agosto 20th, 2010

O final surpreendente de M. Night Shyamalan

Shyamalan

Confesse: Alguma vez na vida você já se referiu ao cineasta indiano M. Night Shyamalan com adjetivos efusivos como “gênio” ou ”criativo”. Talvez “surpreendente”. Alguns de vocês já o compararam a Kubrick, Spielberg e outros mestres. Você também deve ser daqueles que saiu da sessão de O Sexto Sentido achando que viu um dos filmes mais incríveis de todos os tempos. Ou talvez seja um daqueles que tem a coragem de admitir que seu filme seguinte com o amigo Bruce Willis – e menos visto que o anterior -, Corpo Fechado, é ainda melhor. Se hoje você torce a cara para M. Night Shyamalan, precisa confessar que ele te enganou direitinho no começo da carreira. E, agora, como em seus longas mais famosos, deu aos seus defensores um final surpreendente, que ameaça jogar praticamente 10 anos de sua filmografia no lixo. Tudo isso por causa de O Último Mestre do Ar, tido pela crítica americana como o pior filme do ano (ou um dos).

Vamos combinar uma coisa antes de malhar o cineasta: Ninguém faz um filme como O Sexto Sentido por acaso. É um trabalho minuciosamente calculado para arrebatar platéias diferentes do mundo inteiro. Desde o roteiro até seus últimos dias de filmagem e edição. Desde então, tanto o público quanto a crítica cobram de M. Night Shyamalan algo que agrade a gregos e troianos. E o que ele fez? Resolveu seguir sua intuição e satisfazer a si próprio, com o direito de fazer o filme que bem entendesse graças ao sucesso de O Sexto Sentido.

Shyamalan_The Sixth Sense

Haley Joel Osment, em "O Sexto Sentido"

Os estúdios não entenderam e promoveram seus filmes sempre com referências ao magistral longa sobre o menino que via pessoas mortas. O que aconteceu? O público caiu nessa e sobrou para o diretor. Shyamalan lançou Corpo Fechado e Sinais, que não ficam exatamente no território do cinema de horror, mas todos queriam um novo O Sexto Sentido. Sinais é muito mais um filme sobre fé que uma fantasia propriamente dita sobre invasão alienígena. O “problema” com Corpo Fechado é ainda maior, afinal veio logo depois de O Sexto Sentido. Segue fielmente a mitologia das histórias em quadrinhos para entregar o melhor filme já feito sobre super-heróis saído de um roteiro original. E daí se o público não queria ver isso?

Shyamalan continuou acreditando em sua intuição e fez A Vila, que diferentemente de seus filmes anteriores, depende (e muito) do já manjado final surpresa. Mas é um trabalho intrigante, elegante em sua condução da história – e da câmera – ao colocar o espectador em primeira pessoa para avaliar o medo como forma de controle.

Se você conhece a filmografia de Shyamalan, sabe que ele começa seus filmes de um jeito e, no fim, mostra que estava falando de outra coisa. O Sexto Sentido não foi assim. Mesmo com aquele final, ele continua sendo um filme de terror. Por isso, se eu fosse você, daria mais uma chance a Corpo Fechado, Sinais e A Vila.

Shyamalan_Signs

Mel Gibson, Abigail Breslin e Joaquin Phoenix, em "Sinais"

Porém, ficou muito difícil defender o cineasta após A Dama na Água, que é voltado demais para os gostos pessoais de seu realizador. De qualquer forma, trata-se de um filme agarrado ao mundo dos sonhos, sendo uma metáfora da máquina que é o cinemão americano. O problema para as grandes platéias, no entanto, parece estar na escolha do elenco, internacional até demais para os americanos, mas prometo voltar neste assunto na crítica de O Último Mestre do Ar.

Fim dos Tempos é, de fato, muito fraco. Para mim, o escorregão de Shyamalan, que já andava pressionado até o pescoço e por todos os lados. Fica difícil filmar assim. Mas Fim dos Tempos tem aspectos interessantes, pois homenageia os filmes B com uma rara elegância e choca em cenas fortíssimas de suicídio, porém muito bem filmadas. Só que essa foi a gota d’água para a paciência do público.

Ironicamente, agora que Shyamalan se arrisca no primeiro trabalho inspirado em roteiro adaptado, para se render de vez às produções comerciais, o que acontece? Ele é malhado como o próprio Judas. Desta vez, até mesmo por seus fiéis escudeiros, que o acusaram de ter se vendido à menina dos olhos da indústria: o 3-D.

Talvez os estúdios fechem as portas para o cineasta depois de O Último Mestre do Ar. Ou talvez ele comece a comer pelas beiradas, assinando alguns filmes de fácil apelo popular como produtor. É o caso de Demônio (veja o trailer aqui), que traz argumento de Shyamalan, e chega aos cinemas em 2011. Parece o caminho mais fácil para um recomeço, porque o diretor que fez O Sexto Sentido lá atrás, sendo elogiado até por você que está lendo este post, não merece ser abandonado neste momento tão difícil de sua carreira.

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