Nine

"Nine" é um belo pastel de vento
Vamos combinar uma coisa: Nine (Nine, 2009) só pode ser avaliado de forma justa por quem viu 8 1/2, afinal o musical de Rob Marshall (Chicago) é uma adaptação da montagem da Broadway em homenagem ao clássico de Federico Fellini. Sério. Não é o tipo de filme que pode ser visto ignorando sua fonte de inspiração, porque Nine pode ser facilmente confundido como uma ode aos musicais de Bob Fosse, o que seria um erro. Se essa fosse a intenção, Rob Marshall até que mereceria um desconto, sem jamais chegar aos pés do diretor de All That Jazz e Cabaret, claro. Mas como o material de origem é 8 1/2, eu não diria que Fellini está se revirando no túmulo. Diria que ele deu de ombros.
Vamos combinar outra coisa: o estilo manjado (e picareta) de Rob Marshall para fazer (ou forçar) uma nova geração de cinéfilos apreciar os musicais, com cortes mostrando os atores cantando e dançando para explicar o drama da “cena real” em questão, é recurso de cineasta de segunda categoria. Quando filmes de outros gêneros explicam exageradamente seus finais ou insistem na narração em off para não deixar o público com dúvidas na saída do cinema, tem gente que reclama. Agora, quando Rob Marshall faz o mesmo em seus musicais, aí pode? Por exemplo, Marion Cotillard discute com Daniel Day-Lewis em cena. Então, Rob Marshall apresenta, paralelamente, um delírio musical explicando 100% o que ela já queria dizer com todas as letras.
Mais: Todo o glamour, com belas mulheres, cortes espertos na edição, muita iluminação aqui e ali não escondem um conteúdo vazio, sem paixão na hora de ser contado ao público. Lembre daqueles filmes de ação com muito tiro, correria, pancadaria e explosão que escondem uma trama banal. Lembre do show de efeitos visuais em outros filmes que desviam a fragilidade da história. E olha que muitos reclamaram de Avatar, quando o exemplo do mau cinema cheio de plumas e paetês está em Nine.
Não foi inspiração que faltou a Rob Marshall, afinal estamos falando de 8 1/2. Nem elenco, porque temos Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, Marion Cotillard, Kate Hudson, Penélope Cruz, Judi Dench e Sophia Loren. Aliás, quer saber como desperdiçar um belo elenco? Aprenda com Rob Marshall. Ok, Daniel Day-Lewis canta mal, eu sei. Mas prefiro bater no diretor, que foi vendido como especialista em musicais, discípulo de Bob Fosse. Como, então, esse sujeito não conseguiu fazer o Mestre Jedi Daniel Day-Lewis cantar? Longe das cenas musicais, o ator vencedor do Oscar por Meu Pé Esquerdo e Sangue Negro, está ótimo como sempre, trasmitindo muito bem a angústia criativa e existencial de seu personagem, o diretor italiano de cinema Guido Contini, papel de Marcello Mastroianni no clássico de Fellini.
O problema é ainda mais grave com o elenco de apoio. Nicole Kidman praticamente não entra em campo, como Ronaldo no Corinthians. Sophia Loren, meu Deus, é uma estátua. Já Kate Hudson seria uma agulha no palheiro se não fosse pelo empolgante número musical, Cinema Italiano, que ela canta e dança com muita propriedade. Judi Dench não. Ela é respeitada pelo diretor e tem seus momentos, até que se sai bem em sua cena musical. E preciso elogiar a decisão de Rob Marshall em não dar falas para Fergie, poupando a moça de um vexame. Aliás, ela é a única que sabe cantar, por motivos óbvios, e faz bonito. Mas quem se dá bem mesmo é Penélope Cruz e Marion Cotillard. A primeira usa e abusa de sua sensualidade nos palcos, mas revela uma contraditória e surpreendente inocência ao lidar com sua paixão por Guido. Já Marion é uma daquelas atrizes que deve ser levada cada vez mais a sério. Que mulher fantástica! Seu papel é forte e toda a sua agonia fica registrada, com ou sem cantoria, pelo poder de seu olhar.

Nicole: "Não se preocupe, Daniel... Não conto a ninguém que você não sabe cantar..."
Além do elenco desperdiçado, Nine também sofre com canções fracas, que não ficam na memória, exceto por Cinema Italiano, cantada por Kate Hudson, e Be Italian, interpretada por Fergie. Senhoras e senhores, este é um musical sem o domínio de boas canções. Imaginem só…
Mas o maior pecado de Nine não é tentar explicar os devaneios do Guido de Mastroianni em 8 1/2, como o safado 2010 – O Ano em que Faremos Contato foi para 2001 – Uma Odisseia no Espaço. O maior pecado é a falta de paixão de Rob Marshall em relação ao filme de Fellini. Mas isso é evidente: 8 1/2 é Fellini sobre Fellini. Como outro diretor poderia entender? Marshall quer mesmo é se aproveitar do rótulo famoso para fazer seu musical. É como aquele tradicional projeto hollywoodiano, que adapta qualquer livro de sucesso para o cinema sem qualquer identificação do diretor com o material original.
Se Marshall viu em 8 1/2 a oportunidade perfeita para juntar sonho e realidade, ele precisa rever All That Jazz, em que Bob Fosse se aproxima de forma muito mais competente dessa intenção, sem que tenha qualquer ligação explícita com a obra-prima de Fellini. No fim, Nine é como pastel de vento: bonitinho, a boca fica cheia d’água, mas quando você morde, não tem nada. O sentimento reflete uma fala do próprio Guido: “A embalagem me interessa menos que o conteúdo.”
Nine (Nine, 2009)
Direção: Rob Marshall
Roteiro: Michael Tolkin e Anthony Minghella
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, e Stacy Ferguson



