Um Olhar do Paraíso

Eu confiava em Peter Jackson, assim como coloco minhas duas mãos no fogo por Steven Spielberg, James Cameron, Martin Scorsese, Quentin Tarantino, Clint Eastwood e a Pixar. Apaixonado pela obra literária erudita de J.R.R. Tolkien, Jackson fez de O Senhor dos Anéis uma das sagas cinematográficas mais importantes e extraordinárias do cinema. Como se não bastasse, pegou o King Kong de 1933, seu filme favorito, e o reinventou de forma grandiosa e emocionante. Mas com Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, 2009), outra adaptação de um livro que Jackson jura adorar, o tiro saiu inexplicavelmente pela culatra. E minha inocência morreu mais um pouquinho na saída do cinema.
Nos anos 70 muito bem caracterizados pelo diretor, Susie Salmon (a ótima Saoirse Ronan), de apenas 14 anos, é brutalmente assassinada pelo próprio vizinho (Stanley Tucci, que não está tão bem quanto andam dizendo). Seus pais (Mark Wahlberg e Rachel Weisz) tentam, ao mesmo tempo, descobrir quem a matou e seguir adiante com suas vidas ao lado de seus outros dois filhos. Até a morte da garota, o filme até que vai bem, apesar da exagerada narração em off que explica todas as cenas como se não tivéssemos inteligência suficiente para entender a trama. Jackson começa a perder a mão quando precisa unir os dois mundos de Um Olhar do Paraíso.
Pintando seu filme com muito amarelo, laranja e azul para ilustrar um carrossel de emoções – que vai desde a sensação de paz e tranquilidade tanto no Céu quanto no limbo de Susie Salmon, até o clima ora tenso, ora triste que domina sua família na Terra -, Peter Jackson tenta criar uma experiência única para o espectador. A maioria das cenas no “Paraíso”, como aquela dos barcos arrebentando na praia, possui uma beleza indescritível, que só pode existir em sonhos. Quem já viu a trilogia O Senhor dos Anéis e King Kong sabe que Peter Jackson capricha no visual de seus filmes como poucos. Está tudo lá, inclusive seu fetiche por olhos azuis. São nesses momentos que Um Olhar do Paraíso voa alto. Só não perdoo a trilha sonora brega.
Só que a história exige um acompanhamento de perto das vidas que seguem: a família de Susie e seu assassino. E nessa parte, Peter Jackson não se empolga. Na verdade, ele parece odiar esses momentos. É como se o lirismo das cenas da protagonista, comandado pelo cineasta vencedor do Oscar, por O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, desse lugar a uma subtrama rodada por qualquer diretor de novelas da Globo. Pior que Mark Wahlberg com cara de choro é aguentar a confusão no conflito entre os ritmos das duas partes. Enquanto uma tem a alma de seu visual colorido e brilhante; a outra transmite exatamente a escuridão que toma conta da criatividade de seu diretor. No mau sentido, claro. Enquanto uma tem falas e emoções contagiantes, a outra tem diálogos e atuações sofríveis, principalmente com o canastrão Mark Wahlberg, que precisa agradecer todos os dias a Martin Scorsese, seu diretor em Os Infiltrados, pelo mínimo de respeito que conquistou em sua carreira.
Peter Jackson parece fazer dois filmes em um, mas o certo teria sido um equilíbrio. Quando se encontram, o resultado é estranho, arrastado e quase desastroso. Aquele filme com Susie Salmon é encantador, mas jamais se sustentaria sozinho. Já o filme com Mark Wahlberg e Stanley Tucci é confuso, pobre e digno de Framboesa de Ouro. Diga-me: O que é aquela parte em que a mal aproveitada Rachel Weisz vai parar na The Cider House Rules? Será que Peter Jackson esqueceu que algumas páginas do livro não precisam entrar no filme? Será que ele esqueceu que as duas linguagens são diferentes?
Depois dessa, espero que Peter Jackson volte a fazer filmes de Peter Jackson. O cara nasceu para contar histórias de fantasia. Sei que muitos diretores querem fazer de tudo, mas prefiro Steven Spielberg fazendo filmes de Steven Spielberg. Por favor, chega desse papo hipócrita de “quero tentar algo com orçamento menor da próxima vez”. James Cameron deve fazer filmes de James Cameron. Como Woody Allen, que não se atreve a fazer algo grandioso como Avatar ou Star Wars. Quero Quentin Tarantino fazendo filmes de Quentin Tarantino. Como John Ford fazia filmes de John Ford. E Alfred Hitchcock fazia filmes de Alfred Hitchcock.
Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, 2009)
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson (Baseado no livro de Alice Sebold)
Elenco: Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Stanley Tucci, Rachel Weisz, Susan Sarandon, Rose McIver, Reece Ritchie e Michael Imperioli



