setembro 8th, 2010

Um Homem Sério

A Serious Man

Os irmãos Joel e Ethan Coen abrem Um Homem Sério (A Serious Man, 2009) com um pequeno conto judaico que aparentemente não tem conexão alguma com o filme que você vai ver sobre o professor de física Larry Gopnik (Michael Stulhbarg). O protagonista vê sua vida desmoronar sem nenhuma explicação racional, porém acha que “tudo é matemática”. Ele não reage, mas tenta compreender a situação. A resposta, claro, nunca vem, afinal assim é a vida, não? Todos nós gostamos de reclamar das coisas ruins que acontecessem em nosso dia a dia, como se fosse perseguição divina. É verdade, no entanto, que Larry Gopnik talvez seja muito mais azarado do que eu ou você.

Em certo momento do filme, ele consulta um rabino que lhe conta uma história absurda e a interrompe antes da conclusão. Ansioso, Gopnik pergunta: “E o que aconteceu?”, exigindo que o rabino continue e entregue o final da história. O narrador responde: “Quem se importa?” Bom, isso é Um Homem Sério. Mas os Coen avisaram (ou insinuaram) na abertura do filme: Gopnik foi amaldiçoado. Assim como toda a sua linhagem. E seu filho, às vésperas de seu Bar Mithzva, provavelmente será o próximo. É só reparar nas primeiras cenas, que apontam causas e consequências ao entrelaçar as situações de pai e filho.

Mas você, como eu, também pode ver o filme assim: Gopnik e sua família procuram pêlo em ovo. Se preocupam com qualquer probleminha e discutem por causa de tudo e todos. No fim do filme, quando a “tempestade” chega, aí sim eles descobrirão o que é um problema de verdade. É assim na vida real.

É o jeito dos Coen darem uma lição de moral àqueles que se estressam com qualquer coisa, quando deveriam sentar e relaxar, como a bela e sedutora vizinha de Larry Gopnik, a Sra. Samsky (Amy Landecker), ou Sy Ableman (Fred Melamed, extraordinário), o homem que rouba sua esposa e tem a cara de pau de explicar o inexplicável com a política do “Calma, não é bem assim…”

Só acho que os Coen deveriam ter trocado Somebody to Love pela alucinógena White Rabbit, como a música do Jefferson Airplane, que age no filme como um personagem chave para decifrar os enigmas propostos ao protagonista.

Além da inteligência evidente dos Coen, vista em cada frame do filme, Um Homem Sério funciona por causa da atuação inusitada de Michael Stuhlbarg, sensacional como Larry Gopnik. Curiosamente, ele não encara seu pesadelo real como um típico loser, mas como um homem tentando descobrir respostas para os problemas que acontecem em sua vida, mantendo as esperanças até o fim. Se Stuhlbarg parece caricato demais, isso é um desejo dos Coen, apostando numa opção que combina com mais um filme extremamente irônico da dupla.

Ironia é o que há no cinema dos Irmãos Coen. O humor refinado brota quando o drama pede passagem. Enxergamos ironia quando deveria existir somente tristeza. E podemos ver isso no visual de seus filmes. Mais do que demonstrar domínio estético, os cineastas se preocupam em construir uma visão de mundo baseada em suas próprias experiências – Minnesota, onde se passa o filme, marcou a infância dos Coen, assim como a figura do rabino que aconselha o filho de Gopnik no final.

Agora, Um Homem Sério não é para os cinéfilos que desconhecem a filmografia de Joel e Ethan Coen. Se você conhece o cinema deles, então não tenha medo. Entre e sinta-se a vontade. Aposto, inclusive, que este jamais teria sido o primeiro filme da dupla. É só uma impressão, claro, porque Um Homem Sério só poderia ter saído depois de uma grande bagagem, que inclui obras-primas como Barton Fink e Fargo.

Um Homem Sério (A Serious Man, 2009)
Direção e roteiro: Joel Coen & Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Aaron Wolff, Fred Melamed, Sari Lennick, Jessica McManus, Peter Breitmayer, Amy Landecker, David Kang e Adam Arkin

Obs: Demorei a escrever sobre o filme, que está disponível em DVD desde maio. Peço desculpas, mas… antes tarde do que nunca.

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