À Prova de Morte

No auge de suas carreiras, os cineastas George Cukor, Woody Allen e Pedro Almodóvar pareciam compreender as mulheres de suas épocas. São três nomes que acompanharam o universo feminino pelo cinema desde o romantismo exacerbado até a conquista de seus direitos dentro de uma sociedade dominada por homens.
Apesar de começar sua filmografia com intensas (e originais) histórias policiais de bolso, Quentin Tarantino é sim um cineasta preocupado em dar voz às mulheres. Por mais estranho que isso possa parecer, o diretor mais influente (e imitado) desde o início dos anos 1990 é um herdeiro do legado de Cukor, Allen e Almodóvar.
Bom, existe o cinema como você conhece e existe o cinema segundo Quentin Tarantino. Que ninguém mais diga que Tarantino copia. Goste ou não, ele é original. Sua referência eterna é a cultura pop. O diretor é cinéfilo, fã de quadrinhos, armas, kung fu, bares, restaurantes, faroestes, carrões, e tudo quanto é cenário para um papo (ao mesmo tempo) descontraído e reflexivo sobre o que foi pop e cult – e como isso reflete nas tribos da atualidade. E não adianta teimar: ninguém consegue se igualar a Tarantino nesses quesitos.
Verborrágico, o cineasta expõe suas opiniões por cada um de seus personagens bizarros de tão reais. Ao menos, eles falam tudo aquilo que não temos coragem de dizer, mas que certamente passam pela cabeça de qualquer um. Se você ainda não se acostumou, À Prova de Morte (Death Proof, 2007), filme desmembrado do projeto Grindhouse (idealizado em parceria com o amigo Robert Rodriguez, que dirigiu a metade Planeta Terror), pode flertar com o suspense e o terror, mas faz parte de seu universo particular.
E aos poucos, dentro desse mundo, Quentin Tarantino mostra que entende as mulheres. Foi assim com Pam Grier, em Jackie Brown, e Uma Thurman, em Kill Bill. E faz de novo em À Prova de Morte. Para chegar nesse ponto, Kurt Russell (impagável) é a cobaia. Ele pode ter cara de protagonista, mas são as belas moças do filme que dão as cartas.
Entre referências ao pop e até mesmo à sua filmografia (os fãs vão se divertir ao identificar detalhes e personagens de outros trabalhos do diretor), Tarantino acompanha duas turmas de belas garotas com algumas coisas em comum: elas só querem se divertir e são atacadas pelo misterioso maníaco das estradas conhecido como “Stuntman Mike” (Russell). À bordo de seu potente muscle car negro “à prova de morte”, ele detona as pobrezinhas a cerca de 200 Km/h. O diretor e roteirista não explica os motivos do assassino e nem diz muito sobre seu passado – tirando, claro, a informação que está no nome.
Tarantino é mestre em criar personagens místicos de tão trash. Ele joga pouquíssimas informações só para situar o espectador na história. E é só. Isso intriga e é genial. Veja bem: quem foi Vincent Vega (John Travolta), em Pulp Fiction? Quem são os bandidos de Cães de Aluguel? E a Noiva (Uma Thurman), de Kill Bill? O “Dublê Mike” de Kurt Russell é o mais novo integrante dessa galeria tarantinesca.
Voltando ao enredo, a primeira metade de À Prova de Morte pode irritar um pouco as mulheres, mas o público masculino agradece. É um exagero de closes no melhor da anatomia feminina, incluindo o fetiche do diretor por pés já notado em Kill Bill e Jackie Brown, além de muito blá-blá-blá ao estilo Tarantino.

