Boardwalk Empire e a morte do cinema americano

Encontro-me deslumbrado, de queixo caído, totalmente envolvido pela série Boardwalk Empire, criada por Terence Winter (Família Soprano), que ganha ainda mais notoriedade pelos nomes que assinam a produção: o cineasta Martin Scorsese e o ator mais odiado de todos os tempos, de acordo com os leitores do Hollywoodiano, o Sr. Mark Wahlberg. Mas, ao mesmo tempo, sinto-me deprimido com a qualidade do texto, o cuidado com os cenários, figurinos e a fotografia.
Por quê? Ora, enquanto o cinema aposta em remakes não só de clássicos, mas também de filmes que estrearam ontem, como Deixe Ela Entrar, a TV caminha a passos largos para assassinar a sétima arte. Ou melhor, para ajudar a enterrá-la, afinal o cinema está se matando sozinho e a culpa não é da televisão. Dizem que as mídias não concorrem entre elas. Eu penso diferente. Ou você perderia o final de Lost ou qualquer episódio de Mad Men para ir ao cinema ver o remake grotesco de Fúria de Titãs? Qual comédia lançada este ano nos cinemas é superior a um episódio de 30 Rock e Modern Family?
Veja também o caso dos filmes feitos para a TV, vistos com preconceito antes da revolução da HBO, que também nos deu minisséries impecáveis como Band of Brothers e The Pacific. Mas o que diferencia a TV do cinema – e não é de hoje? Alguns pontos merecem ser destacados: 1) Linguagem narrativa eficiente (e isso não quer dizer somente “roteiro”, jovens), inspirada no cinemão clássico, mas com um olhar atento para o futuro, sem pressa de renovação, com um cuidado extremo para a transição entre o velho e o novo. 2) Uma atenção toda especial para o elenco, que brilha de maneira uniforme, com um ator precisando do outro, sem um astro carregando a série sozinha nas costas. Hugh Laurie, Kiefer Sutherland e Bryan Cranston podem ser os nomes principais de House, 24 e Breaking Bad, mas precisam do elenco de apoio, numa colaboração de ação e reação entre todas as partes. 3) A liberdade criativa que não existe no cinema – a não ser que o diretor em questão seja Steven Spielberg, James Cameron, George Lucas e, talvez, Peter Jackson ou Christopher Nolan. E, claro, Kathryn Bigelow. Pelo menos até seu próximo filme, como acontece com todos os últimos vencedores do Oscar.
O cinema sofre de ansiedade. Quer resultado de uma hora para outra. Na TV, não é assim. É o novo palco do bom cinema americano. Diretores como Barry Levinson, vencedor do Oscar, por Rain Man, há tempos não tem um grande projeto para a tela grande. Mas ganha elogios e indicações a prêmios por You Don’t Know Jack, feito para a TV, que rendeu a Al Pacino o Emmy de Melhor Ator. Aliás, Pacino não ganha papéis interessantes desde O Informante, de 1999. Totalmente esquecido. Na TV, ele é tratado como ídolo, como o rei que é.
Boardwalk Empire é mais um acerto da HBO. Poderia ser o grande filme de máfia que não acontece desde Os Bons Companheiros. Tem cara de cinema, mas passa na TV. Os executivos engravatados dos estúdios devem pensar: “Como pode um ator franzino, de voz esquisita, ganhar o papel principal de uma série produzida por Martin Scorsese?” Em Boardwalk Empire, todo o elenco é um achado. Mas é Steve Buscemi, como Nucky Thompson, o rei de Atlantic City na época da Lei Seca, que merece o Globo de Ouro e o Emmy. Incrível como um magrelo consegue meter medo no telespectador com suas reações imprevisíveis e, um minuto depois, fazer o público de Boardwalk Empire rir ou abrir um sorriso de ternura. É um personagem histórico, ao mesmo tempo encantador, divertido e assustador. É o novo poderoso chefão, um político da década de 30, mas que pensa com a cabeça irônica dos anos 2000. Difícil ver outro ator de talento e físico semelhantes em seu lugar. Talvez William H. Macy. Talvez.
