setembro 4th, 2010

A banalização do 3D

Toy Story 3
No fim de agosto, Toy Story 3 se tornou a animação de maior bilheteria da história. Mais: Atingiu a marca de US$ 1 bilhão arrecadados em cinemas de todo o mundo. Agora, o longa de maior sucesso da Pixar entra para o G7 também formado por Batman – O Cavaleiro das Trevas, Piratas do Caribe – O Baú da Morte, O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, Titanic, Alice no País das Maravilhas e Avatar. Este último, porém, é o único a ter ultrapassado a barreira dos US$ 2 bilhões.

A discussão não é se Toy Story 3 merece ou não, até porque todo mundo com uma ótima saúde concorda comigo que o filme tem lugar garantido nessa lista com méritos de sobra. Na verdade, acho que já está mais do que na hora de questionarmos o 3D no cinema. Essa deve ser a discussão.

Pense um pouco: Em 1997, Titanic chegou ao topo das bilheterias sem o auxílio do 3D. Antes e (pouco) depois do filme de James Cameron, a tecnologia era mal empregada e servia apenas para jogar ou apontar objetos na plateia, como em A Hora do Pesadelo VI – Pesadelo Final: A Morte de Freddy, As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl e Pequenos Espiões. Ok, a gente adorava balançar a cabeça, dizer “OOOOOooo…” e esticar o braço para tentar tocar as coisas que saiam da tela. Mas hoje sabemos que isso era um lixo, concorda?

Seis anos depois de Titanic, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei ultrapassou a antes rara marca de US$ 1 bilhão a duras penas e, mesmo assim, após dois filmes da série (A Sociedade do Anel e As Duas Torres) conquistarem e prepararem o público para o capítulo final da trilogia dirigida por Peter Jackson. Três anos mais tarde, o segundo filme da série Piratas do Caribe (O Baú da Morte) repetiu a façanha. Um par de anos depois, foi a vez de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Ou seja, todos os filmes que chegaram perto de Titanic, passando de US$ 1 bilhão nas bilheterias, foram sequências de franquias já consagradas. E, repito, sem a ajuda do 3D.

Ainda tem esse agravante: os ingressos para os filmes em 3D são bem mais caros. Foi quando veio Avatar, também de James Cameron, que bateu Titanic. Veja bem, Avatar estreou em dezembro de 2009. Poucos meses depois, já em abril de 2010, Alice no País das Maravilhas, claro que em 3D, começou sua carreira de sucesso, rompendo facilmente a faixa de US$ 1 bilhão. Em junho, Toy Story 3 estreou e em pouco mais de dois meses ultrapassou a mesma marca. Fácil, não? Quer dizer então que de dezembro a agosto, tivemos simplesmente três filmes chegando à Casa da Mãe Joana chamada US$ 1 bilhão? Sem falar que Avatar, Toy Story 3 e Alice no País das Maravilhas também foram exibidos em IMAX, que também cobra um ingressinho bem caro. Ora, seria mais certo fazer um ranking à parte para ordenar as maiores bilheterias de todos os tempos em 3D.  Ou em IMAX e 3D. É como comentar a respeito dos recordes da natação antes e depois do super maiô de Michael Phelps, não acha?

Ok, o 3D foi bom para a indústria. Mas, do ponto de vista qualitativo, será que todo filme precisa desta tecnologia? Será que é realmente necessário perceber em todo e qualquer tipo de filme a bendita ilusão de profundidade? No caso de Avatar, James Cameron pensou adiante e explorou espaço de sobra na tela, destacando personagens e situações que estivessem atuando e acontecendo em qualquer plano. Em algumas cenas, por exemplo, a sensação de vertigem foi inevitável. Depois de Avatar, chegamos a cogitar o 3D  estereoscópico como algo além da urgência de seduzir o público, que estava abandonando as salas de cinema ano após ano, graças ao conforto de suas casas, à ausência de gente sem educação fazendo barulho ou checando o celular durante o filme, e muito mais ao DVD, ao Blu-Ray, à TV por assinatura e aos produtos piratas. Fato: O público voltou aos cinemas. O 3D, por enquanto, veio para ficar.

“Por enquanto” porque nada é definitivo em Hollywood. O 3D funciona como qualquer tendência na indústria. Até agora, está dando certo. Lembra quando M. Night Shyamalan acertou a mão com o final surpreendente de O Sexto Sentido? Pois é. Hollywood então produziu dezenas de filmes de terror com reviravoltas no fim. Depois de Harry Potter e a Pedra Filosofal e O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, que estrearam em 2001, Hollywood abriu os cofres para a produção de vários filmes de fantasia. Os estúdios só param quando chega um fracasso retumbante do gênero aos cinemas. Sempre foi assim. Exploram uma fórmula até a última ponta. Quando sobra só o bagaço, eles jogam fora e partem para outra. Basta estrear uma espécie de Waterworld 3D que essa brincadeira acaba. Ou dá um tempo. Pode anotar.

Sério, vocês já tiraram e colocaram os óculos 3D durante as sessões de Fúria de Titãs e O Último Mestre do Ar? Não muda quase nada. Estamos sendo enganados com essa história de conversões de 2D para 3D só por causa do sucesso de Avatar. Pagamos mais caro pra quê? Se não me engano, acho que o 3D visto em Avatar só encontra qualidade semelhante em Toy Story 3, Como Treinar o Seu Dragão e Meu Malvado Favorito. No trailer da animação A Lenda dos Guardiões, por exemplo, dá pra ver que a tecnologia é a mesma. Mas e quanto ao resto?

Algo me diz que estamos sendo enganados. Ou será que não? Se Martin Scorsese está filmando seu A Invenção de Hugo Cabret em 3D, acho mais fácil ele estar certo do que eu, afinal o cara é um gênio. Sendo assim, esse post seria apenas parte da tendência seguida por aqueles chatos que só criticam Hollywood. Uma tendência que um dia vai virar a página e cair em outra. E outra. E outra…

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