março 3rd, 2010

Os 30 Anos de ‘O Império Contra-Ataca’

Luke Vs. Vader
O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980) é o melhor filme da trilogia original Star Wars. Dito isso, nem é preciso comentar sua posição entre os novos episódios I, II e III. Mas como isso foi possível numa época em que continuações boas eram raridades? Melhor: Continuações eram raridades. Seis anos antes, Francis Ford Coppola, mostrou que era possível continuar, e não repetir, uma história com O Poderoso Chefão – Parte II. Mas George Lucas foi ainda mais longe: Entregou a sequência de um filme consagrado (em público e crítica) pelo mundo inteiro; usou dizer que ninguém sabia da missa a metade sobre o universo de Star Wars e entregou uma aventura de tirar o fôlego (detalhe) sem começo e sem fim.

Se Guerra nas Estrelas (hoje Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança) é uma fantasia intergaláctica empolgante e inédita, que revolucionou o modo de fazer, ver e sentir cinema, o que dizer a respeito do legado de O Império Contra-Ataca? Bom, Lucas teve mais dinheiro e liberdade para produzir este filme. Toda inovação tecnológica mostrada em Guerra nas Estrelas foi aperfeiçoada. Os cenários, os efeitos visuais e a sensação de movimento das naves ou de qualquer coisa que surja na tela que não seja um ator de carne e osso causaram uma inevitável noção na plateia do que é ficar em estado de graça na cadeira do cinema.

Não é só isso. Ou não estaríamos aqui discutindo sobre um filme que não foi necessariamente uma novidade. Se a parte técnica evoluiu, a história foi jogada em outro patamar. O Império Contra-Ataca não apostou em um time que estava ganhando. Não repetiu a estrutura do roteiro de Guerra nas Estrelas para manter (ou aumentar) o sucesso de uma franquia numa época em que a simples existência da marca não garantia a ida do público ao cinema. Quem entrou na sala escura para ver o novo episódio de seus heróis favoritos, levou um tremendo choque.

Explico partindo do príncipio que você já conhece o significado de nomes como “Força” e “Jedi”, ok? Continuando: Como vimos em Guerra nas Estrelas, a Rebelião venceu uma batalha contra o Império. A Estrela da Morte foi destruída, os mocinhos comemoraram no final, mas, como sabemos, a vida não é bela. E não há vitória sem sacrifício. Darth Vader sobreviveu e escapou para reunir as tropas imperiais para uma revanche daquelas. A Rebelião está escondida em um planeta gelado, chamado ironicamente de Hoth, e se prepara para resistir ao ataque do poderoso Império. Desta vez, diferente do final do filme anterior, o objetivo desta batalha não é vencer, mas fugir com vida. Neste ponto, o tom pessimista de O Império Contra-Ataca começa a dominar a saga.

A ousadia segue com a divisão da trama em duas linhas de frente: Luke Skywalker (Mark Hamill) vai para o planeta Dagobah, onde vive Yoda, aquele que o espírito de Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) jura ser o mestre jedi que colocará o jovem aprendiz em um nível superior, seguindo o lado certo da Força. Paralelamente ao treinamento de Luke, acompanhamos a fuga desesperada de Han Solo (Harrison Ford) e Leia (Carrie Fisher) pela galáxia.

E as duas tramas se cruzam no final, porque Luke pensa que pode salvar seus amigos das garras de Vader. Mas o herói caminha para uma armadilha, em que descobrirá um terrível segredo. Todos os mocinhos perdem. E o filme não termina.

Luke and Yoda

Imagine as caras dos espectadores nos cinemas espalhados pelo mundo, em 1980, quando as luzes se acenderam. Claro que todos sabiam que George Lucas entregaria o terceiro e último episódio em breve, mas O Império Contra-Ataca foi uma experiência inédita. Acho que nunca uma continuação foi tão aguardada quanto O Retorno de Jedi.

Dirigido por Irvin Kershner, com produção e argumento de George Lucas, além de um roteiro assinado por Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, O Império Contra-Ataca é o coração da trilogia original – e de toda a saga. Sua ousadia transformou o primeiro filme – tirando suas inovações – numa aventura de roteiro redondinho sobre a eterna luta do bem contra o mal. Em O Império Contra-Ataca, claro, há a vantagem de contarmos com personagens já conhecidos pelo público, não havendo a necessidade de apresentá-los. Portanto, o roteiro partiu para voos mais altos, com o diretor Irvin Kershner apostando em um desenvolvimento dramático raro para os protagonistas de um filme do gênero. As emoções são sentidas pela plateia e não apenas sugeridas. Temos diversas surpresas na trama. E a maioria delas não são agradáveis. Tudo é mais intenso: o drama, o romance, o humor, a ação, os conflitos e a amizade entre os mocinhos.

