Relembrando o “Karatê Kid” original

Lembra quando os filmes se preocupavam mais com histórias nada óbvias que falavam sobre amizade, amadurecimento, a condição humana nas entrelinhas? E quando diretores viam nesse tipo de material uma chance perfeita para explorar o potencial edificante da trama facilmente identificada por qualquer espectador que tenha um coração? O diretor e os atores devem jogar a emoção para a plateia. Não um roteiro calculado para isso. Muito menos os engravatados dos estúdios. Karatê Kid – A Hora da Verdade (The Karate Kid, 1984) é um desses exemplos.
Penso que filmes que se agarram demais aos costumes e cacoetes de cada época fatalmente envelhecem em pouquíssimo tempo. Sabe como é? Pode acontecer com Crash, de Paul Haggis, por exemplo. Ou não. Mas não me refiro apenas ao tema e à época, falo do olhar de Hollywood para a situação que o país vive, assim como a sociedade e, reparando bem, até mesmo o jeito como a maioria dos filmes são rodados, fotografados e montados. Mas, 26 anos depois, é impressionante que isso não aconteça com filmes como Karatê Kid. No início, claro, a estranheza vem à tona com as roupas e os cabelos oitentistas demais. Incomoda, porém, em 15 ou 20 minutos, você esquece que Karatê Kid foi feito em 1984. E por que esquecemos? Pelo simples motivo que entramos de cabeça na história, coisa rara hoje em dia, que nem o 3-D é capaz.
Pouco importa a época, as músicas, as roupas e os cabelos quando estamos diante de uma trama tão forte sobre um jovem e um homem que preenchem as lacunas deixadas respectivamente por suas experiências fracassadas com pai e filho. Sim, Karatê Kid é sobre a honra, um clássico do bullying, Daniel Larusso (Ralph Macchio) apanha de todas as maneiras possíveis, cai de cara na areia e é arrancado de sua fantasia ridícula de chuveiro para ser massacrado pelos garotos idiotas da escola. Encontra inesperadamente no zelador de seu novo condomínio, o Sr. Miyagi (Noriyuki ‘Pat’ Morita), um mestre do karatê, um verdadeiro jedi, que irá treiná-lo nesta arte que ele diz “saber para não precisar lutar”. Mas Daniel San, como passa a ser chamado por Miyagi, quer dar o troco nos garotos. Miyagi, no entanto, pede para que a revanche aconteça em poucos meses num torneio de karatê. Você conhece a história.

“Daniel San, karatê AQUI (bate na cabeça). Karatê AQUI (bate no coração). Karatê NUNCA aqui (aponta para o cinto).” – Sr. Miyagi
Mas Karatê Kid não é sobre a consagração de Daniel San na porrada. É, acima de tudo, sobre o vazio que Miyagi sente devido à perda do filho, vendo em Daniel uma segunda chance. E o mesmo para o rapaz, que tem no velhinho a figura do pai, que jamais é mencionado no primeiro filme da série. É o que deixa Karatê Kid eterno. Não é o único filme na face da Terra a falar disso, mas certamente o torna especial por não ser evidente na exibição desses valores.
Aliás, lembra o que eu disse ali em cima sobre o filme envelhecer? Bom, no final, até que Karatê Kid admite sua idade avançada. Miyagi não quer que Daniel use o karatê para arrumar brigas e fazer propaganda da violência. Perder ou ganhar, não importa. Miyagi leva o conceito de paz interior e toda a beleza da mentalidade oriental para o projeto de americano chamado Daniel Larusso. Mas, no fim, não adianta. O público, em plena Era Ronald Reagan, queria ver o mocinho se vingando de seus algozes, não deixando barato, chutando-lhe o traseiro e saindo com o troféu. Mas penso o seguinte: Nos minutos finais de Karatê Kid, Miyagi aceita o pedido de Daniel, apesar de ter ensinado a ele a verdadeira natureza da arte marcial, porque o encara como um filho, deixando-o (o “pai”) de coração mole. Mesmo que o garoto pense errado, para o Sr. Miyagi, ele está no caminho certo e, um dia, vai aprender. Por isso, o filme termina com a imagem congelada do sorriso de Miyagi, observando ao fundo toda a euforia exagerada dos americanos.
