junho 2nd, 2010

“24 Horas” Depois

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Nos EUA, as duas séries mais populares da última década terminaram com uma diferença de apenas… 24 Horas. Enquanto Lost chegou ao fim num domingo que entrou para a história da TV, os fãs do ex-agente federal Jack Bauer (Kiefer Sutherland) viram o relógio digital maldito e assustador bater seus últimos segundos na noite seguinte.

Na internet, adoram brincar com a correria do protagonista que quer resolver tudo da noite para o dia. Fazem diversas piadas (os Jack Bauer Facts) sobre ele não ir ao banheiro, comer ou beber água. Enfim, se o cineasta Lars Von Trier fosse convidado para dirigir um episódio, Jack Bauer talvez aparecesse em toda a sua gloriosa intimidade, mas o próprio diria que não há tempo para tudo isso quando seu país está em perigo. E não será desta vez, mesmo depois de oito temporadas, que um dos maiores heróis da cultura pop poderá descansar. A série acabou, mas o filme vem aí.

Ok, você deve pensar: as temporadas têm 24 episódios, com uma hora de duração cada. Isso dá, vejamos, 24 Horas. Certo? Mas será que vai funcionar no cinema? Calma, ninguém ficará um dia inteiro numa sala escura. O filme estará dentro da média dos 120 minutos. Só que é hora de Kiefer Sutherland brilhar sozinho sem a ajuda do tempo real. Digo isso porque o ator – e produtor executivo da série – chegou a afirmar que o reloginho é o  grande astro de 24 Horas. Bom, Kiefer é o cara, mas foi infeliz na declaração. Queira ou não, o show sofreu em termos de qualidade após uma crescente absurda durante cinco temporadas. Surpreendentemente, a quinta conseguiu ser a melhor de todas. Mas só no primeiro episódio, vários personagens importantes foram assassinados. A decisão da equipe por trás de 24 Horas funcionou muito bem para conduzir a temporada. Porém, os três anos seguintes perderam fôlego com a entrada de personagens pouco carismáticos – algumas vezes deixando Jack Bauer inacreditavelmente para escanteio. O que isso quis dizer? Que os mortos nas temporadas anteriores fizeram muita falta. Mais: sozinho, o tempo real não segurou o interesse do público, ao contrário do que um dia pensou Kiefer Sutherland. Resultado? Série cancelada após seu oitavo ano.

Para o astro, isso não foi problema, já que todos os envolvidos queriam continuar 24 Horas no cinema. Era um sonho antigo. Faltava apenas a série ser cancelada pela Fox para que houvesse tempo para trabalhar o filme. Mas… será que vai dar certo? Para começar, o produtor Howard Gordon avisou que os mortos estão mortos. Também garantiu que não teremos um prelúdio. O filme agirá como uma espécie de nona temporada, mas que ainda não há uma alma viva que saiba como a história será contada, embora já exista um rascunho do roteiro.

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Se vai dar certo ou não, vamos combinar que será no mínimo engraçado acompanhar a vingança de Kiefer Sutherland contra Hollywood. Sim, eu disse “vingança”. Bruce Willis e George Clooney saíram da TV para fazer sucesso no cinema. O filho de Donald Sutherland fez exatamente o contrário. Atuou em vários filmes como Os Jovens Pistoleiros, Jovem Demais Para MorrerConta Comigo. Sempre como coadjuvante. Mesmo assim, as meninas com cabelos 80’s adoravam o rosto do ator, que costumava aparecer recortado em capas de cadernos e álbuns de figurinhas. O diretor Joel Schumacher também tentou dar uma mãozinha ao astro, em Linha Mortal e Os Garotos Perdidos, mas Kiefer Sutherland jamais estourou. Após cansar de mofar em fitas e DVDs que iam para as locadoras, sem passar pelo cinema, o projeto de astro arriscou tudo na TV. Fez o caminho inverso de Bruce Willis e George Clooney, sendo um dos primeiros atores com pouco sucesso na telona a vingar na telinha. Hoje, tem um Emmy, um SAG e um Globo de Ouro de Melhor Ator. E é definitivamente um astro. Tudo graças a 24 Horas.

Parece ironia constatar que Jack Bauer mudou seu comportamento ao longo dos anos. Quando 24 Horas foi ao ar, ninguém sabia se ia emplacar, afinal o ano era 2001 e os americanos ainda digeriam o 11 de setembro. Por isso mesmo, quem conhece a série sabe o quanto seu sucesso foi inesperado. Em pleno trauma dos ataques às Torres gêmeas, o protagonista Jack Bauer agia movido à intolerância, sendo o soldado americano ideal da Era Bush. Com pouco tempo para resolver as ameaças ao seu país, ele tinha sangue frio nas veias para torturar e matar suspeitos, incluindo nessa imensa lista seus próprios colegas de trabalho, em busca de respostas.

No começo da oitava (e última) temporada, a primeira que iniciou seus eventos à tarde (16:00) desde o terceiro ano, Bauer não queria mais saber de atirar primeiro e perguntar depois. Mais calmo, tolerante e ligado à família, Bauer assumiu o lado otimista da Era Obama, em um perfil que começou a ser desenhado em sua personalidade já na temporada anterior. Talvez Bauer esteja percebendo, tarde demais, que seus atos jamais consertarão um mundo onde o desentendimento e a violência vivem para sempre. Ou que ele é capaz de sobreviver a tudo, exceto ao tempo, como o xerife interpretado por Tommy Lee Jones, em Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Irmãos Coen. O ditado (ou crença) diz “aqui se faz, aqui se paga” e os fantasmas do passado insistem, literalmente, em bater à porta de Jack Bauer, que sempre se vê envolvido em uma trama de conspiração contra o governo dos EUA. E talvez o filme siga essa tendência. Mas será que Jack Bauer ainda tem fôlego para uma série de filmes? Ou apenas um? Como todo mundo, um dia, ele merece descansar. E é bom parar por cima.

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