junho 14th, 2010

Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo

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Desde sempre, o cinema reflete a época em que vivemos. Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Time, 2010) fala sobre uma potência mundial invadindo e conquistando um território de força inferior, alegando que o inimigo esconde armas de destruição em massa. E o filme tem a coragem de mostrar que os mocinhos estão errados.

Não, isso não é um filme de guerra. Nem mesmo traz o olhar diferenciado de uma cineasta como Kathryn Bigelow para um gênero tão rodado. Ainda assim, só por isso, vale uma olhada para percebermos como os americanos não esqueceram Bush, ou já não confiam tanto em Obama. É um sentimento que vai tomando conta de Hollywood, que pode ser visto, inclusive, na oitava (e última) temporada de 24 Horas. Mas isso é outra história.

A verdade é que essa cutucada da indústria no governo americano é apenas a premissa de Príncipe da Pérsia. Estamos falando de uma típica aventura hollywoodiana – cheia de cortes rápidos, com muita ação, barulho e efeitos visuais de primeira – na lucrativa temporada do verão americano. Mais do que isso, trata-se de uma superprodução de Jerry Bruckheimer, que tenta desesperadamente (ao lado da Disney) achar outra franquia (sem a ajuda da Pixar) tão rentável quanto a galinha dos ovos de ouro das duas partes: Piratas do Caribe.Você já captou a mensagem.

Pra chegar lá, tanto a Disney quanto Bruckheimer chamaram o inglês Mike Newell, um diretor capaz de equilibrar drama, comédia, ação ou seja lá qual for o gênero em filmes tão distintos quanto água e óleo, como Quatro Casamentos e um Funeral, Donnie Brasco e Harry Potter e o Cálice de Fogo. Mas quem conhece cinema, sabe que o poderoso Bruckheimer, até hoje, só deu um pouquinho de liberdade artística a Ridley Scott, afinal é Ridley Scott, em Falcão Negro em Perigo. Piratas do Caribe 1, 2 e 3 foram dirigidos por Gore Verbinski, mas poderiam ser comandados por qualquer um. Tanto que o pastel de vento Rob Marshall (Chicago, Nine) será o responsável pela nova aventura de Jack Sparrow. A história se repete com o pobre Mike Newell, que faz exatamente o que Bruckheimer quer.

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“Jake, we are not in Brokeback Mountain anymore”

Sorte dele que contou com o apoio de um monstro da montagem: Michael Kahn, o favorito de Steven Spielberg. Sorte dele que teve a ajuda do diretor de fotografia John Seale, vencedor do Oscar por O Paciente Inglês, fazendo mais um trabalho magistral ao pintar na tela de forma tão viva as cores e as luzes do sol e das areias do deserto. Então, Hollywood, fica a dica: Vai filmar no deserto? Chame John Seale.

Também é sorte de Mike Newell, que Príncipe da Pérsia apresente os melhores efeitos visuais do primeiro semestre de 2010. Sorte que Jake Gyllenhaal é bom ator e dá conta do recado como o herói “meio homem, meio aranha” Dastan, destemido, divertido e propositalmente caricato como um Douglas Fairbanks anabolizado. Sorte que Gemma Arterton, uma das garotas preferidas da indústria na atualidade, entregue uma princesa do jeito que Bruckheimer gosta: Valente, nada indefesa, mas totalmente feminina, sensual, assim como sua preferida Keira Knightley, que colaborou com o produtor em Piratas do Caribe e Rei Arthur. E sorte do diretor que Ben Kingsley fez um vilão fácil de se odiar, enquanto Alfred Molina ficou perfeito como o clichê chamado “alívio cômico”. Mas não adianta: É um filme de Jerry Bruckheimer. Sorte NOSSA que está mais para a diversão de Piratas do Caribe que para a seriedade risível de Rei Arthur.

E é neste ponto que eu queria chegar. Não é culpa de Jake Gyllenhaal. Mas Príncipe da Pérsia é exatamente o que Piratas do Caribe teria sido se Johnny Depp não tivesse reinventado o Jack Sparrow do roteiro original, tornando-o, digamos assim, muito mais excêntrico.

Se conta alguma coisa, Príncipe da Pérsia é o melhor filme adaptado de um videogame. Na verdade, embora haja o respeito, é o primeiro que se desprende da mídia original para contar uma história empolgante com começo, meio e fim numa sala de cinema. Por outro lado, o filme tem graves problemas de roteiro, especialmente no quesito “narrativa”, que parece pular de um acontecimento a outro, sem muitas vezes levar em consideração o que vimos na tela minutos antes. É só quebrar a cabeça para desvendar como o tiozinho da cobra conseguiu a proeza de surgir do nada nas profundezas das areias do tempo para lutar contra Dastan no fim do filme. Não é spoiler. É só pra você ver que a situação é inexplicável.

Embora não queira dizer muita coisa, o filme é diversão rápida e garantida, sendo muito mais eficiente neste aspecto que outras superproduções da temporada, como Homem de Ferro 2 Fúria de Titãs. Tem viagem no tempo, mas não vai fazer ninguém colocar a cabeça para funcionar, como em De Volta Para o Futuro. Reflete a época atual, mas não vai cair na prova de ninguém. É apenas Hollywood correndo atrás de seu público.

Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Time, 2010)
Direção: Mike Newell
Roteiro: Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard
Elenco: Jake Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley, Alfred Molina, Steve Toussaint, Toby Kebbell, Richard Coyle, Ronald Pickup e Reece Ritchie

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