fevereiro 12th, 2010

Nine

NINE sucks 2

"Nine" é um belo pastel de vento

Vamos combinar uma coisa: Nine (Nine, 2009) só pode ser avaliado de forma justa por quem viu 8 1/2, afinal o musical de Rob Marshall (Chicago) é uma adaptação da montagem da Broadway em homenagem ao clássico de Federico Fellini. Sério. Não é o tipo de filme que pode ser visto ignorando sua fonte de inspiração, porque Nine pode ser facilmente confundido como uma ode aos musicais de Bob Fosse, o que seria um erro. Se essa fosse a intenção, Rob Marshall até que mereceria um desconto, sem jamais chegar aos pés do diretor de All That Jazz e Cabaret, claro. Mas como o material de origem é 8 1/2, eu não diria que Fellini está se revirando no túmulo. Diria que ele deu de ombros.

Vamos combinar outra coisa: o estilo manjado (e picareta) de Rob Marshall para fazer (ou forçar) uma nova geração de cinéfilos apreciar os musicais, com cortes mostrando os atores cantando e dançando para explicar o drama da “cena real” em questão, é recurso de cineasta de segunda categoria. Quando filmes de outros gêneros explicam exageradamente seus finais ou insistem na narração em off para não deixar o público com dúvidas na saída do cinema, tem gente que reclama. Agora, quando Rob Marshall faz o mesmo em seus musicais, aí pode? Por exemplo, Marion Cotillard discute com Daniel Day-Lewis em cena. Então, Rob Marshall apresenta, paralelamente, um delírio musical explicando 100% o que ela já queria dizer com todas as letras.

Mais: Todo o glamour, com belas mulheres, cortes espertos na edição, muita iluminação aqui e ali não escondem um conteúdo vazio, sem paixão na hora de ser contado ao público. Lembre daqueles filmes de ação com muito tiro, correria, pancadaria e explosão que escondem uma trama banal. Lembre do show de efeitos visuais em outros filmes que desviam a fragilidade da história. E olha que muitos reclamaram de Avatar, quando o exemplo do mau cinema cheio de plumas e paetês está em Nine.

Não foi inspiração que faltou a Rob Marshall, afinal estamos falando de 8 1/2. Nem elenco, porque temos Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, Marion Cotillard, Kate Hudson, Penélope Cruz, Judi Dench e Sophia Loren. Aliás, quer saber como desperdiçar um belo elenco? Aprenda com Rob Marshall. Ok, Daniel Day-Lewis canta mal, eu sei. Mas prefiro bater no diretor, que foi vendido como especialista em musicais, discípulo de Bob Fosse. Como, então, esse sujeito não conseguiu fazer o Mestre Jedi Daniel Day-Lewis cantar? Longe das cenas musicais, o ator vencedor do Oscar por Meu Pé Esquerdo e Sangue Negro, está ótimo como sempre, trasmitindo muito bem a angústia criativa e existencial de seu personagem, o diretor italiano de cinema Guido Contini, papel de Marcello Mastroianni no clássico de Fellini.

O problema é ainda mais grave com o elenco de apoio. Nicole Kidman praticamente não entra em campo, como Ronaldo no Corinthians. Sophia Loren, meu Deus, é uma estátua. Já Kate Hudson seria uma agulha no palheiro se não fosse pelo empolgante número musical, Cinema Italiano, que ela canta e dança com muita propriedade. Judi Dench não. Ela é respeitada pelo diretor e tem seus momentos, até que se sai bem em sua cena musical. E preciso elogiar a decisão de Rob Marshall em não dar falas para Fergie, poupando a moça de um vexame. Aliás, ela é a única que sabe cantar, por motivos óbvios, e faz bonito. Mas quem se dá bem mesmo é Penélope Cruz e Marion Cotillard. A primeira usa e abusa de sua sensualidade nos palcos, mas revela uma contraditória e surpreendente inocência ao lidar com sua paixão por Guido. Já Marion é uma daquelas atrizes que deve ser levada cada vez mais a sério. Que mulher fantástica! Seu papel é forte e toda a sua agonia fica registrada, com ou sem cantoria, pelo poder de seu olhar.

NINE sucks

Nicole: "Não se preocupe, Daniel... Não conto a ninguém que você não sabe cantar..."

Além do elenco desperdiçado, Nine também sofre com canções fracas, que não ficam na memória, exceto por Cinema Italiano, cantada por Kate Hudson, e Be Italian, interpretada por Fergie. Senhoras e senhores, este é um musical sem o domínio de boas canções. Imaginem só…

Mas o maior pecado de Nine não é tentar explicar os devaneios do Guido de Mastroianni em 8 1/2, como o safado 2010 – O Ano em que Faremos Contato foi para 2001 – Uma Odisseia no Espaço. O maior pecado é a falta de paixão de Rob Marshall em relação ao filme de Fellini. Mas isso é evidente: 8 1/2 é Fellini sobre Fellini. Como outro diretor poderia entender? Marshall quer mesmo é se aproveitar do rótulo famoso para fazer seu musical. É como aquele tradicional projeto hollywoodiano, que adapta qualquer livro de sucesso para o cinema sem qualquer identificação do diretor com o material original.

Se Marshall viu em 8 1/2 a oportunidade perfeita para juntar sonho e realidade, ele precisa rever All That Jazz, em que Bob Fosse se aproxima de forma muito mais competente dessa intenção, sem que tenha qualquer ligação explícita com a obra-prima de Fellini. No fim, Nine é como pastel de vento: bonitinho, a boca fica cheia d’água, mas quando você morde, não tem nada. O sentimento reflete uma fala do próprio Guido: “A embalagem me interessa menos que o conteúdo.”

Nine (Nine, 2009)
Direção: Rob Marshall
Roteiro: Michael Tolkin e Anthony Minghella
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, e Stacy Ferguson

Críticas . Posts