Toy Story 3

Toy Story 3 (2010) chegou aos cinemas simplesmente 11 anos após o último longa. É muito tempo entre um filme e outro, o que acaba gerando uma quase inevitável antipatia dos fãs em relação à continuação tardia de um grande sucesso: todo mundo imagina sua própria história na cabeça. É a criação superando seu criador. A obra vira domínio público. Esse tipo de decepção aconteceu com O Poderoso Chefão – Parte III, Star Wars – Episódio: A Ameaça Fantasma e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Mas isso é problema para Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg. Não para a Pixar.
Quando o primeiro Toy Story estreou há 15 anos, toda a badalação em torno da originalidade do ponto de vista tecnológico despistou os olhos de público e crítica para aquilo que realmente importava para a Pixar, e que hoje sabemos depois de vários filmes, sucessos de bilheteria e prêmios: a criatividade na condução da narrativa. Antes novata no mercado, o estúdio atualmente é líder em seu segmento. Por isso mesmo, parecia tentador fazer de Toy Story 3 uma sequência somente para agradar aos egos de seus hoje poderosos criadores, como George Lucas, de nariz empinado, sentado em seu trono, fez com os novos Star Wars. Mas não. Felizmente, Toy Story 3 é para o público.

Chega a ser surpreendente como o terceiro longa ainda tem muito a dizer. Não apenas fecha a história, como também sobrevive sozinho, talvez como o melhor exemplar da série iniciada em 1995. Como cinema, Toy Story 3 é o mais equilibrado, ousado e maduro da série. Os gênios da Pixar exploram uma inusitada mudança de tom no clima do filme, friamente calculado em diferentes partes, causando uma montanha russa de emoções. Em certa hora, Toy Story 3 é dominado por uma tensão absurda e incomum no gênero. Há momentos de puro terror psicológico, provocado principalmente pela imagem assustadora do boneco conhecido como “Bebezão”. Com ele, temos até uma homenagem a O Exorcista, o maior filme de terror de todos os tempos. É mole? De repente, Toy Story 3 vira um nervoso filme de ação, com uma boa dose de humor, no melhor estilo do clássico Fugindo do Inferno e a série Prison Break. No fim, Toy Story 3 esquece o terror e a ação para se assumir como um dramalhão. Enfim, quando a Pixar quer você grudado na poltrona do cinema, ela consegue. Minutos depois, caso queira divertir você com uma mistura de ação e comédia, a Pixar também consegue. E se agora, ela quer fazer você chorar, acredite, ela consegue. Tudo isso em apenas um filme. Tudo na medida certa, justificando cada linha do roteiro, incluindo as falas das personagens, sem atropelamentos no ritmo, como acontece em nove entre dez filmes do verão americano.
A trilogia, na verdade, fala sobre o tempo agindo na vida de cada um de nós. Todo mundo cresce e a maioria esquece como é ser criança. Abandonar os brinquedos favoritos de nossa infância é algo natural, que acontece nas melhores famílias. Toy Story 3 mostra exatamente esse momento inevitável, mas essencial para a passagem do tempo. O terceiro filme veio com a obrigação de, pelo menos, manter a qualidade das duas primeiras partes. Inicialmente, chega a causar uma ligeira estranheza ao espectador encarar o clima sombrio que toma conta de um dos atos do filme. Mas, no fim, vemos que a Pixar estava certa em apostar nessa mudança de tom. E (nós, espectadores) somos parte do plano.

Tudo faz parte de uma estratégia, para que nos pegássemos às lágrimas na linda sequência final, que remete ao western Os Brutos Também Amam, com o menino gritando pelo cowboy Shane, que cavalga em direção ao horizonte. Só que Toy Story 3 inverte os pontos de vista do clássico de George Stevens. Você vai ver. É um rito de passagem, a recusa involuntária e inconsciente na porta de entrada para o mundo real e adulto. Acontece com todos nós. Nesse final, que justifica todos os três filmes, é praticamente impossível não chorar, afinal temos um flash de algum momento perdido da nossa infância. Não importa a idade do espectador, que cresceu com a série desde 1995.
A aula de cinema da Pixar vai além das telas. A evolução de um império de sonhos, desde o primeiro Toy Story, não permitiu que dinheiro e status ofuscassem as ambições criativas de seus realizadores. Talvez porque a Pixar seja um grupo e não uma só pessoa. Cada filme é dirigido por uma “criança grande” diferente, sempre ouvindo as ideias dos colegas e preocupada, claro, com a manutenção da qualidade de suas obras anteriores. Mas tentar desvendar o segredo da Pixar é como tentar adivinhar o que virá no próximo filme. O jeito é embarcar na viagem. Entenda: Não assistimos aos filmes desses caras. Nós “vivemos” os filmes da Pixar.
Toy Story 3 (2010)
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich
Com as vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Don Rickles, Wallace Shawn, Estelle Harris, John Ratzenberger, Ned Beatty, Michael Keaton, Kristen Schaal, Blake Clark, John Morris, Laurie Metcalf, Jodi Benson, Timothy Dalton, Jeff Garlin, Whoopi Goldberg, Bonnie Hunt e R. Lee Ermey



