abril 28th, 2010

Alice no País das Maravilhas

Alice 1
A Disney finalmente conseguiu transformar a personagem Alice, criada por Lewis Carroll, em uma de suas princesas guerreiras, como Mulan por exemplo. Com a ajuda da roteirista Linda Woolverton, de A Bela e a Fera, O Rei Leão e… Mulan, o estúdio achou que poderia alterar uma obra-prima da literatura carregada de sonhos e incertezas abertas a diversas interpretações em uma saga redondinha, de fácil compreensão e cheia de respostas para o público moderninho que se irrita quando coloca o cérebro pra funcionar.

Os livros de Lewis Carroll sobre sua heroína Alice não são infantis e o diretor Tim Burton sabe disso. Não falam sobre uma garota que descobre ser a salvadora da pátria em um mundo espetacular, que foge completamente de sua vidinha normal e sem graça. A Alice original não é Luke Skywalker. Não é Neo nem Harry Potter. Mas livro é livro e filme é filme, certo?

Neste novo Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010), a Disney apostou numa reinvenção/continuação para a saga e entregou tudo pronto para Tim Burton dirigir. A intenção foi recriar a clássica história do “herói de mil faces”, abordada recentemente em sucessos como Avatar e Como Treinar o Seu Dragão. Mas a história da ascensão do herói não pode ser fria. Precisa ser dominada pela emoção crescente. E este Alice é gelado, vazio.

Há um erro de concepção aqui. Tim Burton tinha tudo a ver com o clássico de Lewis Carroll. Parecia a escolha ideal, afinal seu olhar sombrio, que vê luz na escuridão, combina com o tom surreal do Alice original. E não com uma reinvenção planejada para faturar alto nas bilheterias com uma estrutura narrativa que geralmente conquista grandes plateias. Alice era para causar estranheza e não inspirar sem questionamento. A decepção vem do resultado da equação “tentativa de Burton se manter fiel ao seu próprio estilo e, ao mesmo tempo, ao espírito de Carroll” + “intenções da Disney e sua roteirista Linda Woolverton em nome de uma fórmula hollywoodiana consagrada em faturar alto nas bilheterias.” Não fica nem lá nem cá. É um filme lindo de se ver, mas dominado por um vazio emocional. Algo comparável à “bela frieza” de O Curioso Caso de Benjamin Button.

Alice 2
Do lado de Tim Burton, trabalhando para um estúdio que manda e desmanda em seus projetos, podemos perceber a marca visual do cineasta impressa em cada frame deste Alice no País das Maravilhas. Também é evidente notar seus velhos personagens atormentados, mas isso é cortesia de Lewis Carroll. O verdadeiro triunfo de Burton não está somente na tradução das imagens pensadas pelo autor. O diretor de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd e Edward Mãos de Tesoura consegue imprimir sua assinatura visual mesmo em uma obra já conhecida pelo público há muitos anos. Isso não é pra qualquer um.

Porém, o diretor não consegue controlar a empatia do público com a jornada de sua Alice (Mia Wasikowska). É como se jamais entrássemos no buraco junto com a protagonista. Viajar pelo País das Maravilhas não dá mais aquele barato bom. Somos passivos até a última cena. E a culpa é muito mais da Disney, que estuprou a ideia original de Carroll em nome do dinheiro fácil.

A preocupação com o investimento é tão descarada que Alice chega a virar coadjuvante de Helena Bonham Carter (a Rainha de Copas) e, principalmente, Johnny Depp (o Chapeleiro Maluco). Depp tem falas demais, cenas demais e até uma dancinha patética no final do filme para justificar sua participação. Há também a famosa – e já clichê – sequência final de batalha em campo aberto, que encerra nove entre dez filmes de fantasia desde O Senhor dos Anéis. É uma sequência deslocada do universo imaginado por Lewis Carroll, com cara de samba do crioulo doido trocando alhos por bugalhos.

E onde estão as conotações sexuais, assim como as passagens alucinógenas? Ok, a heroína entra no buraco seguindo um coelho logo após fugir de um pedido de casamento; temos várias chaves para suas respectivas fechaduras, sem falar que a protagonista aumenta e diminui  de tamanho constantemente. Mas em matéria de Alice no País das Maravilhas, há um cuidado excessivo e irritante para não causar estranheza nas criancinhas e seus pais conservadores, que sustentam Hollywood, e não conhecem coisa alguma de Lewis Carroll. E o que dizer do 3-D? Temos até mesmo uma cena de voo, que parece inspirada em atração de parque de diversões na época em que quase ninguém havia experimentado um óculos de visão tridimensional numa sala escura só para o público balançar a cabeça pra lá e pra cá e gritar “OOOOOOO…”

Alice 3
Mas o filme não é um desastre completo. Como em Hook – A Volta do Capitão Gancho, de Steven Spielberg, Alice cresceu e não se lembra que já esteve neste mundo fantástico. Aos 19 anos, ela é interpretada pela jovem atriz australiana Mia Wasikowska, que faz um belo trabalho. Seu olhar triste, desiludido é fascinante e chama a nossa atenção para que acreditemos em sua Alice, embora a história não ajude. Além dos figurinos, dos efeitos visuais e sonoros, do cenário, da fotografia e da trilha sonora de Danny Elfman, temos uma Helena Bonham Carter perfeita como a Rainha de Copas, a grande vilã do filme.

Só que é pouco para justificar tanta expectativa em torno de um filme caro, feito para nos divertir durante duas horas de nossas preciosas vidas. E Tim Burton pode fazer melhor. Porém, precisa adotar uma postura mais ambiciosa e parar com esse caminho fácil de aproveitar restos. Burton já tem um currículo invejável e acredito que possa fazer o filme que quiser. Deixa de preguiça, cara! Você sabe contar uma história e não pode se contentar apenas com visual. Quanto aos executivos da Disney, espero que a Pixar continue ganhando cada vez mais espaço entre as viúvas de Mickey Mouse. E deixem Lewis Carroll em paz, porque o buraco de Alice é mais embaixo!

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Woolverton (Baseado nos livros de Lewis Carroll)
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Anne Hathaway, Helena Bonham-Carter, Crispin Glover, Alan Rickman, Stephen Fry, Michael Sheen e Timothy Spall

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