outubro 26th, 2010

Boardwalk Empire e a morte do cinema americano

Nucky Thompson
Encontro-me deslumbrado, de queixo caído, totalmente envolvido pela série Boardwalk Empire, criada por Terence Winter (Família Soprano), que ganha ainda mais notoriedade pelos nomes que assinam a produção: o cineasta Martin Scorsese e o ator mais odiado de todos os tempos, de acordo com os leitores do Hollywoodiano, o Sr. Mark Wahlberg. Mas, ao mesmo tempo, sinto-me deprimido com a qualidade do texto, o cuidado com os cenários, figurinos e a fotografia.

Por quê? Ora, enquanto o cinema aposta em remakes não só de clássicos, mas também de filmes que estrearam ontem, como Deixe Ela Entrar, a TV caminha a passos largos para assassinar a sétima arte. Ou melhor, para ajudar a enterrá-la, afinal o cinema está se matando sozinho e a culpa não é da televisão. Dizem que as mídias não concorrem entre elas. Eu penso diferente. Ou você perderia o final de Lost ou qualquer episódio de Mad Men para ir ao cinema ver o remake grotesco de Fúria de Titãs? Qual comédia lançada este ano nos cinemas é superior a um episódio de 30 Rock e Modern Family?

Veja também o caso dos filmes feitos para a TV, vistos com preconceito antes da revolução da HBO, que também nos deu minisséries impecáveis como Band of Brothers e The Pacific. Mas o que diferencia a TV do cinema – e não é de hoje? Alguns pontos merecem ser destacados: 1) Linguagem narrativa eficiente (e isso não quer dizer somente “roteiro”,  jovens), inspirada no cinemão clássico, mas com um olhar atento para o futuro, sem pressa de renovação, com um cuidado extremo para a transição entre o velho e o novo.  2) Uma atenção toda especial para o elenco, que brilha de maneira uniforme, com um ator precisando do outro, sem um astro carregando a série sozinha nas costas. Hugh Laurie, Kiefer Sutherland e Bryan Cranston podem ser os nomes principais de House, 24 e Breaking Bad, mas precisam do elenco de apoio, numa colaboração de ação e reação entre todas as partes. 3) A liberdade criativa que não existe no cinema – a não ser que o diretor em questão seja Steven Spielberg, James Cameron, George Lucas e, talvez, Peter Jackson ou Christopher Nolan. E, claro, Kathryn Bigelow. Pelo menos até seu próximo filme, como acontece com todos os últimos vencedores do Oscar.

O cinema sofre de ansiedade. Quer resultado de uma hora para outra. Na TV, não é assim. É o novo palco do bom cinema americano. Diretores como Barry Levinson, vencedor do Oscar, por Rain Man, há tempos não tem um grande projeto para a tela grande. Mas ganha elogios e indicações a prêmios por You Don’t Know Jack, feito para a TV, que rendeu a Al Pacino o Emmy de Melhor Ator. Aliás, Pacino não ganha papéis interessantes desde O Informante, de 1999. Totalmente esquecido. Na TV, ele é tratado como ídolo, como o rei que é.

Boardwalk Empire é mais um acerto da HBO. Poderia ser o grande filme de máfia que não acontece desde Os Bons Companheiros. Tem cara de cinema, mas passa na TV. Os executivos engravatados dos estúdios devem pensar: “Como pode um ator franzino, de voz esquisita, ganhar o papel principal de uma série produzida por Martin Scorsese?” Em Boardwalk Empire, todo o elenco é um achado. Mas é Steve Buscemi, como Nucky Thompson, o rei de Atlantic City na época da Lei Seca, que merece o Globo de Ouro e o Emmy. Incrível como um magrelo consegue meter medo no telespectador com suas reações imprevisíveis e, um minuto depois, fazer o público de Boardwalk Empire rir ou abrir um sorriso de ternura. É um personagem histórico, ao mesmo tempo encantador, divertido e assustador. É o novo poderoso chefão, um político da década de 30, mas que pensa com a cabeça irônica dos anos 2000. Difícil ver outro ator de talento e físico semelhantes em seu lugar. Talvez William H. Macy. Talvez.

Baseada no livro Boardwalk Empire: The Birth, High Times and Corruption of Atlantic City, de Nelson Johnson, a série também conta com ótimos coadjuvantes como Michael Pitt, no papel de Jimmy, o braço direito de Nucky, Michael Stuhlbarg (o homem sério dos irmãos Coen), como o gângster Arnold Rothstein, e o excepcional Stephen Graham, como o jovem Al Capone. Destaque também para a formidável Kelly MacDonald, de Onde os Fracos Não Têm Vez. Só uma observação: Garanto que se Boardwalk Empire fosse cinema, Leonardo DiCaprio certamente seria a escolha de Martin Scorsese para o papel de Jimmy. Mas esse Michael Pitt é fantástico. Ainda bem que teve chance.

Chamo a atenção também para uma breve análise do que é cinema. Sei que estamos falando de TV, mas Boardwalk Empire é um filme narrado em episódios. Veja e reveja os dois primeiros episódios da série. Entenda que cinema não é só roteiro. Valorize o poder, a importância de um diretor que privilegie a mise-en-scène. O primeiro episódio tem direção de Martin Scorsese, que empresta sua agilidade, sua fúria, dando uma sensação de urgência a cada cena. Compare com o segundo episódio, que não traz Marty no comando. O roteiro é estupendo, mantém o padrão estabelecido pelo piloto. Mas o ritmo é outro. Impossível não notar a diferença.

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