fevereiro 10th, 2010

Oscar 2010: O reverso da fortuna

LA Confidential_YEAH

"Los Angeles: Cidade Proibida" (1997), de Curtis Hanson

Em um passado não muito distante, os filmes favoritos da crítica não costumavam seduzir os conservadores membros da Academia. Em outras palavras, as melhores produções, de acordo com as associações de críticos dos EUA, não antecipavam o vencedor do Oscar de Melhor Filme. Porém, aos poucos, isso vem mudando.

Sinal dos tempos? Quem está com a mente mais aberta? Será que a Academia está mais crítica? Ou os críticos estão mais conservadores? Qual será o motivo da mudança de paradigma? Seja pela enorme quantidade de prêmios que antecedem o Oscar, seja pela renovação dos integrantes da Academia ano após ano, ou mesmo pela nova safra de críticos que invade o mercado, os resultados comprovam que o Oscar vem concordando com as escolhas da crítica. Para o bem ou para o mal, o favoritismo de Guerra ao Terror à principal estatueta dourada confirma essa tendência.

Saving Private Ryan

"O Resgate do Soldado Ryan" (1998), de Steven Spielberg

A vitória de Quem Quer Ser um Milionário? no ano passado reforçou ainda mais essa ideia, afinal o filme de Danny Boyle tem a cara de Oscar - feinho, sujinho, mas emocionante aos borbotões, redondinho e acadêmico. Ainda assim, ganhou quase todos os prêmios da crítica. Talvez por ser meio sujinho. Agora, temos Guerra ao Terror, idolatrado pela crítica, mas com grandes chances de levar o Oscar de Melhor Filme. Há 10 ou 15 anos atrás, arriscar o longa de Kathryn Bigelow como líder da corrida pela estatueta dourada era como assinar na testa do apostador um atestado de loucura.

Vamos lá: Há 15 anos, o filme favorito da crítica foi Razão e Sensibilidade, de Ang Lee. No Oscar, deu o grandioso Coração Valente, de Mel Gibson. Em 1996, Fargo, dos irmãos Coen, conquistou os críticos, mas a Academia preferiu o épico romântico O Paciente Inglês, de Anthony Minghella. Em 1997, Titanic, de James Cameron, faturou 11 Oscars, mas as associações de críticos defenderam Los Angeles: Cidade Proibida, de Curtis Hanson, como o melhor do ano. A história se repetiu em 1998, quando a Academia premiou Shakespeare Apaixonado, de John Madden (QUEM?), e os críticos preferiram O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. Na década de 90, poucas vezes os dois lados concordaram: Filmes como O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme, A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, e Beleza Americana (1999), de Sam Mendes, conquistaram tanto os críticos quanto a Academia.

Brokeback Mountain

"O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), de Ang Lee

Em 1999, com Beleza Americana, isso começou a mudar. Houve um equilíbrio entre as duas partes. Isso se repetiu em 2000, com Gladiador, de Ridley Scott, embora muitas associações de críticos prefiram Traffic, de Steven Soderbergh. Em 2001, os críticos também ficaram divididos entre Uma Mente Brilhante, de Ron Howard, que levou o Oscar, e Entre Quatro Paredes, de Todd Field. Em 2002, Chicago, de Rob Marshall, saiu vitorioso nos dois lados, assim como O Senhor dos Anéis – O Retorno de Rei, de Peter Jackson, em 2003.

Nos dois anos seguintes, a trégua havia terminado. A discórdia imperou novamente entre crítica e Academia. Em 2004, os primeiros escolheram Sideways, de Alexander Payne, como o melhor do ano. O Globo de Ouro preferiu O Aviador, de Martin Scorsese, mas o Oscar foi para Menina de Ouro, de Clint Eastwood. Foi a última das saladas mistas. Em 2005, O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, conquistou tanto a crítica quanto o Globo de Ouro. Tudo indicava que a Academia faria o mesmo, mas na hora H, fechou com Crash – No Limite, de Paul Haggis. Sinceramente, qual dos dois filmes ficou para a eternidade? Crash ou Brokeback Mountain?

Sideways

"Sideways - Entre Umas e Outras" (2004), de Alexander Payne

De 2006 pra cá, nenhuma surpresa. Crítica e Academia entraram novamente numa lua de mel que ainda não terminou. Embora alguns críticos tenham escolhido Voo United 93, de Paul Greengrass, como o melhor de 2006, a maioria preferiu Os Infiltrados, de Martin Scorsese, assim como o Oscar. Nos anos posteriores, os dois lados elegeram Onde os Fracos Não Têm Vez, de Joel Coen & Ethan Coen, e Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, como os melhores. Aliás, o filme dos irmãos Coen tem a cara da crítica, enquanto Slumdog tem o nariz e a boca da Academia, talvez os olhos. Engraçado, é como se as duas partes tivessem entrado num acordo.

E neste ano? Será que Avatar, a extravagância cinematográfica de James Cameron, e Bastardos Inglórios, a vingança judia de Quentin Tarantino, são capazes de pôr um fim nessa lua de mel? Ou Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, vai mesmo prolongar esse romance entre críticos e Academia?

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