A atuação carismática e emocionante de Pat Morita lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante – perdeu a estatueta para Haing S. Ngor, de Os Gritos do Silêncio. Ralph Macchio, que antes de Karatê Kid havia sido um dos “meninos de ouro” de Francis Ford Coppola em Vidas Sem Rumo, desapareceu do cenário hollywoodiano. Mas neste filme, ele foi a escolha perfeita para viver o eterno Daniel San. Magro, com jeito de menino frágil, Daniel ganha aos poucos a força interior que Miyagi lhe ensina. É só reparar em seu olhar na famosa cena em que desfere o golpe fatal que decide a luta no clímax do filme.
O diretor John G. Avildsen não está entre os grandes do cinema. Mas em seu currículo, tem Rocky – Um Lutador, que lhe deu o Oscar de Melhor Diretor, e Karatê Kid. Muita gente gosta também de seu O Poder de um Jovem, filme de 1992 com Stephen Dorff e Morgan Freeman, que tem muito de seus dois maiores sucessos.
Curioso notar que Rocky I termina com a valorização do amor, dos conceitos básicos que realmente valem a pena na vida. Mas na cabeça de Avildsen, Rocky I é sério. Já Karatê Kid é voltado para os jovens, então seu herói precisava estimular o público, saindo vitorioso. E, detalhe, Rocky não se passava na Era Reagan, porque, anos depois, até Sylvester Stallone, protagonista e autor do roteiro, rendeu-se ao espírito americano da época, criando um símbolo: Rambo.
Esqueça Karatê Kid II e III, também de John G. Avildsen, novamente com Ralph Macchio e Pat Morita . Fique com o original, até porque o final do filme diz tudo: Miyagi ensinou o que Daniel precisava saber para encarar a vida de frente. Com o ciclo fechado, as continuações rodam, rodam e caem no mesmo lugar. O que dizer então de um remake?
Karatê Kid – A Hora da Verdade (The Karate Kid, 1984)
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Ralph Macchio, Noriyuki ‘Pat’ Morita, Elisabeth Shue, Martin Kove, Randee Heller e William Zabka
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Perfeito


É amigo, parece que perdemos a cada dia a essencia dos valores simples e sempre vamos a buscar algo rebuscado ou complicado. Mas são obras como essa, com mensagens simples (mas bem executadas claro) que ficam em nossas cabeças.
Sem dúvida um questionamento a se fazer sobre o remake? De qual é a necessidade de uma releitura? Por que temas ótimos, sempre serão eternos … mesmo com as piores roupas do mundo … ehehehe
JOÃO PAULO
Ah, mas as roupas eram legais. Hehe… Abs!
5 estrelas ou não?
Belíssimo texto! Voltei no tempo agora hahaha. Eu imitei durante muito tempo a cena do Sr. Miyagi esfregando as mãos para recuperar Daniel San no torneio. Parabéns. Abração.
Gosto muito desse filme. Apesar dos apesares, o remake, com Jackie Chan no papel de “Sr. Myiagi” é muito digno.
Rapaz,você me fez lembrar da minha infancia.Não estou emocionado mas um pouco pensativo.Esse era o filme da sessão da tarde que eu mais vi(tirando Esqueceram de Mim né,que foi reprisado milhões de vezes).Gostei do seu texto e principalmente a comparação com Rocky que é do mesmo diretor,só que Rocky era “sério” e Karate Kid voltado para os jovens.Engraçado né Otávio,a critica as vezes tem um conceito de filme bom.Ele tem que ser bem fotografado,ter um roteiro impecável,belas atuações,direção precisa e etc.Só que muitas vezes ela não procura entender o porque de determinados filmes fazerem sucesso com o público e outros não.Melhor dizendo,ela não pensa o porque de milhões de pessoas vão ao cinema ver um filme,é porque alguma coisa boa ele tem né?E os filmes de arte muitas vezes não interagem com o público,como os blockbusters que tem aos montes por aí.Sou um fã de cinema de arte,entendo que o cinema é uma forma de discussão sobre diversos temas e uma forma de registrar um momento da sociedade.Por exemplo acho Encontros e Desencontros da Sofia Coppola melhor que O Senhor dos Anéis:Os fãs da obra de Peter Jackson não precisa dos meus elogios para o filme ter sido um sucesso,mas o filme da Coppolinha fala direto aos meus sentimentos e me faz refletir e o de Jackson não.O que eu tô querendo dizer com tudo isso é que o filme tem que representar alguma coisa pra quem vê.E esse é o caso de Karatê Kid.Quer ver um exemplo perfeito.Menina de Ouro de Clint Eastwood é idolatrado pela critica(confesso que sou um dos fãs do filme),mas ele tem um enredo parecido com Karate Kid,dúvida?veja só:
Menina de Ouro:Frank(Clint Eastwood) é um treinador de boxe que reluta em treinar Maggie(Hilary Swank)e que vê nela a sua filha com quem ele perdeu contato.A história prosegue com Frank tentando buscar a redenção através de Maggie.
