junho 24th, 2010

Toy Story 3

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Toy Story 3 (2010) chegou aos cinemas simplesmente 11 anos após o último longa. É muito tempo entre um filme e outro, o que acaba gerando uma quase inevitável antipatia dos fãs em relação à continuação tardia de um grande sucesso: todo mundo imagina sua própria história na cabeça. É a criação superando seu criador. A obra vira domínio público. Esse tipo de decepção aconteceu com O Poderoso Chefão – Parte III, Star Wars – Episódio: A Ameaça Fantasma e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Mas isso é problema para Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg. Não para a Pixar. 

Quando o primeiro Toy Story estreou há 15 anos, toda a badalação em torno da originalidade do ponto de vista tecnológico despistou os olhos de público e crítica para aquilo que realmente importava para a Pixar, e que hoje sabemos depois de vários filmes, sucessos de bilheteria e prêmios: a criatividade na condução da narrativa. Antes novata no mercado, o estúdio atualmente é líder em seu segmento. Por isso mesmo, parecia tentador fazer de Toy Story 3 uma sequência somente para agradar aos egos de seus hoje poderosos criadores, como George Lucas, de nariz empinado, sentado em seu trono, fez com os novos Star Wars. Mas não. Felizmente, Toy Story 3 é para o público.

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Chega a ser surpreendente como o terceiro longa ainda tem muito a dizer. Não apenas fecha a história, como também sobrevive sozinho, talvez como o melhor exemplar da série iniciada em 1995. Como cinema, Toy Story 3 é o mais equilibrado, ousado e maduro da série. Os gênios da Pixar exploram uma inusitada mudança de tom no clima do filme, friamente calculado em diferentes partes, causando uma montanha russa de emoções. Em certa hora, Toy Story 3 é dominado por uma tensão absurda e incomum no gênero. Há momentos de puro terror psicológico, provocado principalmente pela imagem assustadora do boneco conhecido como “Bebezão”. Com ele, temos até uma homenagem a O Exorcista, o maior filme de terror de todos os tempos. É mole? De repente, Toy Story 3 vira um nervoso filme de ação, com uma boa dose de humor, no melhor estilo do clássico Fugindo do Inferno e a série Prison Break. No fim, Toy Story 3 esquece o terror e a ação para se assumir como um dramalhão. Enfim, quando a Pixar quer você grudado na poltrona do cinema, ela consegue. Minutos depois, caso queira divertir você com uma mistura de ação e comédia, a Pixar também consegue. E se agora, ela quer fazer você chorar, acredite, ela consegue. Tudo isso em apenas um filme. Tudo na medida certa, justificando cada linha do roteiro, incluindo as falas das personagens, sem atropelamentos no ritmo, como acontece em nove entre dez filmes do verão americano.

A trilogia, na verdade, fala sobre o tempo agindo na vida de cada um de nós. Todo mundo cresce e a maioria esquece como é ser criança. Abandonar os brinquedos favoritos de nossa infância é algo natural, que acontece nas melhores famílias. Toy Story 3 mostra exatamente esse momento inevitável, mas essencial para a passagem do tempo. O terceiro filme veio com a obrigação de, pelo menos, manter a qualidade das duas primeiras partes. Inicialmente, chega a causar uma ligeira estranheza ao espectador encarar o clima sombrio que toma conta de um dos atos do filme. Mas, no fim, vemos que a Pixar estava certa em apostar nessa mudança de tom. E (nós, espectadores) somos parte do plano.

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Tudo faz parte de uma estratégia, para que nos pegássemos às lágrimas na linda sequência final, que remete ao western Os Brutos Também Amam, com o menino gritando pelo cowboy Shane, que cavalga em direção ao horizonte. Só que Toy Story 3 inverte os pontos de vista do clássico de George Stevens. Você vai ver. É um rito de passagem, a recusa involuntária e inconsciente na porta de entrada para o mundo real e adulto. Acontece com todos nós. Nesse final, que justifica todos os três filmes, é praticamente impossível não chorar, afinal temos um flash de algum momento perdido da nossa infância. Não importa a idade do espectador, que cresceu com a série desde 1995.

A aula de cinema da Pixar vai além das telas. A evolução de um império de sonhos, desde o primeiro Toy Story, não permitiu que dinheiro e status ofuscassem as ambições criativas de seus realizadores. Talvez porque a Pixar seja um grupo e não uma só pessoa. Cada filme é dirigido por uma “criança grande” diferente, sempre ouvindo as ideias dos colegas e preocupada, claro, com a manutenção da qualidade de suas obras anteriores. Mas tentar desvendar o segredo da Pixar é como tentar adivinhar o que virá no próximo filme. O jeito é embarcar na viagem. Entenda: Não assistimos aos filmes desses caras. Nós “vivemos” os filmes da Pixar.

Toy Story 3 (2010)
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich
Com as vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Don Rickles, Wallace Shawn, Estelle Harris, John Ratzenberger, Ned Beatty, Michael Keaton, Kristen Schaal, Blake Clark, John Morris, Laurie Metcalf, Jodi Benson, Timothy Dalton, Jeff Garlin, Whoopi Goldberg, Bonnie Hunt e R. Lee Ermey

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