Baseada no livro Boardwalk Empire: The Birth, High Times and Corruption of Atlantic City, de Nelson Johnson, a série também conta com ótimos coadjuvantes como Michael Pitt, no papel de Jimmy, o braço direito de Nucky, Michael Stuhlbarg (o homem sério dos irmãos Coen), como o gângster Arnold Rothstein, e o excepcional Stephen Graham, como o jovem Al Capone. Destaque também para a formidável Kelly MacDonald, de Onde os Fracos Não Têm Vez. Só uma observação: Garanto que se Boardwalk Empire fosse cinema, Leonardo DiCaprio certamente seria a escolha de Martin Scorsese para o papel de Jimmy. Mas esse Michael Pitt é fantástico. Ainda bem que teve chance.
Chamo a atenção também para uma breve análise do que é cinema. Sei que estamos falando de TV, mas Boardwalk Empire é um filme narrado em episódios. Veja e reveja os dois primeiros episódios da série. Entenda que cinema não é só roteiro. Valorize o poder, a importância de um diretor que privilegie a mise-en-scène. O primeiro episódio tem direção de Martin Scorsese, que empresta sua agilidade, sua fúria, dando uma sensação de urgência a cada cena. Compare com o segundo episódio, que não traz Marty no comando. O roteiro é estupendo, mantém o padrão estabelecido pelo piloto. Mas o ritmo é outro. Impossível não notar a diferença.



Perfeito


Um texto literalmente TENSO … mas com um fundo de verdade que não podemos negar em nenhum momento. Claro que esse tema TEM que ser debatido por exaustão por todos, desde os amantes do cinema mais fervorosos (alguns vão dizer simples, vamos para a Europa e a Ásia que tá melhor) até os amantes dessa nova leva de seriados que conseguem ter uma qualidade tão superior do que uma cinematográfica.
Com certeza esse será um tema que dificilmente terá um fim e mesmo assim há de questionar se será feliz ou não.
JOÃO PAULO
E o pior disso tudo é olhar pra frente: Repare na lista de filmes que estão por vir. Agora, compare com a lista de séries que estão para chegar na TV, como “The Walking Dead”, por exemplo, de Frank Darabont, ex-diretor de cinema. Assista ao “remake” de “Hawaii 5.0″, que já está em exibição – ainda bem que está na TV e não no cinema. Abs!
Como assim ex diretor de cinema manolo??? ele vai parar de dirigir filmes ao cinema????? TEMÇOOOOOO
Se torna sim um futuro negro se ver que hollywood sobrevive com remakes de filmes estrangeiros e adaptações de livros que nem serve para papel higiênico …
Sim … é complicado …
JOÃO PAULO
“Ex-diretor” é uma crítica minha. Acho que Darabont ainda fará muitos filmes. Mas, sem dúvida, teve mais segurança para levar seu “The Walking Dead” para a TV. Abs!
Não acho que a Tv possa assassinar a sétima arte, acho que cada um tem o seu público e que em algumas produções a TV pode ousar mais do que o cinema com a venda de cotas comerciais. Talvez se fosse um filme a série teria um alcance bem menor do que os milhões de TVS ligadas pelo mundo. Ao mesmo tempo podemos pensar se Steve Buscemi e Kelly MacDonald estaraiam em seus respectivos papéis se a série fosse um longa metragem (talvez veriamos DiCaprio e Cate Blanchett de novo…). Enquanto o cinema prefere fazer mais do mesmo a televisão parece ser o espaço para os cineastas exercitarem a criatividade atualmente – pelo menos nos EUA. Quem sabe daqui a alguns anos a série não entra em cartaz num cinema perto de você?
abs
WELLINGTON
Não se preocupe! Os filmes americanos não vão acabar. Temos o 3D cuidando disso. Mas, em termos de qualidade, acho que o público inteligente, muito em breve, vai preferir ligar a TV do que ir ao cinema. Isso se a diferença de qualidade entre TV e cinema continuar nessa proporção assustadora. Mas… tenho esperança. De repente, Hollywood presta mais atenção na TV e começa a cuidar de seus filmes com mais carinho. E, então, a TV terá ajudado o cinema. Abs!