Perfeito


A leitura sobre Shane é brilhante e bem vinda, já que o filme se debruça em citações diretas e bem feitas a outros, como Missão Impossível, Fugindo do Inferno e Retorno de Jedi – só que a de Shane é uma homenagem com sentido narrativo fortíssimo. Só a cena inicial já seria um primor, porque consegue dar um baile em muitos filmes de ação e re-apresenta todos os personagens em menos de 5 minutos.
E talvez a série seja exemplar no processo de evoluir junto com seu público – mesmo que a evolução no tempo real tenha sido maior, o público marmanjo que hoje chora é o mesmo que conheceu o filme quando criança ou adolescente. Acho que nunca a antromorfização de um animal ou objeto resultou em algo tão humano – ou mais humano que humanos de verdade – como em Toy Story. Basta ter sido criança para se emocionar de verdade – e quem de nós não guarda na lembrança “aquele” brinquedo favorito da infância?
A Pixar é genial por tocar nesses pontos ao mesmo tempo sem atropelar nenhum deles. Fora de série…
Lindo texto sobre um lindo filme, mestre Otávio! Eu acho que Toy Story 3 encerra de modo genial a história de Woddy, Buzz e cia. O melhor é a versão em espanhol do patrulheiro da galáxia! hehehehe!
Imperdível. Riam, chorem, se divirtam. Minha humilde resenha:
http://cinemagia.wordpress.com/2010/06/20/resenhas-toy-story-3/
Um abraço
Tommy
Exatamente é um rito de passagem, ainda mais se pensarmos que as crianças que conheceram o longa em 1995 agora são os jovens adultos que acabaram de passar por isso. A Pixar conseguiu se superar e me levar as lágrimas com sua última sequência. Precisamos de outros filmes como Toy Story 3 nas telas.
“Nós “vivemos” os filmes da Pixar”. Amém!
Que texto lindo, Otavio. Mas, é isso mesmo! A gente vive os filmes da Pixar, mas porque eles possuem histórias com as quais podemos nos identificar. Esse é o caso claro de “Toy Story 3″. Um filme que é mesmo uma conclusão perfeita para essa história. O ato final é uma das cenas mais lindas do ano, desde já.
Beijos!
Adorei o filme e o seu texto está incrível (como sempre)!
Bjs
Que filme, meu Deus, que filme!
Que a Copas se dane! Viva o cinema! rsrsrs
Cara, amei. Meu preferido da série (e olha que adoro todos). Ri, vibrei, chorei…
FABIO
Verdade! “O Retorno de Jedi”… no fim… bem lembrado! E perfeita a tua colocação aí sobre “antromorfização”… Palavra legal! Mas acho que a Pixar consegue isso em todos os seus filmes, eu acho. Até em UP, com os cachorros que falam “ESQUILO”. Abs!
JOSMAR
Obrigado, irmão! “Señorita, señorita, donde estás?” Abs!
TOMMY
Valeu! Fui lá e comentei no teu blog. Bela resenha! Abs!
AMANDA
Disse tudo. O final é lindo mesmo. O melhor do ano! E, na verdade, acho que faltam mais filmes como TOY STORY sem o selo Pixar, né? Porque os caras sempre acertam… Bjs!
VINÍCIUS
Deus abençoe a Pixar! Abs!
KAMILA
Obrigado! E o final é perfeito. Fecha a trilogia de forma magnífica. Impossível não se identificar (e emocionar). Bjs!
FLAVIA
Muito obrigado! E o filme é maravilhoso! Bjs!
DENIS
Copa terrível! Viva o cinema! Abs!
WALLY
Pois é, cara. Acho que também prefiro o 3… não sei ainda, mas acho que será meu favorito em pouco tempo… Abs!
Eu escrevi antromorfização!!! Seria “antropomorfização”, só pra complicar mais hehe
Uau! Um dos grandes filmes do ano? Cada texto que leio aumenta minha vontade de ver. Vou urgentemente.
FABIO
Hehehe, tá em casa! Abs!
LUIS
Um dos grandes? Seria o maior? Abs!
Só de ler o seu texto, comecei a chorar só de lembrar. rsrsrs. Por enquanto, só tenho que dizer: Na Pixar existem pessoas que são realmente apaixonadas por cinema.
Lindo texto, assim como o filme!
Beijos!
Nossa, Mayara! Obrigado de coração!
Beijos pra vc!
Engraçado: ler sua resenha quase me levou às lágrimas. Vendo Toy Story 3 eu não chorei, eu berrei. Obra-prima! Também fiz uma resenha no meu humilde bloguinho. É o efeito Toy Story 3 devastando os corações dos marmanjos…
Marcelo, muito obrigado! Vou passar no teu blog pra conhecer.
Abs!
Nuusa.
Depois desse belo texto eu também senti vontade de assitir! Curti os 2 primeiros e fiquei com medo de me decepcionar com essa sequencia, mas pelo jeito eu estava enganado.
Obrigado , Otavio!
Melhor filme disparado de animação em toda a minha vida. Será sacanagem se não concorrer a Melhor Filme no Oscar. E não preciso nem falar que vai ganhar em Melhor Animação, não é?
Antes de começar o filme no cinema, passou um curta chamado Dia e Noite. Gente, se esse não ganhar como Melhor Curta Animado eu paro de considerar o Oscar. Muito emocionante!
Voltando a Toy Story, quase chorei quando mostra o Andy pequeno brincando com Eles (sim, a letra maiúscula foi proposital), e pra ficar melhor ainda, a música “Amigo Estou Aqui”. Contudo, não consegui segurar as lágrimas no final. Melhor filme do ano, com certeza!!!