Perfeito


Concordo que Peter decepcionou dessa vez. Acho que o filme poderia render bem mais, e tentando achar esse ‘equilibrio’ entra as duas tramas ele não desenvolve nenhuma muito bem. Atuações medianas, o Tucci caricato, e a Saoirse sendo a ÙNICA que se salva desse filme, que é melhor ser esquecido para não manchar a reputação de Jackson.
Ainda não vi o filme mas ouvi outras críticas negativas sobre esse trabalho de Peter Jackson, inclusive q/ a produção não é fiel ao livro, chegando a ter significativas alterações em relação a este. Isso é verdade?
Também fiquei com a impressão de estar vendo o samba do crioulo doido. E tava até botando fé nesse aí, já que considero ALMAS GEMEAS o filme mais acertado do Jackson.
LUIS
Tem razão! Saoirse é a única que salva! Abs!
RAQUEL
Eu não li o livro. Mas certamente houve mudanças, afinal as linguagens são diferentes. Eu, pelo menos, procuro não analisar um filme pelo livro. Bjs!
BRUNO
Eu já acho O SENHOR DOS ANÉIS. E esse filme novo é, como você disse, o samba do crioulo doido. Abs!
Gostei, mas como todos, esperava mais. Tive alguns probleminhas com o roteiro, apesar de não ter lido a obra de Alice Sebold. Mas valeu pelas atuações de Saoirse Ronan, Stanley Tucci e da irmã da Susie. E também a direção de arte e fotografia (não a do paraíso). Espero que com o Tintin, o Peter Jackson se recupere e/ou não estrague o desenho, já que ele tem um outro ótimo material em mãos.
Beijos!
Otávio
concordo c/ vc em não comparar livro e filme, pois são duas formas distintas de expressão. Um bom exemplo é “O senhor dos anéis”. Li os três livros de Tolkien, assisti a trilogia no cinema e achei as produções excelentes, mas quanto a “Um olhar do paraíso”, ouvi dizer q/ as alterações foram bem drásticas, a ponto de alterar o próprio enredo. Bom, não sei ,só lendo o livro e assistindo ao filme.
Abraços
Decepção total…
Como fã da obra da Alice Sebold, fiquei feliz de ver que a essência do livro foi mantida, porém, em grande parte de ‘Um Olhar do Paraíso’, o livro foi totalmente descaracterizado. Acho que Jackson acertou em algumas coisas: escalando Stanley Tucci (assustador) e Saoirse Ronan, nos efeitos visuais. Mas, ele errou em pontos vitais: o desenvolvimento da narrativa nunca chega a nos envolver e tem a figura de Mark Wahlberg canastrão total, um ator que não estava pronto para o papel de Jack Salmon. Fora que Jackson suprimiu partes importantes do livro….
Beijos!
Ao terminar, fiquei me perguntando se era mesmo um filme do Peter Jackson…
Peter Jackson viciou em CGI e esqueceu do resto do filme.: http://abonequinhaviu.wordpress.com/2010/02/25/the-lovely-bones/