Oscar 2010: O reverso da fortuna

"Los Angeles: Cidade Proibida" (1997), de Curtis Hanson
Sinal dos tempos? Quem está com a mente mais aberta? Será que a Academia está mais crítica? Ou os críticos estão mais conservadores? Qual será o motivo da mudança de paradigma? Seja pela enorme quantidade de prêmios que antecedem o Oscar, seja pela renovação dos integrantes da Academia ano após ano, ou mesmo pela nova safra de críticos que invade o mercado, os resultados comprovam que o Oscar vem concordando com as escolhas da crítica. Para o bem ou para o mal, o favoritismo de Guerra ao Terror à principal estatueta dourada confirma essa tendência.

"O Resgate do Soldado Ryan" (1998), de Steven Spielberg
A vitória de Quem Quer Ser um Milionário? no ano passado reforçou ainda mais essa ideia, afinal o filme de Danny Boyle tem a cara de Oscar - feinho, sujinho, mas emocionante aos borbotões, redondinho e acadêmico. Ainda assim, ganhou quase todos os prêmios da crítica. Talvez por ser meio sujinho. Agora, temos Guerra ao Terror, idolatrado pela crítica, mas com grandes chances de levar o Oscar de Melhor Filme. Há 10 ou 15 anos atrás, arriscar o longa de Kathryn Bigelow como líder da corrida pela estatueta dourada era como assinar na testa do apostador um atestado de loucura.
Vamos lá: Há 15 anos, o filme favorito da crítica foi Razão e Sensibilidade, de Ang Lee. No Oscar, deu o grandioso Coração Valente, de Mel Gibson. Em 1996, Fargo, dos irmãos Coen, conquistou os críticos, mas a Academia preferiu o épico romântico O Paciente Inglês, de Anthony Minghella. Em 1997, Titanic, de James Cameron, faturou 11 Oscars, mas as associações de críticos defenderam Los Angeles: Cidade Proibida, de Curtis Hanson, como o melhor do ano. A história se repetiu em 1998, quando a Academia premiou Shakespeare Apaixonado, de John Madden (QUEM?), e os críticos preferiram O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. Na década de 90, poucas vezes os dois lados concordaram: Filmes como O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme, A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, e Beleza Americana (1999), de Sam Mendes, conquistaram tanto os críticos quanto a Academia.

"O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), de Ang Lee
Em 1999, com Beleza Americana, isso começou a mudar. Houve um equilíbrio entre as duas partes. Isso se repetiu em 2000, com Gladiador, de Ridley Scott, embora muitas associações de críticos prefiram Traffic, de Steven Soderbergh. Em 2001, os críticos também ficaram divididos entre Uma Mente Brilhante, de Ron Howard, que levou o Oscar, e Entre Quatro Paredes, de Todd Field. Em 2002, Chicago, de Rob Marshall, saiu vitorioso nos dois lados, assim como O Senhor dos Anéis – O Retorno de Rei, de Peter Jackson, em 2003.
Nos dois anos seguintes, a trégua havia terminado. A discórdia imperou novamente entre crítica e Academia. Em 2004, os primeiros escolheram Sideways, de Alexander Payne, como o melhor do ano. O Globo de Ouro preferiu O Aviador, de Martin Scorsese, mas o Oscar foi para Menina de Ouro, de Clint Eastwood. Foi a última das saladas mistas. Em 2005, O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, conquistou tanto a crítica quanto o Globo de Ouro. Tudo indicava que a Academia faria o mesmo, mas na hora H, fechou com Crash – No Limite, de Paul Haggis. Sinceramente, qual dos dois filmes ficou para a eternidade? Crash ou Brokeback Mountain?

"Sideways - Entre Umas e Outras" (2004), de Alexander Payne
De 2006 pra cá, nenhuma surpresa. Crítica e Academia entraram novamente numa lua de mel que ainda não terminou. Embora alguns críticos tenham escolhido Voo United 93, de Paul Greengrass, como o melhor de 2006, a maioria preferiu Os Infiltrados, de Martin Scorsese, assim como o Oscar. Nos anos posteriores, os dois lados elegeram Onde os Fracos Não Têm Vez, de Joel Coen & Ethan Coen, e Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, como os melhores. Aliás, o filme dos irmãos Coen tem a cara da crítica, enquanto Slumdog tem o nariz e a boca da Academia, talvez os olhos. Engraçado, é como se as duas partes tivessem entrado num acordo.
E neste ano? Será que Avatar, a extravagância cinematográfica de James Cameron, e Bastardos Inglórios, a vingança judia de Quentin Tarantino, são capazes de pôr um fim nessa lua de mel? Ou Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, vai mesmo prolongar esse romance entre críticos e Academia?



