fevereiro 5th, 2010

Zumbilândia

Zombieland 1
Zumbilândia (Zombieland, 2009) é carne nova no gênero involuntário que chamamos carinhosamente de “filme de zumbi” ou “filme de mortos vivos”. Mas tenha calma. Zumbilândia não é original ou revolucionário. Mas é criativo. O diretor estreante Ruben Fleischer respeita seus antecessores (antigos e novos) e aproveita os clichês tanto na parte técnica quanto na estrutura de roteiro: Fleischer usa e abusa de câmera ora lenta, ora acelerada, montagem estilosa e uma trilha sonora barulhenta e ”muito louca”. Mais do que isso, seu filme aposta, mais uma vez, na reciclagem de metáforas ligadas à sociedade moderna, vista e revista de tempos em tempos pelo cineasta George A. Romero (A Noite dos Mortos Vivos etc, etc) em sua cruzada pessoal pelo gênero que criou.

Recorrer a esquemas consagrados não é crime. O problema seria aceitar e repetir todos os clichês sem deixar qualquer contribuição para o gênero. O que de fato diferencia Zumbilândia de seus recentes irmãos (Extermínio, Madrugada dos Mortos, Todo Mundo Quase Morto), que já tentavam acrescentar alguma novidade ao gênero) é caprichar nos personagens principais, fazendo com que o público realmente se importe com eles. E não com a carnificina. Antes, até mesmo nos filmes de Romero, os mocinhos eram apenas parte do menu oferecido aos zumbis. Pela primeira vez, temos protagonistas muito bem desenvolvidos pelo roteiro. Mais: É como se todos eles tivessem estudado os filmes de George A. Romero (e suas imitações) para saber exatamente como sobreviver se o mundo fosse dominado por mortos vivos.

Em Zumbilândia, o apocalipse já aconteceu. O filme começa com o nerdão Columbus (Jesse Eisenberg, de A Lula e a Baleia) ensinando as regras básicas para quem não quer virar lanche dos monstrengos. É uma abertura divertidíssima, que já denuncia a criatividade e o domínio de câmera do diretor, além da habilidade na condução da narrativa, coisa rara em um estreante, para situar o público em seu universo particular. Em poucos minutos, conhecemos Tallahassee (um inspirado Woody Harrelson – sem ele, o filme não existiria), que é o Chuck Norris na arte de matar zumbis, e as irmãs Wichita (Emma Stone, de Superbad) e Little Rock (a pequena Miss Sunshine Abigail Breslin). E pronto. Somos parte da “família”, porque nos reconhecemos em seus atos.

The motherfucker clown_Zombieland

O filme é narrado por Columbus e a moral é simples: O garoto desenvolveu diversas técnicas para sobreviver sozinho. Agora, ao lado de três companheiros, descobre que nem tudo na vida pode ser planejado. E um pouco de improvisação pode ser eficiente para tirar qualquer um do marasmo, de uma rotina previsível e cansativa, como a de um zumbi.

Mas o interessante está nas entrelinhas: Os personagens são desenvolvidos em função da ação. Eles não são os “escolhidos” para salvar a humanidade. Os quatro se tornam heróis porque a situação os obriga a isso. Juntando a fome com a vontade de comer – no caso, o instinto de sobrevivência se confundindo com o ódio que sentem em comum pelos zumbis -, Tallahassee, Columbus, Wichita e Little Rock extravasam humanidade simplesmente por estarem vivos, sem que cada um deles saiba o nome verdadeiro um do outro. Quebrar, trapacear, destruir, explodir, atirar, bagunçar, brigar, gritar e bater são atos que eles cometem sem o olho da lei por perto, somente para sentirem o que resta da vida em um mundo devastado.

É mais ou menos o que faz Peter Venkman (Bill Murray) em Os Caça-Fantasmas. Naquele filme, o cientista convive de perto com a morte e age impulsivamente. E se diverte com isso, nunca se levando a sério, ao contrário de seus amigos. Os heróis de Zumbilândia exalam a personalidade do Dr. Venkman. Não por acaso, o diretor homenageia Os Caça-Fantasmas, que também é um quarteto. Com uma pequena diferença: Aqui, Tallahassee, Columbus, Wichita e Little Rock não caçam fantasmas, mas zumbis. E espere só para ver quem aparece em cena para comprovar a inspiração do diretor (e dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick).

Com tudo isso em mãos, Ruben Fleischer ainda agrada Hollywood ao abrir a possibilidade para mais uma franquia de sucesso. E ao contrário de várias sequências, um Zumbilândia 2 seria bem-vindo. Tomara, apenas, que o diretor deixe de explicar tudo o que é mostrado na tela. O único deslize de Fleischer está na exagerada narração em off, que entrega qualquer sacada de mão beijada ao público, especialmente na cena final. Será que ele abusa deste recurso por causa de uma provável imposição do estúdio a um principiante? Ou trata-se da influência da linguagem dos quadrinhos mais uma vez incorporada na narrativa? Não temos como apedrejá-lo sem saber a verdade dos bastidores. Mas fica aí o recado para Zumbilândia 2, afinal ainda não estamos mortos e podemos raciocinar.

Zumbilândia (Zombieland, 2009)
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick
Elenco: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone e Abigail Breslin

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