Ilha do Medo

Ilha do Medo (Shutter Island, 2010) é um dos mais completos estudos cinematográficos já feitos sobre a mente humana. Se é sobre ser normal ou louco, pouco importa. Aliás, volta e meia a questão vem à tona: O que é ser normal? É uma pergunta difícil, afinal cada um tem suas diferenças para se estabelecer um padrão. E como é possível cobrar comportamento exemplar do cidadão quando o Estado lava as mãos?
A verdadeira ilha do medo está em nossas mentes. Quando o indivíduo não aceita ou compreende o mundo real e violento como ele é, onde cada um pensa em si próprio, a saída mais fácil é a imaginação. Ao se entregar aos sonhos que escondem os pesadelos, não há mais para onde fugir de uma prisão que coloca raciocínios, decisões e atitudes numa linha invisível que separa a sanidade da loucura. De acordo com os olhos do “louco”, só existe a realidade, que, por sua vez, não pode ser vista pelas pessoas consideradas normais pela sociedade.
O falso e o verdadeiro. A realidade e a ficção são temas de diversos filmes, incluindo muitos dos atuais. E o cinema de Martin Scorsese costuma analisar essa dualidade do ser humano, que inevitavelmente perde sua identidade. Foi assim com o Travis Bickle (Robert De Niro), de Taxi Driver, com o Jake LaMotta (De Niro), de Touro Indomável, o Howard Hughes (Leonardo DiCaprio), de O Aviador, o Frank Pierce (Nicolas Cage), de Vivendo no Limite, o Paul Hackett (Griffin Dunne), de Depois de Horas, o Jesus (Willem Dafoe), de A Última Tentação de Cristo, e com os protagonistas (DiCaprio e Matt Damon) de Os Infiltrados. Porém, Marty sempre observou de perto seus anti-heróis, com uma habilidade narrativa incrível para fazer a plateia simpatizar com esses sujeitos – só para, depois, em um golpe de mestre, trair a confiança de seu espectador.
O mesmo acontece em Ilha do Medo, com o Teddy Daniels de Leonardo DiCaprio. Com um detalhe que faz toda a diferença: Desta vez, Marty tenta olhar dentro da mente de seu protagonista. E nunca ele foi tão fundo nessa jornada ao inferno que é o cérebro humano.

A trama, sinceramente, é o que menos importa em Ilha do Medo. O desfecho, menos ainda. É a viagem que vale cada centavo do ingresso. Alguns tentarão diminuir a intenção de Martin Scorsese dizendo que adivinharam o final lá pela metade (ou até mesmo no trailer). Lembre-se da maldita tendência do final surpresa reinaugurada em O Sexto Sentido. Se ninguém descobrisse que Bruce Willis estava morto o tempo todo, o filme de M. Night Shyamalan ainda seria magnífico, porque tem uma história intrigante, densa, que reflete e joga na cara os medos de todos nós. É a viagem que importa. Depois disso, Hollywood pensou que era só filmar qualquer roteiro imbecil, com sustos a cada 10 minutos com a ajuda da trilha ou dos efeitos sonoros. Bastava apenas terminar o filme com um final surpresa para o público lembrar só disso. É o caso de O Amigo Oculto e outras bombas.
Mas não cometa o erro de confundir essa onda com Ilha do Medo, que seria sim ainda maior se ninguém tivesse explorado reviravoltas no final. Não que Ilha do Medo tenha uma reviravolta nos últimos minutos, que muda o filme inteiro. Martin Scorsese apenas faz o despertador tocar, acordando aquele que estava entregue ao mundo dos sonhos.
Ilha do Medo tem a ousadia de adotar uma estrutura inversa. Se fosse um filme qualquer, teríamos ao menos um fiapo de realidade, apresentado desde o início, como paradigma para definir os momentos em que ela termina e dá lugar ao delírio. Mas não. Quando Ilha do Medo acaba, não temos referência suficiente para julgar com certeza a sua conclusão, que pode ou não ser verdadeira. É desconcertante.
Mas nem é isso que torna o filme tão fascinante. Martin Scorsese é uma enciclopédia cinematográfica ambulante. E coloca todo seu conhecimento a favor do filme. Ilha do Medo é ilusão. Cinema é ilusão. Marty torna a estrutura do sonho real, com sensações capazes de serem sentidas pela plateia, numa completa imersão na narrativa que o cineasta toma como questão. É um filme para os sentidos, já que a ambiguidade é evocada. Acompanhar Teddy Daniels em sua investigação noir, em Shutter Island, faz nossa memória resgatar momentos que confundem cinema e vida. O que é real? E o que queremos tornar real? Baseada em lembranças, nossa visão – e a do próprio protagonista – ganha uma representação pessoal e moral, que torna impossível julgar qualquer coisa que vemos na tela. Seja na trama em si ou nas ambições visuais cheias de referências cinematográficas do diretor. E é mais fácil Martin Scorsese estar certo do que eu ou você.

