Crepúsculo dos Deuses: 60 Anos

“I am big. It’s the pictures that got small.” – Norma Desmond (Gloria Swanson)
Norma Desmond (Gloria Swanson) foi uma grande atriz da era do cinema mudo. Quando Hollywood quebrou a barreira do som e os filmes mudaram para sempre, ela foi esquecida pelos estúdios. Dirigido por Billy Wilder, Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) é o melhor filme da história sobre a era de ouro do cinema americano. Eu poderia dizer também que é o maior trabalho sobre quem faz Hollywood: atores, cineastas, roteiristas, produtores etc. Talvez seja o melhor filme de todos os tempos de Hollywood sobre Hollywood. Ou, melhor, sobre o cinema em geral.
Billy Wilder, uma unanimidade, fez de Crepúsculo dos Deuses sua maior obra-prima. Mas isso sou eu dizendo. É o diretor que viajou por diversos gêneros sem ser repetitivo, sempre contribuindo de forma qualitativa para a insdústria. Fazia dramas e comédias, sem perder a concentração ou o tom certo de um filme para outro. Assinou clássicos absolutos da comédia (Quanto Mais Quente Melhor , O Pecado Mora ao Lado), do drama (Crepúsculo dos Deuses) e até do suspense/noir (Pacto de Sangue). Se bem que Crepúsculo dos Deuses também é noir. Viu só como é difícil escolher? Bom, eu tenho meu Billy Wilder preferido. Qual é o seu? Não é uma tarefa fácil, depende do estado de espírito de cada um, afinal o próprio cineasta defendia que a melhor forma de se ver uma comédia é quando estamos tristes e a maneira ideal para se aproveitar um drama é quando estamos extremamente felizes.
Só um gênio para começar um filme com a narração em off de um cadáver, que é ninguém mais, ninguém menos que o “mocinho” da história, o roteirista frustrado Joe Gillis (William Holden), que jaz na piscina de uma mansão, invadida pela polícia. Mas por que? E como? Billy Wilder volta no tempo para mostrar como o sujeito foi parar ali. 49 anos depois, o diretor Sam Mendes utilizou o mesmo recurso para narrar a formidável trama de Beleza Americana. Porém, na abertura de Crepúsculo dos Deuses, Wilder antecipa alguns dos principais significados do filme, que é o sistema – feito para seres 100% racionais – engolindo, sem dó nem piedade, os sonhadores e românticos. Hollywood, como qualquer outro ramo profissional, não quer saber se um trabalhador rendeu ótimos frutos para uma empresa no passado. O que interessa para os chefões engravatados é manter o dinheiro circulando, de preferência com mão de obra nova e mais barata. No cinema, por exemplo, veja o tratamento que dão a nomes como Dustin Hoffman e Al Pacino. O próprio público tem culpa no cartório, afinal adora fazer piadas e pisar nos craques do passado, como se os ídolos tivessem prazo de validade. Depois não adianta reclamar de Hollywood, que dá o que nós queremos. No fundo, Crepúsculo dos Deuses é sobre esquecimento e ingratidão.
No caso do roteirista desempregado Joe Gillis, ele está fugindo de seus credores, pois não tem um centavo no bolso furado. O coitado vai parar na mansão da ex-estrela do cinema mudo Norma Desmond, que vive sozinha, com exceção da companhia do fiel mordomo Max Von Mayerling (interpretado pelo cineasta Erich Von Stroheim). Lá, ele aceita criar um roteiro que seja capaz de fazer Norma chamar a atenção dos estúdios, o que marcaria seu retorno às telas. Aos poucos, Joe vai entendendo a mente perturbada e perdida da atriz, que por sua vez não tem a menor consciência de seu lugar no mundo e, muito menos, da decadência de sua carreira. E da mudança do próprio sistema. Quando tenta escapar das garras de Norma Desmond, o pobre Joe descobre que está numa prisão física e emocional sem saída, tornando-se um novo Max Von Mayerling, antes um diretor do cinema mudo, que havia trabalhado com Norma em seu auge, agora um mordomo que há tempos aceitou sua condição somente para ficar ao lado de sua amada insana.