Otávio,
Eu tenho pensado muito sobre isso, principalmente depois de um texto que escrevi sobre “Rubicon” e que publiquei em meu blog hoje.
Sabe, lendo alguns livros e conversando com pessoas mais experientes, pude entender que o crítico se sente realmente “tocado”, quando uma obra se mostra interessante para a evolução do cinema e da arte de uma maneira geral.
É por isso que sempre esperamos ansiosos por algum filme novo do Scorsese, do Spielberg, do Lars Von Trier, porque sabemos que esses caras podem nos tirar do lugar-comunm, supreender e contribuir para o cinema.
E isso é algo que eu não tenho sentido mais quando vejo algum filme. Em pouco menos de quatro dias, vi duas porcarias: “A Suprema Felicidade” e “Juntos pelo Acaso”, filmes que não mostram absolutamente nada de novo ou especisl.
Enquanto isso, a televisão segue inovando, segue correndo riscos, segue se desenvolvendo e criando, ou seja, não re-criando como vem fazendo o cinema. Você abre um debate e uma discussão interessante, Otávio, que não deveria ficar em apenas um texto.
Abraços!
VINÍCIUS
Valeu, cara! E você está coberto de razão. Os filmes são essencialmente ficção. Podem e devem ser inspirados na realidade, mas o que precisa ficar é a experiência, a viagem, que nos transporta para outro lugar. Fora da realidade. Scorsese pode fazer a biografia de Jake La Motta, mas é COMO ele vê essa história que intriga (ou deveria intrigar) o espectador. É como ele coloca esse delírio, essa visão na tela, mesmo falando de algo que aconteceu na realidade, que nos fascina. Ou deveria fascinar. Tem gente que confunde ver algo novo com um roteiro original. E não é bem isso. Abs!
Que texto belissimo.Fiquei com medo,mas infelizmente você tem razão.A exemplo de Scorsese e Levinson que realizaram projetos para Tv,no Brasil Fernando Meirelles optou por realizar a série Som e Fúria ao invés de realizar outro filme.Bom pra ele e bom para sua produtora 02 filmes.E concordo que a liberdade criativa esta morrendo no cinema(mas nunca vai acabar é claro).Temos Almodovar,Tarantino,Von Trier e deixa eu pensar…Paul Tomas Anderson,Brothers Cohen e deixa eu pensar mais um pouquinho…enfim,são poucos mesmo rss.Esse não é um texto para debater e sim pra refletir.Trocando de assunto,você lê mesmo todos os comentários dos seus leitores.Mark Wahlberg é o mais odiado mesmo.Você podia até fazer uma eleição dos mais odiados do blog.Na direção meu favorito é Tony Scott e ator a disputa fica entre Nicolas Cage e Cigano Igor,aliás…Mark Wahlberg hehehehe.Dá uma olhada no meu texto sobre Darren Aronofsky no post do Wolverine.Escrevi com carinho e dedicação especialmente pro seu blog.Abraço Otávio.
Seu Blog é realmente completo.
Não tinha pensado nisso mas agora começo a ficar intrigado. A maneira como a qualidade das séries está crescendo e a do cinema caindo chega a ser alarmante, não acho que os filmes sejam prejudicado por isso mas sim o cinema-arte que cada vez mais esta diminuindo, as produções da TV estão dando um banho de qualidade em cima do cinema, até mesmo sua premiação (O EMMY deu uma aula de organização e justiça ao OSCAR).
Ponto muito bem abordado Ótavio. abs.
Notório, impactante e real o texto.
Acredito que o grande problema da hollywood moderna está em seus produtores “mecanicos”, “de efeitos explosivos”, hollywood não se preocupa mais em querer vender criando estórias que possam exercitar a mente humana, como ocorreu com A Origem.
Bem, assassinar a sétima arte é muito complexo de se dizer, mas que essa vem se transformando em um monstro literalmente sem cabeça, podemos discutir e mesmo afirmar que sim!