O cineasta já revelou nos extras do DVD de Kill Bill, que sempre quis enfrentar o desafio de filmar cenas de ação. Para ele, todo grande diretor deveria passar por isso. Se ele realizou o sonho no Volume 1, deixou todo o vocabulário conhecido pelos fãs para o Volume 2. Em À Prova de Morte, ele faz o contrário. Começa falastrão e na segunda metade, Tarantino engata (literalmente) a quinta marcha e entrega um invejável espetáculo de ação sobre rodas. Na contramão do festival de efeitos gerados por computador (técnica hollywoodiana ironizada num diálogo comandado por Kurt Russell), o diretor monta suas sequências em alta velocidade à moda antiga e faz você grudar na cadeira.
E é na metade final, que Tarantino pede desculpas às mulheres e mostra sua verdadeira intenção. Primeiro, ele ganha a atenção dos homens, para depois conquistar o público feminino. Sensacional. Elas passam de caça a caçadoras.
À Prova de Morte não deixa de ser uma fábula extremamente feminista. Para Tarantino, a mulher não deve se entregar à aparente força masculina. Ela não deixa de amar; deseja ser mãe e faz o que bem entende – exatamente como os homens sempre fizeram (e fazem). Aqui, a mulher não abdica da feminilidade para tomar o controle e é rainha do universo de Quentin Tarantino, sem ligar para a opinião dos outros. E coitado daquele que pisar no seu calo. Como a Noiva fez, em Kill Bill, as garotas de À Prova de Morte partem para cima do “frágil” Stuntman Mike. É o homem se curvando diante da mulher ao descobrir sua força anteriormente reprimida. Tudo ao som de uma dançante trilha escolhida a dedo pelo diretor. Como sempre.
Pode parecer um Tarantino menor, porque é assumidamente um filme de puro entretenimento. E por não ser tão forte quanto Cães de Aluguel ou Pulp Fiction. Ou épico como Kill Bill. Mas ainda assim é mais um exemplar que confirma seu talento como contador de histórias e cineasta no total controle de seu ofício. Quando o filme termina, você pode sair rindo ou gargalhando do cinema. Mas, minutos depois, será inevitável não refletir sobre o que o autor Tarantino acabou de aprontar. Isso não acontece em qualquer “filme de entretenimento”.
À Prova de Morte (Death Proof, 2007)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Rose McGowan, Sydney Tamiia Poitier, Mary Elizabeth Winstead e Zoe Bell
Obs: O Hollywoodiano assistiu “À Prova de Morte” na Mostra Internacional de São Paulo. A crítica foi postada originalmente em 22 de outubro de 2007. Só pra você ver como o filme demorou a estrear.



Perfeito


Absurdo essa demora para o filme estrear, rsrsrs – mas também já tinha visto o mesmo em 2007, por Tarantino não dá para esperar. Sem dúvida um filme muito competente do diretor, mas inferior à maior parte de suas obras.
Achei GENIAL. Não no nível de outras obras do Tarantino, como Pulp, Cães e Bastardos, mas revendo o filme só percebi como ele é FANTÁSTICO de forma que muita gente deixa escapar.
Aliás, para receber tudo queo Taranta tem a oferecer, é preciso ter uma bagagem anterior e um olhar clínico. Sem essa bagagem, infelizmente, muita gente deixa passar voando referências, citações e misturebas geniais.
Já está no meu TOP 5 dos filmes deste ano. Tarantino é fora de série…
Imagino o quanto que esse filme vai demorar a estrear aqui em Natal… Haja paciência!
Beijos!
Esse filme é uma das grandes vitimas do desacato das distribuidoras, lembro que estava com uma, depois foi para outra e demorou muito para lançar, é lamentável! E justo com um filme do Tarantino…
Beijos!
Tarantino sempre foi brilhante mesmo ao retratar personagens femininas no cinema, talvez o único diretor q/ o faz sem se apegar a estereótipos. Vamos aguaradar a essa grande estréia.
Na segunda parte, a violência ganha vez e o filme torna-se mais emocionante. Brincando com os “defeitos especiais”, o filme vira um legítimo road movie macabro, trazendo boas lembranças de Encurralado. Três anos depois, mas uma potência de hoje.
Também não consigo entender o porque do filme ter demorado tanto para estreiar.
Gostei bastante do filme e do teu texto. Realmente o Tarantino dá voz as mulheres de uma maneira fantástica e eu diria que esse lado dele começou a tomar forma com a Mia Wallace (Uma Thurman) em Pulp Fiction, apesar de que o grande destaque nesse sentido foi em Jackie Brown mesmo.
Em tempo, o terceiro parágrafo do review é uma das melhores defnições que eu já li sobre o Tarantino.
Abraços.
Tarantino à vontade dentro de um universo que ele conhece bem… Outro dia desses conversava com meus comparsas cinéfilos: “imagine Tarantino dirigindo um Mad Max”. Depois de ver À Prova de Morte, fiquei com + vontade ainda.
Vi ontem, filmaço. E o final heim rsrsrrsrsr? Mas fiquei curioso com o que aconteceu com a quarta menina que ficou com o dono do carro. O que acontecu com a coitadinha? Dependendo do que ocorreu coitadinho será o dono do carro rsrrsrsrsrsrsr. E realmente Tarantino mostra como as mulheres devem agir, com força e coragem sem temer homens.