O Livro de Eli

Incrível como nos dias de hoje um filme como O Livro de Eli (The Book of Eli, 2010) já merece elogios por ter saído de um (bom e criativo) roteiro original. Não é remake, continuação, prequel nem mesmo o já comum “começar de novo”. Sim, tem elementos de diversos filmes, mas O Livro de Eli nasceu de roteiro original, algo quase extinto no cinemão, como muitas coisas no cenário futurista deste filme dos irmãos Albert e Allen Hughes (Do Inferno). Algo valioso que seria disputado até a morte pelos personagens de O Livro de Eli.
É o típico filme que será massacrado por espectadores que almoçam High School Musical e jantam Crepúsculo, afinal começa e é desenvolvido sem muitas informações sobre seus personagens e o cenário em que vivem. Se passa no futuro, mas o que importa é o presente. O que importa é a jornada de Eli (Denzel Washington). Não para onde ele vai. Muito menos sobre de onde ele veio. E como. Entendeu o quero dizer? O Livro de Eli vai gerar muitas perguntas. Acredite: a missão e a história de Eli serão discutidas por muito tempo. É um filme que não termina com o “The End”.
Em um futuro devastado pela guerra do homem contra o homem, conhecemos Eli, numa narrativa construída com silêncio, poucos diálogos e muitas imagens concentradas em estradas vazias, pontes destruídas, ar seco e poluído – tudo com uma fotografia meio azulada, meio cinzenta, dando a impressão de que temos uma única e nova cor dando o tom do cenário que restou. Uma cor que só pode ser vista por quem sobreviveu ao juízo final. Durante 30 anos, Eli caminha rumo ao horizonte para entregar seu livro a quem estiver lá. Uma hora aqui e outra ali, o herói tem sua jornada interrompida por escórias como canibais e ladrões. Dono de uma habilidade absurda que o torna praticamente imbatível nas lutas, Eli perde apenas alguns segundos cortando membros dos inimigos que ousam cruzar seu caminho. E ele logo segue viagem. Perto de seu destino, Eli terá mais uma prova de fogo: escapar das garras de Carnegie (Gary Oldman), espécie de xerife de um vilarejo que lembra um cenário imundo de um faroeste de Sergio Leone. Carnegie, o xerife, quer o livro de Eli, o forasteiro. E nada mais posso contar.
Deveria ser proibido entregar os segredos de um filme como este ao público. Não que ele dependa de uma reviravolta final, algo que virou cacoete em Hollywood desde O Sexto Sentido. E ela existe. De forma sutil, que jamais modifica o filme que você acabou de ver. Mas ela existe. O Livro de Eli termina e seu final faz com que qualquer um tenha vontade de revê-lo. É quase que uma obrigação. Admito que me senti cego com esse final. É como se tudo estivesse ali, bem na minha frente, e eu fosse incapaz de enxergar não uma, mas talvez duas versões diferentes. Não há trapaças, nem pistas falsas. Nada disso. Há somente o excepcional roteiro de Gary Whitta e a direção primorosa dos irmãos Hughes, que nos levam direto ao final, que gera uma nova e intrigante discussão, jogando o filme em outra dimensão.
Você viu vários filmes com cenários pós-apocalípticos, como Mad Max por exemplo. Mas talvez não haja outro, além de Blade Runner, que possa sobreviver ao tempo de maneira tão merecida. No fim, existe o meu O Livro de Eli e há o seu O Livro de Eli. Não estou dizendo que é mais um daqueles filmes que explicam coisa alguma graças aos delírios de um diretor chapado. O Livro de Eli se concentra no aqui e agora. Parece que é um filme com começo, meio e fim, mas ele jamais termina na mente do espectador. Juntar as peças se torna algo prazeroso.
É uma pena que o público atual, em sua maioria, goste de ter o filme mastigadinho à sua frente. Mas O Livro de Eli é cinema de entretenimento feito por quem entende a história da sétima arte. Os irmãos Hughes sabem que a experiência de ver um filme não acaba quando as luzes acendem. O filme precisa ir para casa com o espectador e crescer em sua mente. Seja um produto de Hollywood ou não. O Livro de Eli diverte, mas vai te fazer pensar. Não só a respeito dos mistérios em torno do passado do protagonista, suas ações e seus motivos. O Livro de Eli faz pensar sobre a situação do mundo de hoje, incluindo nosso papel dentro da sociedade, assim como lidamos com as nossas crenças e a reação que temos diante da fé e das opiniões dos outros.
Além disso, faz pensar em nossos conhecimentos sobre cinema, já que temos um festival de referências que vão desde o faroeste aos grandes clássicos da ficção científica. Pensamos também na técnica, no modo de fazer cinema, afinal uma das curiosidades está nas belas cenas de luta, feitas praticamente numa tacada só, sem aqueles malditos cortes de dois em dois segundos, deixando a ação – e talvez o filme inteiro – com cara de videoclipe. Bem dirigido, escrito, fotografado, e interpretado com a competência habitual de Denzel Washington e Gary Oldman – elogios também devem ser direcionados às belas Mila Kunis e Jennifer Beals -, O Livro de Eli é um filme que merece ser (re)descoberto.
O Livro de Eli (The Book of Eli, 2010)
Direção: Allen Hughes e Albert Hughes
Roteiro: Gary Whitta
Elenco: Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Ray Stevenson, Jennifer Beals, Evan Jones, Joe Pingue, Frances de la Tour e Michael Gambon



Perfeito

Recebido de forma injusta como uma ação a toque de caixa por muita gente. Tem muita coisa a dizer, sem mencionar que os irmãos Hughes têm estilo…
Aliás, aquele final – o local onde se passa, pra que ele servia e pra serve agora – daria para uma bela discussão de semiótica hehe
Tenho mantido uma distância segura de filmes protagonizados pelo Denzel Washington, mas talvez veja esse um dia…
Eu adorei este filme, quando o assisti no cinema. Um roteiro que surpreende, uma história diferente e que instiga, uma execução técnica muito boa. Um filme que merece mesmo ser (re)descoberto.
Beijos!
Não falei que era bão? Abs!
Não gostei desse aí. Condução levemente inspirada para um roteiro totalmente fraco. Realmente era para acreditar naquela revira-volta do final? Washington está muito bem, porém.