agosto 27th, 2010

Relembrando o “Karatê Kid” original

Daniel San e o Sr Miyagi
Lembra quando os filmes se preocupavam mais com histórias nada óbvias que falavam sobre amizade, amadurecimento, a condição humana nas entrelinhas? E quando diretores viam nesse tipo de material uma chance perfeita para explorar o potencial edificante da trama facilmente identificada por qualquer espectador que tenha um coração? O diretor e os atores devem jogar a emoção para a plateia. Não um roteiro calculado para isso. Muito menos os engravatados dos estúdios. Karatê Kid – A Hora da Verdade (The Karate Kid, 1984) é um desses exemplos.

Penso que filmes que se agarram demais aos costumes e cacoetes de cada época fatalmente envelhecem em pouquíssimo tempo. Sabe como é? Pode acontecer com Crash, de Paul Haggis, por exemplo. Ou não. Mas não me refiro apenas ao tema e à época, falo do olhar de Hollywood para a situação que o país vive, assim como a sociedade e, reparando bem, até mesmo o jeito como a maioria dos filmes são rodados, fotografados e montados. Mas, 26 anos depois,  é impressionante que isso não aconteça com filmes como Karatê Kid. No início, claro, a estranheza vem à tona com as roupas e os cabelos oitentistas demais. Incomoda, porém, em 15 ou 20 minutos, você esquece que Karatê Kid foi feito em 1984. E por que esquecemos? Pelo simples motivo que entramos de cabeça na história, coisa rara hoje em dia, que nem o 3-D é capaz.

Pouco importa a época, as músicas, as roupas e os cabelos quando estamos diante de uma trama tão forte sobre um jovem e um homem que preenchem as lacunas deixadas respectivamente por suas experiências fracassadas com pai e filho. Sim, Karatê Kid é sobre a honra, um clássico do bullying, Daniel Larusso (Ralph Macchio) apanha de todas as maneiras possíveis, cai de cara na areia e é arrancado de sua fantasia ridícula de chuveiro para ser massacrado pelos garotos idiotas da escola. Encontra inesperadamente no zelador de seu novo condomínio, o Sr. Miyagi (Noriyuki ‘Pat’ Morita), um mestre do karatê, um verdadeiro jedi, que irá treiná-lo nesta arte que ele diz “saber para não precisar lutar”. Mas Daniel San, como passa a ser chamado por Miyagi, quer dar o troco nos garotos. Miyagi, no entanto, pede para que a revanche aconteça em poucos meses num torneio de karatê. Você conhece a história.

Daniel San_
“Daniel S
an, karatê AQUI (bate na cabeça). Karatê AQUI (bate no coração). Karatê NUNCA aqui (aponta para o cinto).” – Sr. Miyagi

Mas Karatê Kid não é sobre a consagração de Daniel San na porrada. É, acima de tudo, sobre o vazio que Miyagi sente devido à perda do filho, vendo em Daniel uma segunda chance. E o mesmo para o rapaz, que tem no velhinho a figura do pai, que jamais é mencionado no primeiro filme da série. É o que deixa Karatê Kid eterno. Não é o único filme na face da Terra a falar disso, mas certamente o torna especial por não ser evidente na exibição desses valores.

Aliás, lembra o que eu disse ali em cima sobre o filme envelhecer? Bom, no final, até que Karatê Kid admite sua idade avançada. Miyagi não quer que Daniel use o karatê para arrumar brigas e fazer propaganda da violência. Perder ou ganhar, não importa. Miyagi leva o conceito de paz interior e toda a beleza da mentalidade oriental para o projeto de americano chamado Daniel Larusso. Mas, no fim, não adianta. O público, em plena Era Ronald Reagan, queria ver o mocinho se vingando de seus algozes, não deixando barato, chutando-lhe o traseiro e saindo com o troféu. Mas penso o seguinte: Nos minutos finais de Karatê Kid, Miyagi aceita o pedido de Daniel, apesar de ter ensinado a ele a verdadeira natureza da arte marcial, porque o encara como um filho, deixando-o (o “pai”) de coração mole. Mesmo que o garoto pense errado, para o Sr. Miyagi, ele está no caminho certo e, um dia, vai aprender. Por isso, o filme termina com a imagem congelada do sorriso de Miyagi, observando ao fundo toda a euforia exagerada dos americanos.

A atuação carismática e emocionante de Pat Morita lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante – perdeu a estatueta para Haing S. Ngor, de Os Gritos do Silêncio. Ralph Macchio, que antes de Karatê Kid havia sido um dos “meninos de ouro” de Francis Ford Coppola em Vidas Sem Rumo, desapareceu do cenário hollywoodiano. Mas neste filme, ele foi a escolha perfeita para viver o eterno Daniel San. Magro, com jeito de menino frágil, Daniel ganha aos poucos a força interior que Miyagi lhe ensina. É só reparar em seu olhar na famosa cena em que desfere o golpe fatal que decide a luta no clímax do filme.

O diretor John G. Avildsen não está entre os grandes do cinema. Mas em seu currículo, tem Rocky – Um Lutador, que lhe deu o Oscar de Melhor Diretor, e Karatê Kid. Muita gente gosta também de seu O Poder de um Jovem, filme de 1992 com Stephen Dorff e Morgan Freeman, que tem muito de seus dois maiores sucessos.

Curioso notar que Rocky I termina com a valorização do amor, dos conceitos básicos que realmente valem a pena na vida. Mas na cabeça de Avildsen, Rocky I é sério. Já Karatê Kid é voltado para os jovens, então seu herói precisava estimular o público, saindo vitorioso. E, detalhe, Rocky não se passava na Era Reagan, porque, anos depois, até Sylvester Stallone, protagonista e autor do roteiro, rendeu-se ao espírito americano da época, criando um símbolo: Rambo.

Esqueça Karatê Kid II e III, também de John G. Avildsen, novamente com Ralph Macchio e Pat Morita . Fique com o original, até porque o final do filme diz tudo: Miyagi ensinou o que Daniel precisava saber para encarar a vida de frente. Com o ciclo fechado, as continuações rodam, rodam e caem no mesmo lugar. O que dizer então de um remake?

Karatê Kid – A Hora da Verdade (The Karate Kid, 1984)
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Ralph Macchio, Noriyuki ‘Pat’ Morita, Elisabeth Shue, Martin Kove, Randee Heller e  William Zabka

 

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