Já o produtor George Lucas, com mais dinheiro, pôde investir mais na diversidade do universo de Star Wars. O Império Contra-Ataca une o útil ao gradável. Aliada a efeitos visuais com acabamento superior ao filme original, além de uma direção de arte primorosa, em que a pesquisa e a extrapolação de ambientes, cores e cenários são visíveis a todo instante, a grandiosidade dos conflitos que movem os personagens fazem de O Império Contra-Ataca uma das aventuras mais espetaculares do cinema e, principalmente, uma  completa imersão dramática em um tipo de filme que o público estava acostumado apenas em encontrar diversão pura, simples e eficiente.

George Lucas e Irvin Kershner fizeram o segundo ato de uma verdadeira ópera espacial, um momento de transição necessário na saga de um herói, que vai ao inferno para finalmente conhecer a si próprio e se sentir pronto para caminhar rumo à luz. E a escuridão é praticamente vista na tela, com a trilha malvada de John Williams surgindo como um verdadeiro personagem. Se a saga Star Wars começou como uma aventura, ela continuou como um épico em O Império Contra-Ataca. Este filme confirmou Star Wars como uma nova mitologia.

Darth Vader

O Império Contra-Ataca antecipou, de forma bastante emocional, a preocupação do cinema de George Lucas com a figura paterna na vida de um filho. Aliás, seus amigos Francis Ford Coppola, em O Poderoso Chefão, e Steven Spielberg, em dezenas de filmes, demonstram os mesmos temas. Lucas, ao lado de Spielberg, decidiu adicionar essa discussão em outra saga de sua autoria: Indiana Jones. No terceiro filme, com a entrada de Sean Connery, o arqueólogo interpretado por Harrison Ford precisa ajustar contas com seu pai, que o fez crescer com diversos traumas e arrependimentos. Se Spielberg costuma falar dos pais ausentes – vide E.T., Indiana Jones e a Última Cruzada, Hook, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Império do Sol, Prenda-me Se For Capaz, A.I., e Minority Report -, Lucas vai um pouco mais longe ao concluir que os erros (ou as faltas) dos pais moldam a personalidade de seus filhos no futuro. Para o bem ou para mal.

Em O Império Contra-Ataca, Vader revela ser o pai de Luke, após um longo duelo de sabres de luz. Não antes de decepar a mão do próprio filho. Ao saber da possível verdade, Luke não suporta e decide se atirar para o abismo da morte certa. Mas ele não morre, claro. Porém as cicatrizes ficam, como a dúvida na cabeça da plateia, que chegou a pensar na época que Vader disse tudo isso para enganar Luke e convencê-lo a passar para o Lado Negro da Força, como seu mestre, o Imperador, queria. O mundo esperou três longos anos, até a estreia de O Retorno de Jedi, para confirmar. É uma cena (e uma fala) clássica.

E O Império Contra-Ataca está cheio de momentos clássicos, como o pequenino Yoda, um boneco que merecia uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, ensinando ao impetuoso Luke sobre os valores e os mistérios da vida, numa cena que termina com o velho jedi provando que tamanho não é documento, ao retirar a nave do jovem herói de dentro do pântano. Há outra cena fantástica, no habitat de Yoda, mas protagonizada por Luke, quando este entra em uma caverna para enfrentar seus maiores medos internos – alguns deles desconhecidos até aquele momento. E como esquecer o sofrimento proporcionado pela cena em que Han Solo é congelado?

O Império Contra-Ataca é, ao lado de O Poderoso Chefão – Parte II, a melhor sequencia de todos os tempos. Um dos maiores filmes do cinema. E uma das diversões mais completas já criadas por Hollywood. Não é preciso aproveitar suas qualidades em 3-D para compreender sua importância.

O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980)
Direção: Irvin Kershner
Roteiro: Leigh Brackett e Lawrence Kasdan (Baseado em argumento de George Lucas)
Elenco: Mark Hamil, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, David Prowse, Peter Mayhew, Kenny Baker, Frank Oz e Alec Guiness

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