setembro 15th, 2010

Karatê Kid

Kung Fu Kid_
Karatê Kid, clássico moderno de 1984 dirigido por John G. Avildsen, não merecia um remake. Mas era questão de tempo. Penso, no entanto, que os profissionais de Hollywood envolvidos com essas “atualizações”, que não param de chegar aos cinemas, assistiram aos originais há muito tempo, talvez quando ainda eram jovens demais para entender os reais valores desses filmes nas entrelinhas. O problema é que o fã que paga para vibrar com um remake de Karatê Kid (The Karate Kid, 2010) provavelmente viu o filme de 1984 dezenas de vezes e não está nem aí para a faixa de público que vai ao cinema para falar alto, conversar e acender a luzinha do celular de cinco em cinco minutos. Mas é com esse público sem educação que Hollywood se preocupa. Queira ou não, esses playboys sustentam a indústria. E apostar no remake de um filme consagrado significa dinheiro garantido nas bilheterias.

O novo Karatê Kid seria até um filme aceitável se existisse sozinho, mas nunca viraria um clássico. Só que a realidade é outra: Sempre será comparado com o longa estrelado por Ralph Macchio e Pat Morita, que marcou época. E qual é a grande diferença entre os dois filmes? Eu diria “paixão pela história”. Tudo bem, os realizadores são fãs do original. Mas esse filme não tem alma, o sangue que corre nas veias não ferve.

O Karatê Kid antigo pode ter cara e cheiro de mofo, mas tem seu charme conservado até hoje. Lógico que todos os envolvidos queriam ganhar dinheiro, mas a máquina se preocupava com histórias sobre seres humanos, valores básicos, com a paciência necessária para se desenvolver uma trama durante duas horas, sem diálogos explicativos demais. O novo longa estrelado por Jaden Smith e Jackie Chan se preocupa com os fãs de Justin Bieber e não quer deixar dúvida a respeito da relação entre mestre e aprendiz, que sempre foi de pai e filho no Karatê Kid original. Só cego não viu. No novo filme, Jaden coloca pra fora expressões como “Eu te amo, Sr. Han!”, enquanto Jackie Chan desabafa em certa hora para o menino algo como “Aprendi muito com você e agora eu sei que devo fazer assim e assado.” É tudo muito óbvio, você entendeu.

Kung Fu Kid
Hollywood pensa que sou burro, eu sei disso. Mas chamar um filme de Karatê Kid quando o que acontece na tela é Kung Fu, desculpe-me, mas aí também é me dizer na cara que sou uma anta. Liberdade de expressão my ass! Vira ofensa, sério. É como fazer um remake de Cantando na Chuva, seguir praticamente o mesmo roteiro do clássico de Gene Kelly e Stanley Donen, acrescentar algumas cenas para deixar a duração com mais de duas horas – o que virou moda há muito tempo – e filmar a famosa sequência com o protagonista dançando Singin’ in the Rain numa praia ensolarada de Porto de Galinhas no lugar de uma rua castigada pela chuva. Sério, isso é como me chamar de “burro” na cara dura e ainda sair andando com uns trocados do meu rico dinheirinho no bolso.

O diretor Harald Zwart não é John G. Avildsen, que não é um Deus, mas segue sua filosofia Rocky Balboa. Quero dizer que o cara sempre teve um plano em mente. Zwart é um operário padrão da indústria, assina O Agente Teen, A Pantera Cor-de-Rosa 2 e o que colocam em sua mesa. Talvez porque filme bem, saiba aproveitar as paisagens e acrescentar música de pianinho triste nas cenas que exigem lágrimas nos olhos. Zwart, como quase todos os cineastas de aluguel, sabe como rodar a câmera em volta do terraço dos prédios e do alto das montanhas para acompanhar os protagonistas treinando, com muita música de fundo, aquele clichê todo que você conhece. Nessas horas, inclusive, achei que o Kung Fu Panda ia aparecer, mas infelizmente não tive o prazer de sua visita.

Se você conhece o filme original, sabe que no final haverá um torneio de Karatê. Opa, desculpa, eu quis dizer “Kung Fu”. Compare os dois filmes neste ponto e repare como o drama é muito mais valorizado no longa de 1984. No remake, o que vale é a montagem acelerada, o ritmo de videoclipe. Fica também difícil de acreditar em Jackie Chan como o mestre do Kung Fu que treina o filho de Will Smith. Chan, digamos, está ótimo no filme. Talvez seja a sua melhor atuação, mas o ator tem uma bagagem muito grande de caretas e gracinhas em filmes bobos de ação. Jackie Chan é um personagem. Será muito mais lembrado por sua contribuição em A Hora do Rush, por exemplo. Diferente de Pat Morita, que após Karatê Kid, entrou para a eternidade. Não tem jeito, ele será lembrado pela figura do Sr. Miyagi. Pelo menos tiveram a decência de trocar os nomes dos protagonistas – nada de Daniel San e Sr. Miyagi aqui. Agora, pense um pouco: Antigo ou novo, qual Karatê Kid você deixará para o seu filho?

E só pra ficar claro: KUNG FU NÃO É KARATÊ! E VICE-VERSA!

Karatê Kid (The Karate Kid, 2010)
Direção: Harald Zwart
Roteiro: Christopher Murphey
Elenco: Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson, Han Wenwen, Rongguang Yu, Zhensu Wu, Zhiheng Wang e Zhenwei Wang

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