junho 25th, 2010

Kick-Ass

Kick Ass 2
Nos anos 80, mestre John Hughes fez filmes SOBRE adolescentes e não PARA adolescentes. O cineasta mostrou que entendia o jovem e como deveria ser o seu papel no mundo ao analisar seu comportamento em temas como amor, sexo, educação, trabalho, família e a busca pela felicidade (de preferência, antes da chegada da vida adulta). Tudo isso foi uma consequência das mudanças que o mundo enfrentou naquela década. O capitalismo dominou os países em desenvolvimento, inaugurando a cultura voltada para o consumo. A geração revolucionária das décadas passadas enfrentou uma dificuldade danada em educar os próprios filhos, alvos da revanche do sistema contra os arquitetos dos protestos dos 60 e 70. A vingança é um prato que se come frio e pais com seus idealismos viram seus filhos crescerem alienados e confusos com a chegada dos videogames e os computadores. Houve muita informação para uma geração ainda na idade da pedra do raciocínio tecnológico. Os pais, que entendiam tudo isso muito menos que seus filhos, só sabiam cobrar responsabilidade e comportamento com seus métodos já ultrapassados. No meio de toda essa loucura, o jovem só queria ver o tempo passar, ouvir sua música, namorar, curtir a vida adoidado e se desgrudar da realidade. Com seus filmes, como Gatinhas & Gatões e Clube dos Cinco, John Hughes traduziu tudo isso para o jovem.

Embora explore o tema do herói, que se pune enquanto embarca numa jornada contra as “forças do mal”, o diretor Matthew Vaughan, de Nem Tudo É o que Parece, e produtor dos primeiros filmes de Guy Ritche, não é exatamente um autor com A maiúsculo como John Hughes. Aliás, quase não temos obras autorais no cinema de hoje. Mas com Kick-Ass (2010), ele prova que entende o jovem da sociedade atual. Goste ou não, o filme é um reflexo de todas essas mudanças. Abraça, inclusive a alienação e a urgência do consumo – mesmo para aqueles que ainda usam fraldas – em um mundo cada vez mais voltado para a realidade, onde fantasia, mitos, conceitos e histórias clássicas não têm vez com o público-alvo do cenário atual.

Seria a clássica saga do super-herói, com jeitão de Homem-Aranha, mas pelo menos nos filmes de Sam Raimi não vemos Peter Parker justificando sua vocação para nerd com uma sessão de masturbação em seu quarto. Sinal dos tempos. A ingenuidade morreu. No caso de Dave Lizewski (o ótimo Aaron Johnson), o herói não nasce do consequente caos permitido pela desorganização do sistema. Para ele, o herói pode ser qualquer um. Desde que vista uma fantasia ridícula e saia pelas ruas na cara e na coragem. A sacada de Matthew Vaughan é conduzir o personagem até o ponto em que ele descobre estar errado: Ele pode sim ser um herói, como nos quadrinhos. Mas, antes, precisa conhecer a si próprio.

As maiores críticas ao filme citam a violência exagerada. Se você vibrou com Kick-Ass e acha que os críticos estão falando bobagem, porque é tudo de mentirinha, é bom repensar. Vamos combinar uma coisa: O filme É violento. Demais até. Dizem por aí que é violência estilo Tom & Jerry. Não é. Isso poderia ser colocado a respeito de Esqueceram de Mim, de Chris Columbus, e O Ratinho Encrenqueiro, de Gore Verbinski. Mas não sobre Kick-Ass. Violência de videogame? Ok. Mas a mídia é diferente. O cinema tem uma visibilidade muito maior. E é aqui que mora o perigo. A garotada não é mais inocente e vai querer ir ao cinema para ver Kick-Ass. Pais, atenção, pode parecer, mas isso não é recomendável para o seu filho com menos de 18 anos. Tirando a cena da última morte do filme, tudo é levado muito a sério. Enfim, fica a dica.

Kick Ass _destaque
Se você tem mais de 18, então dane-se. Kick-Ass é divertido pra cacete. E o sangue não é falso. A violência não é Tarantinesca, embora pareça. Muito menos faz parte do universo de John Woo. Baseado na HQ de Mark Millar, Kick-Ass é o auge da incorreção política. Ofende, mas faz rir. Especialmente o público masculino. Qualquer garoto de todas as idades vai se identificar com Dave, que combate o crime como o herói Kick-Ass, de roupa verde e amarela, que não tem nada a ver com os clássicos uniformes que exploram as cores da bandeira americana (Capitão América, Homem-Aranha, Superman). Em sua cruzada insana, ele descarrega toda a sua revolta por ser o aluno menos popular da escola, além de filho órfão de mãe, que recebe pouca atenção do pai e não arruma namorada. Ele “poderia estar roubando, matando ou se drogando”, mas resolve ser herói. É o inverso da história que acostumamos a ver na realidade.

Em sua jornada, descobre que já pensaram nisso antes. Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Moretz), pai e filha, estão na ativa e devidamente fantasiados há muito mais tempo. Diferente de Kick-Ass, não são conhecidos pelo público e acreditam que essa luta contra o crime só é possível se permanecerem no anonimato. Involuntariamente, seus caminhos de cruzam.

Dá pra rir e vibrar bastante com o filme. Principalmente com a menininha de 11 anos, que vira uma arma letal ao vestir o uniforme da Hit Girl. Os méritos são todos da atriz Chloe Moretz, que é fantástica. Ela é a melhor coisa do filme e tem tudo para ser a Abigail Breslin da vez. Mas Kick-Ass tem seus problemas. Há personagens demais, com falas demais, além de um exagerado tempo dedicado à evolução psicológica de cada pessoa em cena. Isso em apenas duas horas de duração. Mas parece que estamos diante de um filme de 180 minutos. E há sempre aquela mania de Hollywood em amenizar tudo no fim. Tem sangue, violência, masturbação e crianças assassinas, mas o final precisa ser sempre feliz.

Mas é bom se preparar. Kick-Ass é pós-moderno, chuta o pau da barraca armada por filmes como Superbad, que é bem mais intimista – acredite se quiser – e Hollywood deve explorar essa fórmula. Ou melhor, o nome disso é tendência. E a indústria precisa se reinventar de tempos em tempos.

Kick-Ass (2010)
Direção: Matthew Vaughan
Roteiro: Matthew Vaughn, Jane Goldman e Mark Millar
Elenco: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Nicolas Cage, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Clark Duke, Evan Peters, Lyndsy Fonseca e Jason Flemyng

Críticas . Posts