan Jones não tem medo de abraçar a imperfeição e deixar claro na tela, em alguns momentos, que é marinheiro de primeira viagem no que diz respeito à comandar um longa-metragem. Aliás, os grandes jamais se intimidaram diante dos limites da tecnologia (ou da escassez de dinheiro). E como não ficar tranquilo quando seu filme ganha sentido e ultrapassa barreiras graças à voz e presença de um ator tão visceral quanto Sam Rockwell? No meio de tudo isso, há a trilha intimista de Clint Mansell, que dá o tom do pesadelo e o desespero mais ou menos kafkiano do protagonista cercado pela insanidade do mundo.

Duncan Jones só não precisava ter explicado todas as perguntas de seu filme, em uma conclusão acelerada, que em nada combina com seus dois primeiros terços. Mas, tudo bem, Sam Rockwell está lá para segurar o filme nas costas quando ele mais precisa. E nada mal para um diretor principiante, que vem de uma família de nome que lembra talento, criatividade e ousadia.

Lunar (Moon, 2009)
Direção: Duncan Jones
Roteiro: Nathan Parker
Elenco: Sam Rockwell e a voz de Kevin Spacey


Obs: O filme foi lançado diretamente em DVD no Brasil

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