junho 17th, 2010

Toy Story

Toy Story I_ 1
Ei, alguém ainda lembra de Cassiopeia, a produção brasileira que brigou na justiça pelo título de “primeira animação feita 100% em computação gráfica”? Pois é. O americano Toy Story (1995), dirigido por um certo John Lasseter, de um estúdio de animação chamado Pixar prova 15 anos mais tarde que a qualidade da tecnologia é o que menos importa. De Toy Story até aqui, a Pixar mostrou que o roteiro ainda é – e sempre será – a principal preocupação dos grandes contadores de histórias.

Quando o primeiro Toy Story chegou às telas, a Disney amargava uma pequena queda de qualidade e uma gigantesca falta de criatividade em suas animações. Depois dos sucessos de A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1993) e O Rei Leão (1994), Pocahontas (1995) não emplacou. Se não fosse pela Pixar Animation Studios, os anos seguintes teriam provavelmente levado a Disney ao buraco.

Hoje, John Lasseter, cabeça da Pixar, tem o controle criativo de toda a área de animação da casa do Mickey Mouse. Sim, neste caso, ele também é o responsável por Bolt e A Princesa e o Sapo. Mas foi por causa de Toy Story que atualmente reconhecemos Lasseter (diretor de Toy Story 1 e 2, além de Vida de Inseto e Carros), Andrew Stanton (diretor de Procurando Nemo e WALL-E), Pete Docter (diretor de Monstros S. A. e Up), Brad Bird (diretor de Os Incríveis e Ratatouille) e Lee Unkrich (diretor de Toy Story 3 e co-diretor de Procurando Nemo e Monstros S. A.) como verdadeiros gênios do cinema moderno. Falar da sétima arte dos últimos 15 anos e ignorar os feitos da Pixar é como voltar pra escola e aprender tudo de novo.

Depois de 15 anos, rever Toy Story, logo nos primeiros segundos, transmite aos nossos olhos uma nítida sensação rápida, mas inevitável, que reconhece a evolução tecnológica da Pixar. Neste ponto, Toy Story é Branca de Neve e o Sete Anões perto de WALL-E e Up. Porém, mesmo em 1995, a primeira aventura de Woody, Buzz & Cia. já deixava Cassiopeia com cara de Steamboat Willie. Mas essa sensação desaparece em questão de segundos, porque a história é tão direta como uma flechada certeira no coração de quem já foi criança um dia.

Menino ou menina, todo mundo já teve seus brinquedos favoritos. O que a Pixar fez em Toy Story foi imaginar o ponto de vista de nossos bonecos mais queridos. Perceber o quanto eles sofrem por antecipação em datas regadas à presentes como Natal e aniversários é capaz de encher os olhos d’água, afinal sabemos o quanto gostávamos de ganhar brinquedos novos, que muitas vezes jogavam nossos velhos passatempos no fundo do baú com o acúmulo de poeira como destino. Ver Toy Story é relembrar a nossa infância. É imaginar que deveríamos ter cuidado melhor daquele boneco, que caiu, quebrou e nunca mais foi o mesmo.

Mas o “filme” – hoje é difícil reconhecer a Pixar apenas como criadora de “animações” – não é  melancólico, feito para arrancar lágrimas do adulto saudosista. O mesmo tipo de espectador também ri e vibra numa montanha russa de emoções. É como voltar a brincar. Voltar a ser criança com todas as boas e más situações que vivemos naquela época.

Toy Story I_ 2
A história você conhece: o menino Andy e sua família estão prontos para mudar de casa. Pensando na correria da mudança, sua mãe antecipa sua festa de aniversário e o presenteia com o boneco mais cobiçado pela garotada no momento, o astronauta Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), para o desespero do até então favorito do menino, o cowboy Woody (voz de Tom Hanks).

Toy Story vai longe ao confrontar o velho e o novo. E essa dualidade atinge em cheio as emoções do espectador. Novo ou velho. A começar pelos protagonistas na disputa do coração de Andy: o cowboy e o astronauta são dois mitos das últimas fronteiras ultrapassadas e conquistadas pelos americanos. São os heróis máximos da sociedade ianque. Cada um em sua época. Não por acaso, Woody é um boneco da velha guarda. Só fala quando puxam sua cordinha. Buzz é o modelo mais avançado da tecnologia. A partir deste encontro, antagonistas se tornam melhores amigos. Unir o velho e o novo, apesar de todas as diferenças, parece um sonho impossível.

É a metáfora que impera em nossa própria existência. Não há como impedir a passagem do tempo. A infância termina e começa a vida adulta. Envelhecemos e deixamos de ser crianças. Mas… será? Se Toy Story, depois de 15 anos, não envelheceu, será que nós ficamos velhos? Talvez apenas fisicamente. Mas, por dentro, ainda somos crianças, reconhecendo e revivendo antigos hábitos. Seguindo em frente, aprendendo com o outro, como Woody e Buzz. Como a Disney e a Pixar. Porém, sem jamais esquecer aquilo que somos.

Toy Story (Toy Story, 1995)
Direção: John Lasseter
Roteiro: Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen e Alec Sokolow
Com as vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Annie Potts, John Morris, Erik Von Detten, Laurie Metcalf, R. Lee Ermey e Sarah Freeman

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