“You see, this is my life! It always will be! Nothing else! Just us, the cameras, and those wonderful people out there in the dark! All right, Mr. DeMille, I’m ready for my close-up.” – Norma Desmond (Gloria Swanson)
Curioso notar como Billy Wilder fez questão de aproximar seu filme da realidade – embora Norma Desmond sempre esteja com um ou dois pés no mundo das ilusões – ao escalar para o elenco Gloria Swanson e Erich Von Stroheim, atriz e diretor que viveram a época do cinema mudo (e trabalharam juntos). Em Crepúsculo dos Deuses, inclusive, Wilder cita nomes reais como Cecil B. De Mille, Alan Ladd e Darryl Zanuck. O próprio De Mille aparece no filme interpretando ele mesmo.
Para mim, este é o melhor roteiro já escrito para o cinema. Assinado por Charles Brackett, Billy Wilder e D.M. Marshman, Jr., Crepúsculo dos Deuses tem diálogos disparados como tiros de metralhadora. Não é somente isso, claro, afinal é uma história cheia de camadas misteriosas, embora eu privilegie temas como a decadência dos ídolos e a loucura de Hollywood, assim como comentei acima. E já que entramos nesse assunto, de certa forma, A Malvada, o segundo melhor roteiro de todos os tempos, completa Crepúsculo dos Deuses, e vice-versa. Mas diferente do clássico de Billy Wilder, o filmaço de Joseph L. Mankiewicz fala de teatro e acompanha uma novata tirando à força a glória de uma atriz veterana dos palcos. Não é culpa da indústria, mas de uma pessoa… malvada.
Os dois filmes concorreram ao Oscar principal, em 1951, com vitória de A Malvada. Gloria Swanson, entre o exagero, o caricato e a sutileza dramática estampada no olhar em alguns raros momentos de silêncio de sua personagem, concorreu ao Oscar de Melhor Atriz com Bette Davis, de A Malvada. As duas entregaram, provavelmente, as maiores atuações femininas da história. Mas perderam a estatueta dourada – vejam só – para Judy Garland, por Nascida Ontem, que sem dúvida é uma gracinha, porém jamais chega aos pés de Gloria e Bette em matéria de talento.
De fato é difícil escolher um favorito entre Crepúsculo dos Deuses e A Malvada, ou entre Gloria Swanson e Bette Davis, ou Norma Desmond e Margo, mas Billy Wilder certamente merecia o Oscar de Melhor Diretor, que foi parar nas mãos de Joseph L. Mankiewicz. Entre todas as cenas de Crepúsculo dos Deuses, destaco apenas uma, que justificaria a estatueta dourada: o final em que Norma Desmond, no auge de sua demência, desfila entre jornalistas e policiais praticamente estáticos, como se estivessem em câmera lenta, observando-a descer as escadas de sua mansão pronta para o close-up de um Cecil B. De Mille imaginário. É um momento mágico do cinema, talvez o melhor final de todos, que traduz, inclusive nas palavras desferidas por Norma, o que são os filmes. Para o bem ou para o mal.
Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder e D.M. Marshman, Jr.
Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough e Jack Webb
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Perfeito


Que filme formidável, Otávio. Uma grande menção. Abraço
JENNIS
Sim, um clássico que talvez seja unanimidade entre os cinéfilos. Abs!
Poxa, Otavio, esse maravilhoso texto foi uma crueldade comigo, hein?? Para mim, “Crepúsculo dos Deuses” é o melhor filme de todos os tempos! Uma obra maíuscula do cinema norte-americano.
Beijos!
Um filme que mesmo com todo esse tempo, nunca envelhece, mas também acaba ensinando muitas lições. Obra-prima.
Beijos!
KAMILA
Seu filme favorito? Bom saber
Não é o meu nº1, mas que faz parte da minha lista dos melhores, essenciais, ah, faz! E é o meu favorito do Billy Wilder! Bjs!
MAYARA
Verdade! Não envelhece mesmo! É eterno! E atual! Bjs!
Assisti c/ meu pai q/ adora os filmes dos velhos tempos hollywoodianos, e realmente é atemporal, uma obra-prima do cinema!
Sem comentários. Ainda estou a procura de um filme ruim do Sr. Billy Wilder. Acredito que não exista, mas se alguém tiver notícia de um, por favor, diga.
Vi este filme a pouco tempo, e me arrepia só de lembrar, é perfeição pura, dá vontade de gritar a cada diálogo entre Norma e Joe, é eletrizante, genial em cada virgula. Ninguém escreve como Billy. Não vejo a hora de ver novamente!
Essa semana verei Farrapo Humano, ainda não vi e estou muito ansioso, afinal, o sorriso após o filme é sempre garantido.
Adoro o Pacto de Sangue.
Ótimo texto novamento Otávio, Parabéns. Mas deixa o Shyamalan errar… ele trabalha muito e está pouco criativo, mas em breve ele voltará a fazer bons filmes.
Abração! e ah, você poderia fazer a crítica dos 50 anos de Psicose ou escrever algo sobre o Buñuel ou o Bergman não?
RAQUEL
De fato, uma obra-prima! E seu pai tem muito bom gosto! Bjs!
MAURÍLIO
Abs!
Muito obrigado pelas palavras! E já estou preparando um texto sobre os 50 anos de “Psicose”. E obrigado pelas dicas! Vou ver o que sai daqui, OK?
Tenho vontade ver há tempos, já comprei o DVD tem 1 mês mas cada o tempo pra ver? rsrsrsrsr
ROBSON
Pois veja esse filmaço logo. Faça esse favor a você mesmo, meu amigo!
Ah, tem pergunta pra você lá nos comentários do post sobre o melhor vencedor do Oscar dos últimos 10 anos.
Abs!
O Crepúsculo é uma obra-prima como o Cidadão Kane, de quem sou fã de carteirinha. Adoro cinema, e se for em branco e preto, mais ainda. ACarlos