Saber o que é verdadeiro ou falso em Ilha do Medo é chover no molhado. Parece óbvio com as prováveis explicações do roteiro no final, mas não é. Acreditar na manipulação e no poder da imagem do cinema é como andar pelas ruas e perder detalhes da vida porque você olhou para o outro lado na hora H ou piscou e perdeu o que aconteceu ali bem diante de seus olhos. E você simplesmente aceita os fatos e segue em frente.
Depois de Ilha do Medo, não acordamos de um sonho ruim, regado a luzes, cores, enquadramentos clássicos, escuridão, fumaça, chuva, ventania, surrealismo, muros altos, corredores intermináveis, campos de concentração, trilhas assustadoras, como a Passacaglia que abre o filme. E imagens lindas de tão horrendas. Ou o contrário. Martin Scorsese mostra o terror da forma mais bela possível ou revela a beleza da maneira mais assustadora que existe. É como sonhar acordado em um exercício de horror psicológico, que permanece em nossa mente mesmo com as luzes acesas no fim da sessão. É como se ainda estivéssemos naquela ilha, presos com Teddy Daniels.
Ilha do Medo (Shutter Island, 2010)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Laeta Kalogridis (Baseado no livro de Dennis Lehane)
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, e Ted Levine



Perfeito

Talvez o melhor do Scorcese, em minha opinião.
Na cena referente à primeira imagem desse texto, DiCaprio está abraçado com Williams, em um momento dramático. Apesar de tudo, ainda é algo “confuso”. Daí, uma gota de água do cabelo da Michelle Williams escorre e cai sobre seu rosto, como se fosse uma lágrima. Nessa hora me deu vontade de aplaudir. É quando o cinema dá muito certo: Feito primorosamente até pelo acaso.
*Scorsese. (sempre erro)
Estou comentando antes de ler a crítica mas repito o que disse no post anterior:
Adorei o filme. De defeito só querer explicar demais cada detalhe, fora isso filmaço. E muitas cenas e a fotografia me lembrarem alguns filmes do mestre Hitchcock. E na temática tive insights de Arquixo X com a HQ Asilo Arkhan. Nota 10.
E acrescento: quando vi Taxi Driver a primeira vez achei um bom filme e nada mais (mas não sabia pq sempre queria ver de novo) hoje idolatro filme, simples assim. Quem não gostou de Ilha…veja de novo.
Amenar
Antigamente eu também errava direto o nome dele, hoje já aprendi rsrsrsr
AMENAR
Cara, essa cena é linda! E como a Michelle Williams está bem, né? Ela é apaixonante neste momento! É uma cena sublime!
ROBSON
Também fiquei lembrando do Asilo Arkham, hehe… Achei o filme sensacional! Pra mim, cinema clássico, mas desafiador. Encanta, mas incomoda. Scorsese é mestre! Abs!
O que eu pude captar daquele filme é que a realidade depende daquilo que acreditamos.Esse filme deixa qualquer um na dúvida mas como eu disse tudo depende daquilo que você acredita.Esse filme também humilha nossa capacidade de julgar o que é a verdade e põe em xeque tudo aquilo que a gente tinha como verdade absoluta.Mas uma coisa é certo desse filme: não importa em que acreditemos essa sempre vai ser nossa realidade.Acho que é por isso que é difícil para uma pessoa louca reconhecer que está assim.Agora algo que eu acho interessante nesse filme é que por mais que nosso mundo real ou surreal exista ele não está isolado dentro de nosso universo paralelo pois tanto nosso mundo real ou surreal interferem-se mutuamente.Acho que é por isso que esse filme “nos leva para dentro daquela ilha”nos deixando na dúvida em qual realidade acreditar se na dos médicos ou na do protagonista.
WASHINGTON
Você disse tudo, cara! Não tenho o que acrescentar! Fico muito feliz que o filme tenha defensores.
Abs!
Ah! Tou muitíssimo curioso para vê esse filme. Dessa semana não passa!
Uma palavra: Gênio.
