julho 16th, 2010

O Escritor Fantasma

The Ghost Writer 2
De vez em quando, um diretor clássico como Roman Polanski lembra o cinéfilo que ainda é possível ir ao cinema e sentir prazer ao ser enganado por uma trama persuasiva, daquelas de fazer esquecer a realidade, mesmo que a história traga elementos que digam muito sobre a atualidade. De vez em quando, temos a noção exata da importância da trama, como a prioridade máxima da atenção da plateia. Lembramos que ainda é possível acompanhar a construção de uma história com extrema paciência, com minutos e minutos não gastos, mas aproveitados para o desenvolvimento dos personagens e do clima que o filme exige em sua emoção crescente que acompanha os acontecimentos cena após cena. Um desses filmes é O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010), assinado por Roman Polanski em mais uma época complicada de sua vida fora das telas.

Baseado no livro The Ghost, de Robert Harris, que assinou o roteiro ao lado do próprio Polanski, O Escritor Fantasma só poderia ter sido feito por um diretor corajoso, constantemente acusado, vigiado pelos olhos carregados de dúvidas daqueles que querem misturar o homem com o artista. Polanski não tem medo de apontar os verdadeiros culpados. Pega o cenário mundial atual e dá nome aos bois. Abre a caixa-preta da nossa época dominada por políticos e grandes corporações. E estamos falando de uma produção estrelada por nomes de apelo comercial, como Ewan McGregor e Pierce Brosnan.

O ponto é que todo mundo vai ver O Escritor Fantasma e ninguém ficará indiferente no final. Vendo pelo lado da realidade, cabe ao espectador julgar se Polanski é apenas mais um membro da intriga da oposição, cheio de teorias da conspiração a respeito de quem tem o poder. Ou se o espectador concorda com o dedo acusador do cineasta. Vendo pelo lado da ficção, O Escritor Fantasma é um exercício de boa narrativa – lenta, extremamente calma e suave em sua primeira (e brilhante) hora, tomando todo o tempo do mundo para situar o espectador na situação do protagonista, enquanto ele embarca em um pesadelo. Até Polanski arremessar a plateia no mato sem cachorro em que o personagem de Ewan McGregor se meteu, numa correria sem fim, que deveria zelar pela sobrevivência do mesmo, mas que inconscientemente o prende numa busca neurótica pela verdade. Antes da cena final, a maioria dos espectadores não ficará indiferente ao filme. Depois dela, ninguém ficará.

Em O Escritor Fantasma, Ewan McGregor é o Ghost Writer do título original – você jamais saberá seu verdadeiro nome. Ele é contratado para escrever as memórias do ex-Primeiro Ministro Britânico Adam Lang (Pierce Brosnan, claramente inspirado em Tony Blair), acusado de violar os direitos humanos ao entregar suspeitos de terrorismo para a CIA torturar. O Ghost Writer, assim como Polanski em O Inquilino, começa o filme entrando em seu calvário, em um mundo que não é o seu, dando ao espectador a sensação de que é uma viagem sem volta para o protagonista. Confinado em uma casa de praia que mais se parece com uma prisão, o Ghost Writer será vigiado por todos os lados até ser dominado pela paranoia que toma conta do cenário mundial e embarcar numa incontrolável jornada investigativa que pode justificar sua própria existência, já que é um escritor fracassado, sem mulher, filhos, família e amigos.

The Ghost Writer 1

Polanski é um diretor clássico. Constroi o suspense sem sustos marcados por efeitos sonoros ou trilha sonora que entra de repente para assustar o espectador mais do que a própria cena sugere ou exige. Ele vai aumentando a intensidade da tensão como só os bons contadores de histórias sabem fazer. É elegante em sua construção, o que faz muitos desavisados confundirem seu cinema com homenagens diretas a Alfred Hitchcock, o mestre do gênero. Mas isso é para quem não viu a tensão crescente, composta com paciência, em filmes como O Inquilino, O Bebê de Rosemary e Chinatown. Em O Escritor Fantasma é curioso notar como Polanski usa o clima (o tempo) para enlouquecer (ou seria “estimular”?) o Ghost Writer em sua “prisão domiciliar”. Da janela, ele percebe a presença ininterrupta do vento. Aliás, venta e faz frio o tempo todo neste filme.  De vez em quando chove. É o clima aumentando a tensão.

É como se o filme fosse um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Note como o Ghost Writer está sempre caindo no sono e acordando repentinamente. Nada é o que parece ser nesse verdadeiro jogo de aparências, que aliás domina o universo da política, da espionagem; um sentimento ambivalente que marca o mundo atual, onde muitas pessoas mantêm relacionamentos à distância, de frente para seus computadores. É um mundo lotado de avatares, pessoas vazias, sem identidade, personalidade, com discursos roubados de falas alheias ou linhas escritas por terceiros. É a própria função do Ghost Writer, que de uma hora para outra se enche de coragem, tentando encontrar um sentido para sua vida enquanto mergulha de cabeça numa investigação que não era para ser sua.

Se a paciência da narrativa tomou conta da primeira hora do filme, a metade final é marcada por muita correria, onde fica difícil separar os bons dos maus, assim como a realidade da imaginação. Mesmo quando achamos que finalmente descobrimos a verdade, o filme termina com mais perguntas que respostas. Não que a segunda metade seja confusa por erros de roteiro ou direção. Ela é assim porque Polanski quer o espectador preso aos olhos e às deduções ora precipitadas, ora certeiras do protagonista. Mais uma vez, eis a ideia do Ghost Writer sonhando acordado. É onde toda a confusão faz sentido. Ou não.

Repare como Polanski não mostra qualquer cena ou personagem que não esteja no campo de visão do Ghost Writer. O filme segue somente o ponto de vista de seu protagonista. Até mesmo na genial cena do bilhetinho passando de mão em mão. Nela, a câmera faz questão de mostrar ao espectador que o Ghost Writer está lá atrás observando tudo. O filme é aquilo que o protagonista vê e ouve. Se ele sai de cena, não temos noção do cenário todo. É só reparar na fantástica sequência final, que só pode ter sido concebida por um diretor da velha escola, um gênio do cinema.

Além do notável talento para trabalhar o filme de gênero, Polanski sente-se livre para não se entregar aos finais felizes do cinemão hollywoodiano. Ele vê o mundo com olhos nada inocentes. Talvez por sua história de vida, provavelmente levada para dentro de O Escritor Fantasma. É só lembrar da cena em que Pierce Brosnan resolve viajar e é alertado por seus assessores sobre a possibilidade do país de destino ter um acordo de extradição com os EUA. É a vida imitando a arte. Ou o contrário. Que o diga Polanski. Ou o próprio Ghost Writer de seu filme.

O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010)
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Robert Harris e Roman Polanski
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Tom Wilkinson e Kim Cattrall

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