Um Sonho Possível

Alguns filmes falam a língua do público geral e não existe explicação melhor para justificar seu sucesso. Não importa se o diretor usou e abusou do clichê do clichê do clichê ou se ele poderia ter sido um pouquinho mais ousado. Não importa se os metidos a entendidos, como este que vos escreve, acham que o elenco está apenas correto ou se a história é uma perfeita Sessão da Tarde. O fato é que, de tempos em tempos, filmes como Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009) simplesmente… acontecem. E dão certo.
É o tipo de filme que o crítico adora apedrejar e o público defende até o último fio de cabelo. Mas, no fim, quem está com a razão? Eu, por exemplo, posso torcer o nariz para essa ou aquela cena em que a música cresce na tela para emocionar a pessoa de coração mole ao meu lado. Quem está bem ali, chorando na poltrona da direita, também não está nem aí pra mim e quer mesmo é chorar até ficar com o rosto inchado. Seria hipocrisia minha dizer que Um Sonho Possível é A Corrente do Bem que deu certo. Seria redundante de minha parte, acusar o filme de ser apelativo em excesso. Mais do que tudo, seria idiotice afirmar que Um Sonho Possível é mau cinema. Pior: Seria ignorância, admitir que o filme não é cinema.
Quer saber? Quem está certo é o público que busca ser arrebatado dentro de uma sala de cinema. Triste daquele, que como eu, tenta ver Um Sonho Possível com um olhar crítico. Falo daquele espectador que diz que o ator Quinton Aaron, o sem teto Big Mike, é um ator medíocre. Ou que a atuação do menino Jae Head, o caçula da protagonista Leigh Ann Tuohy (Sandra Bullock), é orquestrada sob medida pelo diretor John Lee Hancock, para servir de alívio cômico para provocar uma queda no nível de sacarose do filme em alguns momentos. Triste daquele espectador que diminui a emoção de fácil identificação com o público. Triste daquele que não acredita que qualquer um é capaz de fazer um mundo melhor.
Acredito que um filme, depois de sua estreia, não pertence mais ao diretor. Deste momento em diante, o filme pertence ao público. Eu não gostei de Um Sonho Possível por motivos que já escancarei acima. Mas quem sou eu para dizer que você está errado? Quem sou eu para dizer tamanha bobagem quando este filme não foi feito para mim? Um Sonho Possível foi feito para aqueles que vão ao cinema atrás de emoção sem nenhuma obrigação com as regras da cartilha do bom cinema. Neste caso, não interessa se a emoção foi sincera ou artificial. Não adianta lutar contra isso.
Um Sonho Possível é a história real de um jovem negro, que virou astro do futebol americano, graças aos esforços e, principalmente, à compaixão de uma mulher rica e… branca, que o tira das ruas, dando-lhe casa, comida e roupa lavada, tratando-o como um filho legítimo. Colocando dessa forma, Um Sonho Possível parece mesmo clichê do clichê do clichê. Mas cativa por ser uma história de amor, que peca por sua observação um tanto superficial dos problemas políticos e sociais, em especial o racismo no sul dos EUA, quase inexistente na visão do diretor John Lee Hancock.
Mas dizer o quê? Sandra Bullock é extremamente carismática e é a guia ideal para a parte do público que ainda acredita na humanidade, que sabe que é preciso fazer o bem, mas não tem coragem de executar ações semelhantes às da protagonista Leigh Ann, mulher durona que comanda a família (e toda a cidade se deixarem). Ela não pode perder a pose para dar o exemplo e justificar sua liderança. Para Leigh Ann, alguém precisa permanecer de pé, firme e forte. Sendo assim, chorar está fora de cogitação. Mesmo sem ser surpreendente ou extraordinária, esta é, sem dúvida, a melhor atuação da carreira de Sandra Bullock, fato que engrandece o filme e suas intenções.
É verdade que Um Sonho Possível fala muito mais com a realidade do público americano que o brasileiro e tantos outros. Mas basta ter um coração totalmente entregue às emoções, sem dar a mínima para a razão, para apreciar este filme. Basta gostar de Sandra Bullock. Queira ou não, cinema também é isso.
Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009)
Direção e roteiro: John Lee Hancock
Elenco: Sandra Bullock, Tim McGraw, Kathy Bates e Quinton Aaron



Perfeito


Perfeito texto, Otavio. Você interpretou esta obra da maneira correta. Parabéns! A Sandra Bullock pode ser carismática, pode nos emocionar, mas não merecia o Oscar! Beijos!
O filme é defeituoso mesmo….mas eu gostei, rs. Acho que a atuação da Sandra consegue passar por cima de muitos dos defeitos do filme, principalmente a falta de competencia do roteiro e a falta de um elenco de apoio melhor.
(Sério, eu gostei, rsrsrs)
É… ótimo texto, bem diferente da minha abordagem quando escrevi sobre o longa.
Sobre a Bullock, realmente, é o seu melhor trabalho, espero que ela continue numa crescente. É desnecessário, mas vou escrever, não achei o seu Oscar justo, mas pegando o mote do seu texto, quem sou eu para dizer isso?!
No mais, gostaria de aprender com a Leigh Ann, como falar com um traficante, no seu ambiente, de forma incisiva e “hostil”, e sair de lá ileso.
Abraço!
Só pra apimentar:
Êta filminho ruim.
Tem razão, o público pode gostar de se emocionar e não tá nem aí para análise alguma. Mas é o mesmo que com qualquer arte: literatura, escultura, música…
A partir do momento em que você se educa nessa arte, é impossível você apreciar ela sem notar seus erros. Só nota isso quem acaba se aprofundando naquilo e faz daquilo seu dia a dia, e quem só olha um filme pra beber refrigerante no escuro nunca vai ver esses erros. No máximo vai dizer “não gostei”, muitas vezes não indo além disso.
É um filme que ás vezes… acontece.
Infelizmente.
Aliás, acontece todos os anos. No ano que vem será outra atriz em outro drama engrandecedor baseado em outra história real e, se calhar, agora será sobre beisebol.
Parabéns por ter captado tão bem a essência desse filme, Otávio. Não acho q/ Sandra Bullock tenha merecido o Oscar, mas vc mesmo já citou outras atrizes menos carismáticas q/ ganharam. Por que não Bullock?
Abçs
Interessante seu texto. Vejo “Um Sonho Possível” como um filme fácil. Pode até agradar, mas sempre será fraquinho. Mais absurdo que sua indicação a melhor filme no Oscar só a vitória da Bullock – que está bem, mas longe de merecer uma estatueta. Enfim, é um bom filme que conquista mais pela história do que pelos méritos. [***]
Um filme que possivelmente será lembrado apenas pelo Oscar de Sandra Bullock, já que de resto não tem muita personalidade. De qualquer forma, não chega a ser ruim.
PQP Otávio, qdo penso que vamos ter o mesmo sentimento num filme, me engano!
Bem colocado, Otávio!! E é bem por aí mesmo Fabio! Não gosto do filme também, nem dessa interpretação acadêmica da Sandra Bullock.
Abs!
bom
ela tbm me surpreendeu com essa interpretação…
amei o filme e a mensagem ki ele nos passa!
PARABENS SANDY…
^^