Karate Kid:Sr.Miyagi(Pet Morita)treina Daniel San(Ralph Machio) ele é um pai que perdeu um filho e vê no jovem pupilo uma forma de redenção.
Os 2 são filmaços que falam de redenção pessoal de Frank(Clint Eastwood)e Sr.Miyagi(Pet Morita).Só que os criticos consideram Menina de Ouro um filme sério e Karate Kid não.Só que ambos os filme tem algo em comum:conseguiram se comunicar com a platéia.
Belo texto,abraço
*Notei uma coincidencia,no texto você faz menção a Paul Haggis e seu Crash-No Limite(realmente esse filme esta envelecendo muito mal).E o escritor de Menina de Ouro é…Paul Haggis.
Adorei o texto e concordo que a obra não precisava de remake. Acho mesmo que ela conserva aquela sua aura especial. Foi um filme que marcou minha infância e a de tanta gente por aí.
Beijos!
Tão bom que vejo o remake como algo totalmente desnecessário – tanto que não o verei.
Muito bom o texto.
Eu vi o remake, ele não é ruim, mas padece da ausência de necessidade. O original, apesar dos citados aspectos datados, é um clássico. Um filme excelente! Nota 10!
Agora, interessante notar a mudança de nacionalidade empreendida nos dois longas. Nos anos 80, a força econômica ascendente era o Japão. Aí tivemos um personagem japonês e uma arte marcial japonesa. Agora, a grande força econômica é a China.E então temos um mestre chinês e uma arte marcial chinesa (kung-fu). Hollywood é sempre hollywood…
Esse filme é um dos grandes clássicos juvenis dos anos 80. Não falei q/ teve boas produções nessa década?Eu e minha irmã(que saudades dela!) até entramos nas aulas da referida arte marcial, q/ se tornou moda entre crianças e adolescentes nesse período e olha q/ éramos só nós duas e mais uma menina amiga nossa de garotas nas aulas.
Assistimos ao 2º episódio no cinema, mas realmente não teve a mesma emoção e mensagem do 1º. Agora, com esse texto, Otávio, me recordo, em lágrimas do filme, das aulas de Karatê e de minha irmã saudosa, q/ continuou treinando até a adolescência dela a luta q/ ela amava,ah, saudades é claro de Daniel San e sr.Miyagi, q/ são insubstituíveis por mais repetitiva q/ seja a mensagem do filme.
Abçs emocionados, Otávio e obrigada por esse momento c/ esse artigo!
DENIS
Não, cinco estrelas não. Hehe… Abs!
CASSIO
Hahahha… Valeu, cara! Legal ver você por aqui. Abs!
JENISS
É, como você disse, apesar dos pesares. Abs!
PAULO RICARDO
Muito obrigado pelas palavras! E você tem razão. Os melhores filmes são aqueles que nos acertam em cheio. E muito coerente sua ligação entre “Menina de Ouro” e “Karatê Kid”. Abs!
KAMILA
Bjs!
Muito obrigado! Inclusive a minha infância, claro.
VINICIUS
Pois é, mas eu vou ver. Fazer o quê, né? Mesmo com os dois pés atrás. Abs!
FÁBIO HENRIQUE
Muito bom seu comentário sobre a mudança do cenário mundial. Concordo! E obrigado pelas palavras! Abs!
RAQUEL
Puxa, não tenho palavras para te responder. Acabei ficando emocionado também com suas palavras! Enfim, Deus abençoe “Karatê Kid”! Deus abençoe o cinema! E Deus abençoe sua irmã! Beijos!
Só mesmo é do original! Acho que é bem por aí Otávio. Esse remake com o Jackie Chan ficou muito feio!!!
Valeu, Pedro! Abs!
Sem levar em contato lado econõmico dos orientais ,é até um pecado linkar o ” Karate Kid” original ,onde o mestre personagem tinha o nome de um verdadeiro mestre fundador de um estilo de Karate , com este “remake”? onde os protagonistas lutam Kung FU ,lamentável.