maio 26th, 2010

Fúria de Titãs

Clash 1

Quando Fúria de Titãs chegou aos cinemas em 1981, Ray Harryhausen era o rei dos efeitos visuais em stop-motion, mas suas técnicas impressionantes já pareciam ultrapassadas com a chegada de dois novos mestres: George Lucas e Steven Spielberg. Ainda assim, como o trabalho de Harryhausen era digno de respeito e admiração, o Fúria original foi visto com atenção pelos fãs, que souberam manter seu nome na história do cinema. Hoje, por razões óbvias, um remake do filme de 81 jamais utilizaria o stop-motion. Seria CGI na veia. Para o diretor Louis Leterrier (Carga Explosiva, O Incrível Hulk), o fato de ter controle absoluto da tecnologia atual seria o bastante para fazer uma nova (e boa) versão, afinal Fúria de Titãs só precisava de atualização em sua parte visual. Certo? Errado!

O filme de 81 tinha problemas de roteiro, em diálogos e estrutura narrativa, e as atuações eram exageradas – no lado chique do elenco com Laurence Olivier e Maggie Smith – e canastras – no lado pobre, que incluia Harry Hamlin, como o herói Perseu. Mas, falando sério, o que valia a pena era ver as criaturas de Ray Harryhausen surgindo na tela. Seus monstros são os grandes astros do filme. Roteiro Atuações? Bom, era uma outra época. Hoje, os filmes de ação, aventura, ficção; fantasia em geral, levam tudo mais a sério, graças aos trabalhos maduros, porém monumentais, de diretores como Peter Jackson, em O Senhor dos Anéis, e Christopher Nolan, em O Cavaleiro das Trevas, que não tiveram medo de cair no ridículo em suas tentativas ousadas para elevar o nível de suas produções em matéria de texto, atuações, direção etc. Aos poucos, o gênero se desliga do cult para alcançar de vez o potencial para clássico. Por isso mesmo, o novo Fúria de Titãs (Clash of the Titans, 2010) jamais poderia seguir a estrutura do filme original. Louis Leterrier, diretor que só entende de pancadaria, só se empolga nas cenas de ação muito bem orquestradas, diga-se de passagem. Em especial, o confronto de Perseu (Sam Worthington) e seus amigos contra a Medusa. Quando a porrada não rola solta, Leterrier, no entanto, esquece de (ou prova não saber como) desenvolver os personagens ou aproveitar a presença de jedis como Liam Neeson (mais uma vez o Deus do pedaço) e Ralph Fiennes (mais uma vez o Coisa Ruim), que simplesmente repetem os exageros dos grandes atores do filme original.

Louis Leterrier mantém o que há de “antigo” – no pior significado da palavra – e faz um filme velho, ultrapassado, apenas atualizado em questão de efeitos digitais. Há até uma cena solta, lá pela metade, que mostra a corujinha do filme de 81 somente para ser ridicularizada. A piada não faz o menor sentido para quem não viu o Fúria original. É Louis Leterrier escancarando sua proposta: “Vinde a mim o CGI!” As mudanças no roteiro do “novo” longa em relação ao “velho” servem apenas para encontrar o melhor caminho para se construir as cenas de ação. Isso sem citar as terríveis coincidências e explicações para quem não enxerga abaixo do próprio nariz, com Perseu passando em frente à estátua de Zeus justamente na hora em que ela é derrubada só para seu pai adotivo dizer aquilo que já estamos vendo: “Oh, estão destruindo a estátua!”. Dã! Outra coisa: Perseu literalmente atravessa um escorpião com sua espada numa cena. Só para minutos depois um colega sabichão entregar ao mocinho um escudo feito da carcaça da criatura, tida como a mais resistente das redondezas. Brincadeira, não? Quem precisa de um amigo assim? É, roteiro aqui é o de menos. Leterrier deve ter pensado: “Como farei para situar a plateia na mitologia em apenas duas horas de filme e, ainda mais, com um prazo apertado para entregar a produção ao estúdio até a estreia? Ah, dane-se! Vamos logo para a próxima cena de ação!”

Então esqueça o original. O Fúria de Titãs 2010 assume que é ridículo e não está nem aí para a abordagem mais adulta dos filmes do gênero na atualidade. A produção está mais para uma mistura de Conan (O Destruidor, não O Bárbaro) com Power Rangers, protagonizada por um Sam Worthington inspirado em Steven Seagal, Chuck Norris e Dolph Lundgren, heróis de uma típica sessão de Domingo Maior, quando não temos uma semana de luxo com Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger.

Hollywood precisa entender que o CGI e o 3-D não fazem milagres. E mais do que isso: o público não é tão burro quanto parece. Nem o maior monstro do cinema, o Kraken, que aparece no fim desse Fúria de Titãs é capaz de ofuscar (ou pelo menos peitar) o trabalho de Ray Harryhausen, que será lembrado por toda a eternidade, enquanto Louis Leterrier (QUEM?) vai precisar de um pacto com os Deuses para não cair no ostracismo.

Aliás, repararam como Sam Worthington (Avatar, O Exterminador do Futuro – A Salvação) está em todos os filmes? O mesmo pode ser dito de Gemma Arterton (ela também está em 007 – Quantum of Solace e Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo), que teve uma personagem inventada para este filme, já que sua Io, a guardiã de Perseu, não existia no Fúria original. E ela entrega a atuação que Louis Leterrier pediu a Deus. Grace Jones, de Conan – O Destruidor, ficaria orgulhosa. Será que esses jovens atores têm o mesmo agente de Orlando Bloom e Amanda Seyfried (a loirinha de Mamma Mia, Garota InfernalO Preço da Traição)? Olha, renovar é preciso, mas Hollywood anda exagerando. Tem muita gente nova sofrendo uma overdose de aparição na telona. Isso pode ser prejudicial, afinal é só contar nos dedos os bons filmes que essa garotada anda fazendo e fazer a seguinte pergunta: Onde está Orlando Bloom agora?

Fúria de Titãs (Clash of the Titans, 2010)
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi
Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Jason Flemyng, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Tine Stapelfeldt, Mads Mikkelsen, Luke Evans, Izabella Miko

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