maio 29th, 2010

Tudo Pode Dar Certo

Whatever Works
“Algumas vezes, um clichê é a melhor forma de se explicar um ponto de vista.”

Essa é uma das ótimas falas criadas por Woody Allen em Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009), seu filme que liga a memória dos cinéfilos diretamente com os melhores  trabalhos do diretor nos anos 70 e 80. Não que Woody Allen tenha mostrado nas duas décadas seguintes uma ligeira preguiça guiada pelo piloto automático.

Mas faltava algum tempero, alguma inspiração, algo que solidificou perfeições em forma de cinema como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Manhattan e Hannah e Suas Irmãs. Não era exatamente a cabeça – genial, estressada, rabugenta, impiedosa, irônica, anti-social, hipocondríaca – do diretor que andava afastada de Nova York. Era o seu coração, que não sentia mais em outras histórias, que inspiraram sua criatividade nos anos anteriores, uma certa paixão pelo sujeito comum, dominado pela neurose, vítima de uma sociedade que vive numa cidade que nunca dorme, enraizado há muito tempo na cultura americana, ou melhor, cinematográfica. Não. Mais do que isso, faltava a Woody Allen rir de si mesmo, bater de frente com suas decisões pessoais – claro que falo da troca de Mia Farrow por Soon-Yi, décadas mais jovem que o cineasta -, que afetaram sua vida dentro e fora das telas.

Aqui, o artista não tenta fugir do homem de carne e osso. Não tenta mostrar que pode fazer mais, melhor e diferente – até porque ele sempre voltava a ser o bom e velho Woody Allen, nem que fosse em apenas uma ou duas cenas de seus últimos filmes. Aqui, o diretor abraça o clichê que ele criou. Sua assinatura está em cada cena, cada segundo deste Tudo Pode Dar Certo.

Está no primeiro plano, com a câmera descendo lentamente pela fachada de um bar novaiorquino, para dar atenção a um grupo de amigos jogando conversa fora numa mesa qualquer, enquanto começam a narrar a história do filme que vamos ver. Foi assim em Melinda e Melinda. Também em Broadway Danny Rose. Billy Crystal homenageou Woody Allen ao utilizar o mesmo recurso em seu belo Esqueça Paris. Isso é Woody Allen.

Quer mais? Temos o eterno cara neurótico, alter-ego do diretor, desta vez personificado por Larry David, tão sarcástico quanto Allen, afinal estamos falando do ator da série Curb Your Enthusiasm e o criador de Seinfeld. Em Tudo Pode Dar Certo, David é Woody Allen, com os mesmos óculos, mas sem cabelo. Talvez seja o melhor de todos os intérpretes das manias do cineasta que já vimos na tela.

Ele é Boris, um físico genial, que abomina a modernidade e não quer contato com ninguém, exceto com seus dois ou três amigos em almoços, jantares ou drinks em bares ou restaurantes. Mas numa dessas reviravoltas surpreendentes, que só a vida pode imaginar, que nem mesmo um gênio como Boris pode prever, o velho ranzinza é abordado por uma bela jovem na porta de sua casa. Seu nome é Melody (Evan Rachel Wood, maravilhosa, no melhor papel de sua carreira), que terá sua vida mudada – assim como a de Boris – para sempre.

Mas não espere lições de moral e mudanças radicais de comportamento no protagonista. Tudo Pode Dar Certo não é um clichê hollywoodiano. A “evolução” de Boris é um clichê saído do universo particular de Woody Allen. Boris continuará sendo Boris. Mas, com uma bela companhia, ele apenas passa a enxergar um outro lado. Porém, as mudanças sutis que se fazem notar na personalidade de Melody sugerem que a inteligência é contagiosa. Tudo isso remete ao próprio Allen, abastado intelectualmente, que só pode acreditar nessa tendência. Seus filmes refletem sua vida,  algo que fica evidente nos diálogos – carregados de humor e ironia – em primeira pessoa do protagonista com a plateia, em um recurso tantas vezes utilizado pelo diretor. E as palavras saem violentamente da boca de Larry David na velocidade de uma metralhadora.

Esse humor e toda a intimidade com a plateia podem dar a sensação incômoda, porém enganosa de uma pequena pausa com a entrada em cena dos pais da menina, além de um espaço maior para outros personagens, tirando o foco absoluto de Boris e Melody. Mas todas essas mudanças na trama estão lá por um motivo: Allen mostra que Boris pode conviver com outras pessoas. Bastava um pequeno empurrãozinho. Assim como o próprio cineasta precisou encontrar outras inspirações longe de Mia Farrow, Diane Keaton e Nova York. A vida imita a arte.

Logo no começo, Boris diz à plateia que Tudo Pode Dar Certo não é um daqueles filmes agradáveis de se ver. Irônico, porque o amor e a amizade podem causar dores. Entregar-se a novas experiências faz com que o ser humano perca o controle. Mas, não acredite no rabugento Boris, porque essa é uma comédia romântica deliciosa. É só ter um olhar acima da média, como sugere o protagonista na última fala do filme.

É mais fácil Woody Allen estar certo do que eu. Mas confesso que andava um pouco triste com a ausência do cinema divertido – e de certa forma nostálgico – desse grande autor americano. Parte da culpa vem da minha expectativa, claro. Mas, agora, entendo que Allen não é obrigado a fazer comédias eternamente. Charles Chaplin fez rir e chorar, ora bolas. Ninguém fica feliz ou triste o tempo todo. Dito isso, Woody Allen faz filmes de acordo com seu estado de espírito. Ponto. Em Tudo Pode Dar Certo, temos a morte e o amor, assim como as manias e a poesia. Puro Woody Allen, tentando desvendar esse grande mistério: os relacionamentos.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009)
Direção e roteiro: Woody Allen
Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Ed Begley, Conleth Hill, Michael McKean, Henry Cavill, Jessica Hecht, John Gallagher, Carolyn McCormick e Christopher Evan Welch

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