Grande debate proposto!
Mas eu pergunto, se as cabeças pensantes de hollywood estão migrando pra tv, o que houve com o cinema? Não seria o público do cinema que anda ficando cada vez mais “idiotizado”?
PAULO RICARDO
Obrigado, Mengão! E eu leio todos os comentários, claro. Tento responder todos, mas nem sempre consigo. E não fale mal do Tony Scott, por favor! Esse cara faz qualquer filme. Do jeito dele, tosco, rápido, mas faz. Dê um roteiro na mão dele e o filme sai. Ah, respondi teu comentário lá no post do Aronofsky. Abs!
JONATHAN
Obrigado! Mas é uma discussão que não pára aqui. E, de fato, a cerimônia deste ano do Emmy Awards foi bem mais agradável de se ver que a do Oscar. Incluindo a escolha dos vencedores. Abs!
FLAVIO
Obrigado! Eu estava pensando nisso outro dia: Ainda bem que a TV não pensou primeiro em “A Origem”. Ainda bem porque o cinema ganha em esperança. Nós ganhamos. Na TV, sabemos que veremos algo realmente bom. Estamos tranquilos quanto a isso. O problema é sair de casa e ir ao cinema pra ver algo de valor. Abs!
CASSIANO
Obrigado! E você tocou num ponto interessante. Mas prefiro culpar Hollywood, até porque não considero o público burro. Queremos ir ao cinema. Muitas vezes atrás de diversão. Só que o espetáculo proposto por Hollywood já foi melhor. Está na hora dos estúdios refletirem, afinal o público cresce ou perde em inteligência com a qualidade daquilo que é divulgado como cultura. Aqui no Brasil, por exemplo, é só reparar no sucesso de “Tropa de Elite 2″. Ou seja, o público não é idiota. Abs!
O cinema sofre também por causa da previsibilidade das histórias de suas produções, dos clichês, de más interpretações. 3D é lindo, maravilhoso, uma revolução na história da película, mas só esse recurso não convence, apesar de encher salas!
De fato há alguns filmes que valem a pena deixa de ver um episódio para ir assisti-lo, mas são poucos. No geral, prefiro assistir uma série do que um filme. Todo cinéfilo já tem uma certa facilidade para acompanhar séries, acredito que ambos estejam interligados, mas o fato é que ultimamente está sendo mais fácil encontrar gente que fale bem de séries do que de filmes. Isso num modo geral, claro. Vez ou outra vemos um Tropa de Elite 2 ou A origem que fazem valer o nosso amor pela sétima arte. Boardwalk Empire é uma série que veio pra ficar e está níveis acima de muitas no ar atualmente e certamente. E que muitos filmes também. É uma preocupação com a produção, não apenas técnica, tão grande que deixa qualquer um deslumbrado a cada episódio. Não só por Boardwalk Empire, mas a TV (as séries) por várias vezes me fez deixar de ver filmes. E é exatamente por isso que você falou. Não deixo um episódio de Modern family por uma comédia dessas que vêm estreando. De forma alguma.
Ótimo texto, parabéns!
Abraço
RAQUEL
Hollywood de boba não tem nada. Sabe muito bem que o 3D não garante o envolvimento completo do público com o filme, mas, por enquanto, está lucrando com isso. Não adianta se sentir dentro do filme de uma maneira superficial. A emoção precisa vir da conexão com os valores básicos da trama e a ligação sentimental com os personagens. E isso tem de sobra na TV. Bjs!
ALEXSANDRO
“Os Vampiros que se Mordam”… É esse o título da comédia mais vista em cartaz? Não lembro. Talvez “Piranha 3D”… Prefiro perder um dia inteiro vendo uma temporada completa de “Modern Family” e “30 Rock”, até o cinema estrear algo do gênero que me tire de casa com aquela sensação de que iremos, enfim, ver um grande filme. Abs!
Série FANTÁSTICA. Depois deste episódio 6 então, tenho certeza que é a melhor coisa na televisão hoje.
Eu também, Wally… Eu também… Abs!