Lembro que todos nós, cinéfilos admiradores do Tio Marty ficamos tristes com o adiamento do filme, e achei na época que a produtora tratou o filme como um qualquer de terror. È um prazer ler que não foi isso que o filme é, ao contrário do que a distribuidora quis passar. Curiosa! A conferir!
Beijos!
É Otávio lembrei mesmo do Asilo Arkhan…e no início só faltaram chamar Mulder e Scully pra resolver o desaparecimento misterioso da paciente rsrsrsrrs…
Vc viu algo de Kubrick em detrminados ângulos de cenas?
Além do Hitchcock lembrei do Kubrick também.
Não curti muito não, mas o filme deixa bem claro que o Scorsa parou com a fixação por Oscar, o que é ótimo.
Pra mim o filme que o Scorsese fez pensando em Oscar foi O Aviador (e terminou não levando). Também espero que ele “só” queira fazer bom cinema e “nada” mais….(e não estou falando que o Aviador é ruim).
Assisti o filme ontem e estou encantada! Scorsese conseguiu atingir nosso ponto crítico sobre loucura e sanidade humanas. E DiCaprio surpreendeu.
“Shutter Island”, o melhor Scorsese? Realmente, a Internet comporta qualquer bobagem mesmo…
LUIS
Acho bom! Veja logo! Hehe… Abs!
WALLY
Repito o que vc disse: GÊNIO! Abs!
MAYARA
Querida, veja o filme assim que puder! Êxtase total para cinéfilos! Bjs!
ROBSON
Talvez Scorsese responda os mistérios de “O Iluminado” neste filme. Mas é uma das várias referências que achamos em “Ilha do Medo”. E “O Aviador” é cinemão feito por um grande diretor! Abs!
BRUNO
Até porque ele já tem Oscar, né? Abs!
RAQUEL
Sabia que vc ia gostar! Apostei 100%! Bjs!
PASCOAL
Se liga! Onde vc leu “o melhor Scorsese” no meu texto? E se alguém disse isso nos comentários, trate de respeitar! Deus te abençoe, morô?
O. arrisco dizer que é a primeira vez que concordamos em quase todos os pontos sobre um filme (Michelle Williams me desagradou, e muito… único problema do filme).
Como você disse lá no SOS: MESTRE! MESTRE! MESTRE!
Nunca me esquecerei da cena do lago. É antológica. Fiquei desnorteado por 1 hora depois da sessão.
E a chave é mesmo “não prestar atenção no plot”. OS “cri-críticos” da internet são normalmente muito limitados e se preocupam com o óbvio, deixando de prestar atenção nas demais realizações do filme. Esse é mais um caso.
Quem foi ao cinema tentando adivinhar o final saiu frustrado, pois, como vc bem colocou, olhou só para um lado da rua e perdeu o espetáculo em sua própria calçada.
abs,
Fábio Barreto
Sci-Fi News | Movie
http://www.soshollywood.com.br
Sim, e ganhou justamente pelo primeiro filme que fez depois de desencanar disso tudo. A Academia é sádica.
SPOILERS – Leia somente se tiver visto o filme
Não existe dúvidas entre realidade ou imaginação no final. Essa dúvida, aliás, o Scorsese começa a tirar desde as duas primeiras falas do filme. Desde o momento em que o DiCaprio olha para a água e diz “É só um monte de água” (lembra do lago?).
Desde que, na balsa, ele comenta “estranho, eu jurava que tinha cigarros no bolso”.
Como o Barreto comentou, quem tenta adivinhar o final perde a viagem, porque o final é construído desde o primeiro minuto do filme.
Não há ambiguidade ou dúvida aqui. A cena final, aliás, com o sutil aceno do Rufallo para o Kingsley é uma concordância pesarosa. O que o personagem do DiCaprio faz é um auto-sacrifício deliberado. Ele prefere esquecer de tudo o que passou, porque tem plena consciência de que não conseguiria viver com o monstro.
Obra fantástica que, infelizmente, boa parte do público que olha os filmes só com os olhos e com a mente desligada não vai compreender e, pior, é capaz de malhar.
Aliás, ao Pascoal, a internet comporta bobagens mesmo, como pessoas que costumam resumir opiniões em uma linha e meia sem nenhum conteúdo…
FABIO BARRETO
Amém! É isso mesmo! Disse tudo. Aliás, sobre plots, Martin Scorsese disse numa entrevista, em 2006, que OS INFILTRADOS é o único filme de sua carreira com “plot”. E a cena do lago é dolorosa pacas! Abs!