Perfeito

Interessante a discussão. Não há uma maneira mais precisa de determinar aquilo que os votantes da Academia devem prestigiar. Nessa edição em particular, pode dar “Guerra ao Terror”, pode dar “Avatar”, mas o fato é que sempre há algum motivo para justificar a vitória de determinado longa – até mesmo no caso de “Crash”, que para mim é pior best picture winner de todos os tempos.
O melhor filme de 2005 se chama Munique do Spielberg, mas acho que não é essa a discussão, e sim a vontade dos críticos e dos eleitores da academia, meu medo é que de olho na audiência (e para não repetir o mesmo erro do ano passado) que a academia vote em Avatar que sem dúvida não é o melhor filme do ano, apenas o maior espetáculo visual já feito, ao contrário de O cavaleiro das trevas, esse sim um dos melhores de 2008.
VINICIUS
Sem falar que as regras para Melhor Filme mudaram, né? Desta vez, os membros da Academia votarão nesta categoria em ordem de preferência. Então… Pode dar até THE BLIND SIDE… Aliás, para mim, o pior Best Picture EVER foi “Shakespeare Apaixonado”. Abs!
JOÃO VICENTE
Discordo sobre AVATAR, mas esse receio em torno do “Oscar para ganhar audiência” pode ser ainda mais grave se a Academia premiar THE BLIND SIDE como o melhor filme, não acha? E, para mim, BOA NOITE E BOA SORTE foi o melhor de 2005. Logo depois, KING KONG, seguido de BROKEBACK MOUNTAIN. Mas, claro, adoro MUNIQUE, que viria logo em seguida. Abs!
Eu acho, sinceramente, que a Academia não tem critérios. Ela vai na crista da onda, naquilo que é relevante para ela naquele ano. O que a gente tem visto, em anos recentes, é a necessidade deles premiarem obras que sejam condizentes com determinados momentos e que representem certas realidades. “Quem quer ser um milionário?” é um caso emblemático disso. Por isso que eu aposto na vitória de “guerra ao Terror”.
Beijos!
Ótimas questões levantadas que me fazem refletir sobre os verdadeiros critérios da premiação. Sinceramente, a Academia já errou tanto, que se eles premiassem esse ano ‘Blind Side’ eu não estaria nem um pouco surpreso (na verdade eu estaria rsrs). As inovações tecnológicas de Avatar ou a questão social de Guerra Ao Terror? Eu ficaria com Bastardos rsr.
Acho difícil surpresas nas indicações desse ano já q/ críticos e Academia estão de “mãos dadas”. Parece muito óbvio as vitórias p/ Avatar, q/ provavelmente será o grande vencedor do Oscar, embora muitas indicações sejam mais q/ justas e outras não(melhor filme).
Aposto em Avatar. Isso mesmo!!! Acho que a Academia e os críticos estão precisando de um tempo.
Abs!!!
Muito bom texto Otávio.Em 1997 acho que quem venceu o oscar foi Miramax/Irmãos Weinstein(eu tinha 11 anos na epoca e não acompanhava oscar,mas sei por textos que o filme inglês não mereceu o prêmio).Olha,eu tenho um certo preconceito com filmes de fantasia,muito preconceito mesmo.Por exemplo,ano passado eu adorei Batman-O Cavaleiro das Trevas,mas não acho que o filme de Cristopher Nolan era filme para ganhar oscar de melhor produção do ano.Eu entendo que cinema é um retrato de algum momento da sociedade e serve para expressar cada periodo que o mundo vive.Filmes como Platoon(guerra no vietnã),Crash(EUA pós 11/9),Cidade de Deus(a “virada”social no rio),Quem quer ser um milionário(a índia contemporânea bate de frente com os costumes do passado)e por aí vai.Qual filme é mais lembrado pela sociedade,Matrix ou Beleza Americana?pra mim é o filme de Sam Mendes que de maneira soberba vomitou na cara do telespectador toda a hipocrisia da sociedade americana.Eu não tenho simpatia por Avatar,e entendo que Guerra ao Terror(porque levar pessoas para uma guerra idiota?) e Amor Sem Escalas(o filme é um retrato da crise economica mundial e os várias familias sem emprego).Então eu sou do lado do cinema como linguagem:Central do Brasil,Sangue Negro,Babel,Paradise Now,A vida dos Outros,Frost/Nixon,Brokeback Mountain e por aí vai.Um blockbuster como Wall-E,Batman,Homem Aranha e outros derivados não são retratos da soceidade e sim uma maneira de ir ao cinema no sabado comer uma boa pipoca.abraço.
*Otávio,adoro seus textos.Imprimi no meu pc o texto que você escreveu sobre o fim da Miramax,nenhum critico de cinema escreveu um texto tão bom como aquele,vou te dar uma idéia,que tal um post sobre a história dos irmãos Weinstein no Oscar.Eu adorava o jeito louco que eles tinham para colocar um filme no oscar,pense na idéia.Bom carnaval e abraço.
KAMILA
Tem razão. Mas acho que AVATAR traz as mesmas mensagens de GUERRA AO TERROR. Só que enquanto um aposta na fantasia, o outro mostra a realidade. Bjs!
LUIS
Seria bacana se desse BASTARDOS, que também fala de guerra, mas é muito mais cinema que o filme da Kathryn Bigelow. Abs!
RAQUEL
Se um filme tem muitas indicações merecidas, mas não para filme e direção, eu chamaria isso de injustiça. Bjs!
PEDRO
Ainda não aposto, mas é uma possibilidade. Abs!
PAULO RICARDO
Muito obrigado! E valeu pela ideia. Vou ver se faço um texto sobre o assunto em breve. Obrigado mesmo! Abs!