Kick-Ass

Nos anos 80, mestre John Hughes fez filmes SOBRE adolescentes e não PARA adolescentes. O cineasta mostrou que entendia o jovem e como deveria ser o seu papel no mundo ao analisar seu comportamento em temas como amor, sexo, educação, trabalho, família e a busca pela felicidade (de preferência, antes da chegada da vida adulta). Tudo isso foi uma consequência das mudanças que o mundo enfrentou naquela década. O capitalismo dominou os países em desenvolvimento, inaugurando a cultura voltada para o consumo. A geração revolucionária das décadas passadas enfrentou uma dificuldade danada em educar os próprios filhos, alvos da revanche do sistema contra os arquitetos dos protestos dos 60 e 70. A vingança é um prato que se come frio e pais com seus idealismos viram seus filhos crescerem alienados e confusos com a chegada dos videogames e os computadores. Houve muita informação para uma geração ainda na idade da pedra do raciocínio tecnológico. Os pais, que entendiam tudo isso muito menos que seus filhos, só sabiam cobrar responsabilidade e comportamento com seus métodos já ultrapassados. No meio de toda essa loucura, o jovem só queria ver o tempo passar, ouvir sua música, namorar, curtir a vida adoidado e se desgrudar da realidade. Com seus filmes, como Gatinhas & Gatões e Clube dos Cinco, John Hughes traduziu tudo isso para o jovem.
Embora explore o tema do herói, que se pune enquanto embarca numa jornada contra as “forças do mal”, o diretor Matthew Vaughan, de Nem Tudo É o que Parece, e produtor dos primeiros filmes de Guy Ritche, não é exatamente um autor com A maiúsculo como John Hughes. Aliás, quase não temos obras autorais no cinema de hoje. Mas com Kick-Ass (2010), ele prova que entende o jovem da sociedade atual. Goste ou não, o filme é um reflexo de todas essas mudanças. Abraça, inclusive a alienação e a urgência do consumo – mesmo para aqueles que ainda usam fraldas – em um mundo cada vez mais voltado para a realidade, onde fantasia, mitos, conceitos e histórias clássicas não têm vez com o público-alvo do cenário atual.
Seria a clássica saga do super-herói, com jeitão de Homem-Aranha, mas pelo menos nos filmes de Sam Raimi não vemos Peter Parker justificando sua vocação para nerd com uma sessão de masturbação em seu quarto. Sinal dos tempos. A ingenuidade morreu. No caso de Dave Lizewski (o ótimo Aaron Johnson), o herói não nasce do consequente caos permitido pela desorganização do sistema. Para ele, o herói pode ser qualquer um. Desde que vista uma fantasia ridícula e saia pelas ruas na cara e na coragem. A sacada de Matthew Vaughan é conduzir o personagem até o ponto em que ele descobre estar errado: Ele pode sim ser um herói, como nos quadrinhos. Mas, antes, precisa conhecer a si próprio.
As maiores críticas ao filme citam a violência exagerada. Se você vibrou com Kick-Ass e acha que os críticos estão falando bobagem, porque é tudo de mentirinha, é bom repensar. Vamos combinar uma coisa: O filme É violento. Demais até. Dizem por aí que é violência estilo Tom & Jerry. Não é. Isso poderia ser colocado a respeito de Esqueceram de Mim, de Chris Columbus, e O Ratinho Encrenqueiro, de Gore Verbinski. Mas não sobre Kick-Ass. Violência de videogame? Ok. Mas a mídia é diferente. O cinema tem uma visibilidade muito maior. E é aqui que mora o perigo. A garotada não é mais inocente e vai querer ir ao cinema para ver Kick-Ass. Pais, atenção, pode parecer, mas isso não é recomendável para o seu filho com menos de 18 anos. Tirando a cena da última morte do filme, tudo é levado muito a sério. Enfim, fica a dica.

