fevereiro 18th, 2010

O Lobisomem

The Beauty and the Beast
Uma coisa é Hollywood homenagear o cinema clássico de horror, em especial os monstros da Universal, como O Lobisomem, de 1941. Outra coisa é fazer hoje um filme de forma tão ingênua e precária quanto naquela época. É o caso de O Lobisomem (The Wolfman, 2010), que beira o constrangimento. A refilmagem com Benicio Del Toro no papel de Lawrence Talbot, o homem amaldiçoado que já foi vivido por Lon Chaney Jr. é um filme de terror dos anos 40, com todos os seus prós e contras, disfarçado de superprodução do novo milênio.

É como torrar dinheiro. O novo O Lobisomem deveria ter seguido a ideia de Steven Spielberg e George Lucas, em Os Caçadores da Arca Perdida, que homenageia os filmes B e as matinês que alegraram a infância de seus realizadores nos cinemas. Os filmes da série Indiana Jones são frutos conscientes de suas épocas, sem abandonar a homenagem, a influência, assim como Quentin Tarantino fez bonito com os longas de artes marciais em Kill Bill. Já o que Joe Johnston fez em O Lobisomem foi viajar no tempo e imaginar como seria seu trabalho como um diretor apaixonado pelos filmes do gênero, em plenos anos 40, só que com a ajuda da tecnologia de hoje.

Outra saída para Joe Johnston teria sido o filme de monstro clássico, sombrio e com sangue, mas com uma roupagem romântica e luxuosa, como Francis Ford Coppola e Kenneth Branagh fizeram, respectivamente, em Drácula de Bram Stoker e Frankenstein de Mary Shelley. Tanto Coppola quanto Branagh seguiram os modelos que comentei no parágrafo anterior, mas a intenção deste O Lobisomem é ser fiel, reproduzindo em forma e conteúdo o filme original de 1941.

O resultado é o Cine Trash mais caro da história. Johnston exagerou no conceito “à moda antiga” e entregou um filme velho em todos os seus conceitos, com exceção da parte técnica, área em que o diretor é craque. O Lobisomem é amador ao ponto de apresentar atuações dignas de um filme de Edward D. Wood Jr., com direito à erros de timing entre os diálogos, desferidos com a sutileza de um elefante e uma motivação de quem está assistindo a uma pescaria matinal após uma noite em claro. O irônico é que Ed Wood jamais teve todo esse dinheiro para construir uma carreira que o levou ao título folclórico de “pior diretor de todos os tempos”.

AAAAAAAAAAAAAAAAAH
Ah, as atuações… Coitada de Emily Blunt, tão bonita e talentosa, sendo desperdiçada em um filme desses, que nem precisava de uma donzela para ser a bela em um mundo dominado por homens agindo como verdadeiros animais. Mas ela ainda tem futuro, diferente do macaco velho e acomodado Sir Anthony Hopkins. Ok, sei que é polêmico, mas o ex-Anthony Hopkins de O Silêncio dos Inocentes é preguiçoso e não é de hoje. Seu descaso em cena é mais do que evidente, como se ele demonstrasse que é o tal, só porque teve um grande papel sobre um sujeito complexo que comia carne humana e não piscava em uma única cena. Ganhou um Oscar de Melhor Ator, quando deveria ter recebido o de coadjuvante, porque Nick Nolte era o legítimo dono da estatueta principal por O Príncipe das Marés. Mas isso é outra história. Egocêntrico, Hopkins já disse várias vezes que não aceita fazer mais do que três tomadas em suas cenas. É descaso ou não é? Parece que trabalha com cinema para pagar contas, sem prazer algum pelo que faz. Nem é o caso de ligar o piloto automático, como fazem Jack Nicholson e Al Pacino, em nome da diversão. Apático, Hopkins não se importa com você nem com nada. Já Benicio Del Toro até que tenta sustentar o filme, mas é dureza contracenar com um senhor que não está nem aí.

O que salva o filme? Ou, prefiro dizer, o que mantém o espectador acordado? As ótimas cenas de transformação de Benicio Del Toro em lobisomem e seus momentos como a besta aterrorizando uma Londres muito bem caracterizada nas noites de Lua Cheia. Os efeitos visuais e, quiçá, a maquiagem são de primeira. Só não consegue bater a criatividade de Um Lobisomem Americano em Londres, que permanece imbatível em impressionar o espectador na cena de transformação. O problema é quando Benicio Del Toro volta ao normal, abrindo espaço para o tédio e o ridículo dividirem as atenções.

Tudo isso não quer dizer que O Lobisomem, de 1941, seja ruim. Trata-se de um produto daquela época, que teve a dignidade de assumir uma fase da história do cinema. Em 20, 30 anos, ainda será lembrado. Diferente deste  filme “antigo”, mas lançado em 2010, que teve inúmeros problemas em seus bastidores, com demissão de diretor e outras palhaçadas. E o resultado na tela não poderia ter sido outro.

Sabendo disso, prefiro atacar o egocentrismo da Universal, dona do seu próprio nariz arrebitado, afinal Joe Johnston é um diretor que entende de fantasia e emoção. Ele é o cineasta responsável por longas divertidíssimos como Querida, Encolhi as Crianças, Rocketeer, Jumanji, Hidalgo, Jurassic Park III (que é melhor que o 2, dirigido por Steven Spielberg) e, meu favorito, Céu de Outubro. Como, então, ele foi capaz de apresentar O Lobisomem? Eis o grande mistério.

O Lobisomem (The Wolfman, 2010)
Direção: Joe Johnston
Roteiro: Andrew Kevin Walker e David Self (Baseado no filme O Lobisomem, de 1941, dirigido por George Waggner, com roteiro de Curt Siodmak)
Elenco: Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt, Hugo Weaving, Mario Marin-Borquez, Art Malik, Michael Cronin e Geraldine Chaplin

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