BRUNO
Sim, por OS INFILTRADOS, melhor policial da década passada. Abs!
FABIO
Sobre dúvida e ambiguidade… e se eu quiser acreditar no personagem de DiCaprio? E se? Acho que essa é a jogada do filme? Em qual verdade nós acreditamos? A realidade, debaixo de nossos narizes? Ou a ficção, que só existe em nossas mentes? Esse é o filme! ILHA DO MEDO é o ponto de vista dele… Até o final… mas comprei a dor dele, enfim… vc entende… Viva Scorsese! Abs!
Ah, e Fabio, JURO que te passo o texto de TOURO INDOMÁVEL até amanhã. JURO! Abs! Bom final de semana!
Otavio, o ÚNICO defeito que achei no filme foi ser muito digamos “explicado”. Vc não achou? Tirndo isso: obra-prima.
Robson, eu não achei isso porque a trama em si é o que menos importa. É um filme para os sentidos. A viagem vale mais do que a explicação que queremos encontrar em quase todos os filmes.
Não é uma regra, claro. Mas vi ILHA DO MEDO desta forma.
Abs!
Posso entrar no coro “melhor filme do ano” também? =D
Seu texto tá melhor que o filme, Otavio!
Eu gostei, mas acho que tem sérios problemas, especialmente de roteiro! Beijos!
MARCUS
Pode sim! DEVE! Hahahaha… Abs!
KAMILA
Eu agradeço o elogio, mas meu texto não tem como chegar aos pés do filme. Mas você é uma graça! Obrigado! Bjs!
Parabéns pelo site, não o conhecia e em apenas um dia virei fã! Excelente texto, resumiu de verdade o que sinto em relação a esse filme. Simplesmente entrei em êxtase quando os créditos começaram a subir, é díficil isso acontecer, mas quando acabou já tinha certeza de que esse era um dos filmes mais bem feitos e bonitos que já tinha visto. Scorsese é um gênio, esse filme com o tempo terá todo o reconhecimento que merece, e fiquei muito feliz de ver pessoas com o mesmo sentimento por aqui. Vida longa a Ilha do Medo. Aliás, acho que ainda estou preso lá também… talvez eu consiga parar de pensar no filme depois de assisti-lo pela 10° vez.. vai saber hahaha
Muito bom o texto! Parabéns pelo excelente blog.
Se puder, passa lá no meu ok?
Abraço!
Obrigado, Maurício e Vinícius! Abs!
o filme é espetacular!!! incrivel e emocionante!!! mexe de um jeito inigualavel com a mente de quem o assisti!!! Filme de diversos sentidos, que sao jogados nos nossos braços para que escolhemos o mais convincente na nossa visao. Teddy era louco? os medicos eram do “mal”? O filme nos confundi, deste modo é impossivel sabermos, se nossas “conclusoes confusas” estao ou nao corretas. É realmente maravilhoso, e eu o recomendo. é realmente como uma pessoa aqui falou: GÊNIO!!! essa é a palavra!!!
tem que ser inteligente pra decifrar este incrivel filme!!! pq ele é um filme para GÊNIOS!!!!!
ABS E BJS…
Ah esqueci de dizer…
o comentario é mto bom, apesar de eu nao concordar com algumas coisas desejo parabens ao autor.
LAÍNE
Muito obrigado! E Martin Scorsese é, de fato, gênio! Bjs!
Berto] [calopes66@uol.com.br]
Ao assistir a esse grande filme, fiquei com a impressão que o Cawley está tentando fazer a Dolores esquecer o terrivel crime que cometeu: ter afogado os proprios filhos. Pois o verdadeiro Teddy morreu como heroi de guerra( foi assassinado pelo oficial nazista que aparece com uma arma moribundo no chao). A mulher que aparece algemada proxima a um enfermeiro, é uma auto imagem p/ Dolores( o enfermeiro era quem cuidava dela). A mulher que aparece no dialogo da caverna é a Dolores qdo fizeram-na acreditar que seria Raquel. Apos sofrer vertigens,o “detetive” é acamado junto com mulheres. Na cena do cemiterio Dolores diz: tenho certeza que ele( Laeddys)não está na Ala B( ala feminina) e portanto só pode estar na ala C( ala p/ os criminosos mais perigos); portanto, primeiramente Dolores foi internada na ala B e devido ao comportamento violento foi p/ ala C. Conclusão Dolores prefere morrer como um heroi( Teddy) do que conviver com fato de ter assassinado os proprios filhos.