Se você tem mais de 18, então dane-se. Kick-Ass é divertido pra cacete. E o sangue não é falso. A violência não é Tarantinesca, embora pareça. Muito menos faz parte do universo de John Woo. Baseado na HQ de Mark Millar, Kick-Ass é o auge da incorreção política. Ofende, mas faz rir. Especialmente o público masculino. Qualquer garoto de todas as idades vai se identificar com Dave, que combate o crime como o herói Kick-Ass, de roupa verde e amarela, que não tem nada a ver com os clássicos uniformes que exploram as cores da bandeira americana (Capitão América, Homem-Aranha, Superman). Em sua cruzada insana, ele descarrega toda a sua revolta por ser o aluno menos popular da escola, além de filho órfão de mãe, que recebe pouca atenção do pai e não arruma namorada. Ele “poderia estar roubando, matando ou se drogando”, mas resolve ser herói. É o inverso da história que acostumamos a ver na realidade.
Em sua jornada, descobre que já pensaram nisso antes. Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Moretz), pai e filha, estão na ativa e devidamente fantasiados há muito mais tempo. Diferente de Kick-Ass, não são conhecidos pelo público e acreditam que essa luta contra o crime só é possível se permanecerem no anonimato. Involuntariamente, seus caminhos de cruzam.
Dá pra rir e vibrar bastante com o filme. Principalmente com a menininha de 11 anos, que vira uma arma letal ao vestir o uniforme da Hit Girl. Os méritos são todos da atriz Chloe Moretz, que é fantástica. Ela é a melhor coisa do filme e tem tudo para ser a Abigail Breslin da vez. Mas Kick-Ass tem seus problemas. Há personagens demais, com falas demais, além de um exagerado tempo dedicado à evolução psicológica de cada pessoa em cena. Isso em apenas duas horas de duração. Mas parece que estamos diante de um filme de 180 minutos. E há sempre aquela mania de Hollywood em amenizar tudo no fim. Tem sangue, violência, masturbação e crianças assassinas, mas o final precisa ser sempre feliz.
Mas é bom se preparar. Kick-Ass é pós-moderno, chuta o pau da barraca armada por filmes como Superbad, que é bem mais intimista – acredite se quiser – e Hollywood deve explorar essa fórmula. Ou melhor, o nome disso é tendência. E a indústria precisa se reinventar de tempos em tempos.
Kick-Ass (2010)
Direção: Matthew Vaughan
Roteiro: Matthew Vaughn, Jane Goldman e Mark Millar
Elenco: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Nicolas Cage, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Clark Duke, Evan Peters, Lyndsy Fonseca e Jason Flemyng



Perfeito


O JETPACK MANOOOLO!!!!
Me diverti a beça, precisamos de cineastas assim que não tem medo de arriscar e chutar a bunda da mediocridade …
Nice, gostei da resenha! Te cuida mano!
Valeu, cara! Abs, e bom final de semana!
Pensava que sua cotação para este filme iria ser maior que três estrelas. Seu texto tá muito coerente e pé no chão – gosto disso, uma vez que a maioria das críticas se empolgam demais por essa obra. De qualquer maneira, “Kick Ass” é um filme que eu quero muito conferir.
Beijos!
KAMILA
Por que achou que eu daria mais estrelas? Na verdade, vibrei bastante, claro. Mas, na hora de escrever, preciso ser mais racional, né? Foi o que você quis dizer?? Hehe… Bjs!
bem, o filme é realmente proibido pra menores de 18 anos, então teoricamente qualquer criança ou adolescente sabe que não deveria ver esse filme. não que isso não impede que elas assistam…
bem, eu li os quadrinhos no qual o filmm é baseado e o fim é bem diferente do filme, mas tem todo um sentido pra isso, pro filme ter um final mais feliz e o quadrinho não, até porque o desenrolar do quadrinho muda muito
e pra falar a verdade o filme é MUITO, mas MUITO melhor que a revista
vou falar um pouco sobre essas comparações entre filme e quadrinho num texto meu que vai ao ar hoje, se quizer da uma passada no meu blog.
abraço.
Taco a taco com Zumbilândia, com a diferença de que esse aqui tem na violância um elemento a mais de anarquia.
Só lamentei que nos últimos 30 minutos ele tenha se levado a sério demais. Não fosse isso, seria ainda melhor…
Também concordo com Kamila e acho que uma crítica que não exagera nos elogios é bem interessante antes de ver uma obra (eu preciso vê-la urgentemente!!). Mas tenho quase certeza que vou adorar essa obra e rasgar mais elogios. rsrs