junho 29th, 2010

Coração Louco

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Bad Blake (Jeff Bridges) é uma lenda da música country. Em sua época de ouro, foi uma das referências do gênero. Hoje, atravessa as estradas americanas, de bar em bar, tocando por uns míseros trocados – gastos em sua maioria em bebiba - para meia-dúzia de gatos pingados. É um ídolo abandonado pelo homem de carne e osso que não soube lidar com a fama. Seu aprendiz, Tommy Sweet (Colin Farrell), agora faz mais sucesso que o mestre e lidar com essa sensação de esquecimento beira o insuportável para o velho músico. Aos 57 anos, não tem mulher, seu filho não quer saber de sua existência e não tem um centavo no banco. Coração Louco (Crazy Heart, 2009), por incrível que pareça, não é um filme sobre Bad Blake. É um filme sobre a canção The Weary Kind, que ele compõe a pedido de Tommy.

Ok, Coração Louco não deixa de ser um filme sobre Bad Blake. Mas se a música se faz presente em 80% do filme de estreia do diretor Scott Cooper, prefiro abraçar a poesia. Como outras várias, The Weary Kind é uma canção bela, mas triste. Imagino que grandes músicos  tenham criado suas próprias canções com base em boas e más experiências de vida. É fácil ouvir uma música capaz de embalar o romance de casais na mais linda das noites ou aquela canção que acompanha um amargurado com uma garrafa de uísque como única companheira. Mas imagine como essa música saiu da mente de seu compositor. Imagine como ela inspirou sua voz e o violão. Em Coração Louco, acompanhar a queda de Bad Blake não é uma experiência cinematográfica tão grandiosa e inédita quanto chegar ao fim do filme e ficar com a sensação de que acompanhamos bem de perto o processo de criação de mais uma obra-prima de um talentoso artista que andava solitário e silencioso.

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Imagino também que a maioria dos gênios da música pense numa mulher, para o bem ou para o mal, na hora de compôr uma canção. E a musa inspiradora de Bad Blake é Jean (Maggie Gyllenhall), uma jornalista que se envolve com o cantor e decide segurar a barra para livrá-lo da sarjeta. Maggie é 100% coração. Jeff é 100% loucura. Ambos se completam em suas cenas. Para Bad Blake, The Weary Kind jamais teria existido sem Jean.

Então, Coração Louco é sobre a canção. Esse ponto de vista parece muito mais interessante para o cinéfilo do que ser um mero espectador da melhor e mais sentimental performance da carreira de Jeff Bridges, um monstro sagrado. Não sei se essa foi a intenção do diretor, mas prefiro ver o filme assim. Até porque perde feio em comparação a outros (bons) exemplos recentes de obras cinematográficas sobre artistas de diferentes áreas (O Lutador, Despedida em Las Vegas) entrando em colapso no mundo atual, real e cruel. Esteticamente, Coração Louco jamais poderia ter utilizado uma fotografia tão clean. Estamos falando de um homem indo ao encontro do fundo do poço. As cenas precisam ser escuras, cinzentas, sujas. Mas se assistirmos a Coração Louco como um filme sobre os bastidores da criação de uma música, a fotografia clean é justificada, afinal estamos falando de uma segunda chance.

Coração Louco (Crazy Heart, 2009)
Direção e roteiro: Scott Cooper
Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, James Keane, Robert Duvall e Colin Farrell

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Jeff Bridges) e Melhor Canção (The Weary Kind)

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