Perfeito


Se lembra do texto sobre expectativas? e depois de ter conferido esse filme … valeu a pena ter esperado a esmo com esse elenco e com tudo que prometia?
Infelizmente é mais uma prova que muitas vezes … que uma peça não move sozinha e que o conjunto é que faz a diferença …
Abraços amigo!
Marion Cotillard e Daniel Day-Lewis salvam o filme – o pouco que resta dele. Day-Lewis é tão bom ator que me faz compará-lo a Marlon Brando, enfim. O resto das chacretes estão lá apenas como enfeites para a decoração vazia dessa “orquestra semfônica”.
Abs!
Infelizmente, pelo jeito, parece que estamos diante do novo “Memórias de uma Gueixa”. Rob Marshall ataca novamente. Será que ele vai ser o diretor de um filme só???
Beijos!
Já aproveitando o que a Kamila comentou acima, realmente parece que o Marshall ficou em “Chicago”. Desde então só apresentou filmes sem personalidade alguma e tenho algum receio que seu próximo enterre definitivamente a carreira de diretor.
acho que funcionaria melhor se investisse mais no humor auto-depreciativo dessa frase que encerra a crítica.
Gosto muito das canções citadas por você no texto. Uma pena que o diretor não ter conseguido se inspirar em fazer um filme bom, acho que é o elenco estelar que o distraiu muito para chegar a este ponto. Verei, sem pressa.
Beijos!
Acho que é unanimidade a decepção de “Nine”. Medo…
O problema de musicais é q/ ou ficam excelentes ou péssimos, não existindo o “mais ou menos”. Nine está na segunda opção!!!!
Vou ver no DVD, e olhe lá. Não esperava nada mesmo, apesar do time de gostosas ser excelente. =D
Daleô
E eu que não entendia o motivo do filme estar sendo esquecido em várias premiações. Depois que vi descobri. Tirando alguns momentos da Cotillard (unanimidade) e da Cruz (que para alguns sua única virtude foi abrir as pernas), o quesito interpretação fica devendo e muito. Além disso, as canções Be Italian e Cinema Italiano são dignas de citação, mesmo que a Kate Hudson tenha mais gritado que cantado. A campanha Rob Marshall volta para a Broadway tem que começar o quanto antes. Ele transformou um elenco de estrelas em um monte de fantoches inexpressivos.
Abraço!
FILMÂO!
Eu acho que o longa deveria ser avaliado de forma individual.. Compara-lo a obra de Fellini é o mesmo que comparar um obra cinematográfica ao livro de origem. São mídias diferentes, épocas diferentes e propostas diferentes. Assisti ambos os longas e os apreciei de formas diferentes. Daniel Day-Lewis e principalmente Marion Cotillard estão ótimos. OBS: Quem sabe, comparamos todos os filmes de gangsters com O PODEROSO CHEFÃO. Fica complicado não? Cada filme é um filme, mesmo quando tenta homenagear outro.
Até hoje não entendi pq Rob Marshal saiu dos palcos da Broadway para fazer do cinema um… palco da Broadway!! Acho que o cara tem medo de ser cineasta! E é isso que falta em Nine – ser cinema!
Já estou com filme aqui no meu pc…
só me falta coragem pra assistir!
Se ele é diretor de um filme só, então vamos esperar para que ele faça esse filme logo.
Abs!!
JOÃO
Não valeu a pena esperar, apesar de Penélope e, principalmente, Marion, que estão ótimas! Abs!
PEDRO
Orquestra Semfônica? Gostei. Eu gosto muito do Daniel Day-Lewis, mas o medíocre Rob Marshall, dito especialista em musicais, não soube fazê-lo cantar. Abs!
KAMILA
Que filme? Você fala de CHICAGO??? Não pode ser, querida… Bjs!
VINICIUS
Seu próximo filme será PIRATAS DO CARIBE 4. Não vai enterrar a carreira dele porque aposto que será um sucesso de bilheteria. Só por isso. Abs!
BRUNO
Concordo! Disse tudo! Abs!
MAYARA
Tenha pressa não… Tem coisa melhor nos cinemas. Bjs!
WALLY
Unanimidade? Não ligue pra isso não. Por exemplo, todo mundo parece ter odiado THE BLIND SIDE. Estou até com medo de gostar do filme… Abs!
RAQUEL
Interessante sua observação. E você tem razão! Bjs!
SANTIAGO
A Pénelope abre as pernas sim, hehe, mas ela está bem no filme, vai… Abs!
CASSIANO
Ah, claro! Você prova ao Wally que não há unanimidade. Abs!
JAIME
Discordo! No caso de mídias diferentes, OK. Mas tanto NINE quanto OITO E MEIO são filmes feitos para o cinema. Então, falamos da mesma mídia. No caso dos filmes de gangsteres, citados por você, o que fica é um padrão de qualidade, uma base. OS INTOCÁVEIS, por exemplo, é excelente, mas prefiro O PODEROSO CHEFÃO. E OS INTOCÁVEIS é excelente independentemente de O PODEROSO CHEFÃO. Minha implicância é: Se fazem uma refilmagem de O PODEROSO CHEFÃO, devemos compará-lo ao original. NINE não é refilmagem de OITO E MEIO, mas é uma versão musical do mesmo, portanto… Abs!
WELLINGTON
A culpa não é dele. A culpa é de Hollywood, que acha que qualquer um pode dirigir filmes. Abs!
GUSTAVO
Vai, cara, coragem! Abs!
MARCUS
Sempre acho que um filme deve ser visto no cinema. E não em DVD. Abs!