outubro 22nd, 2010

O Solteirão

Ei, Mary-Louise, você deve ter aí uma daquelas verdinhas de Weeds..

Ben Kalmen não é solitário, como diz o título original transformado no português canalha O Solteirão (Solitary Man, 2009). Ele faz de tudo para estar solitário. O filme dirigido por Brian Koppelman e David Levien – mais conhecidos pelos roteiros de O Júri e Treze Homens e um Novo Segredo – é sobre um homem acelerando numa estrada aparentemente vazia, sentindo o prazer da velocidade, do vento batendo no rosto, levantando o cabelo. O que ele não sabe – ou não liga – é que um caminhão está vindo em sua direção para uma violenta batida de frente.

Até a última cena, Michael Douglas interpreta Ben Kalmen como se fosse um galã, um vencedor, um sujeito amado por todos. Mas o ex-magnata de uma rede de concessionárias perde dinheiro, casamento, emprego e se torna um galinha desprezível, que não mede consequências na hora de correr atrás de um rabo de saia, mesmo que isso possa magoar sua família e seus amigos.

Por mais que sua filha, Susan (Jenna Fisher), a ex-mulher, Nancy (Susan Sarandon), sua atual namorada, Jordan (Mary-Louise Parker), e os amigos Daniel Cheston (Jesse Eisenberg) tentem alertá-lo que o resultado de tal comportamento é a solidão, Kalmen só faz besteira atrás de besteira. Mesmo batendo na porta dos 70 anos, pensa que ainda é um adolescente idiota sem noção da realidade. E ele não sabe que está à beira de um ataque de nervos.

Se eu tivesse a sua idade, Jesse, David Fincher teria me chamado para o filme do Facebook

Mas quem diria? O que não funciona em O Solteirão – além do título nacional – é justamente Michael Douglas. Não adianta colocar tanta gente famosa no elenco para apoiá-lo se o ator principal não reage ao filme que seus coadjuvantes estão vendo, interpretando. Ligado no automático, Douglas parece deslumbrado, divertindo-se demais no papel de um protagonista que não está numa comédia. Pelo contrário, trata-se de uma tragédia e, convenhamos: Se Michael Douglas queria atuar assim, digamos que faltou Woody Allen na direção. Neste caso, O Solteirão teria o equilíbrio necessário entre a comédia e o drama. Tenho certeza. Ou você acha que os diretores Brian Koppelman e David Levien teriam pulso para dizer “Vem cá, meu filho, você está no tom errado”?

Do jeito que está, seja sincero: Você sente alguma coisa por Ben Kalmen? Ódio? Ou gosta do cara? Tem alguma empatia por ele? Ou nem liga se ele vai se dar mal ou não no fim? Ah, por favor, haja paciência, não? Quem vai ao cinema quer sentir alguma emoção. Deixar qualquer espectador sair da sessão com frieza é como assinar a sentença de morte da sétima arte, pois assim é preferível encarar a vida real.

Como Al Pacino e Jack Nicholson, Douglas acha que tem o direito de atuar como ele mesmo. Mas não tem. Aliás, como um sujeito viciadão em sexo, creio que ele não se esforçou tanto para viver Ben Kalmen. Mas já reparou que Michael Douglas se sai melhor quando esquecemos que Michael Douglas está em cena?  Quando personagens ficam – e não o ator –, como em Garotos Incríveis, de Curtis Hanson, Um Dia de Fúria, de Joel Schumacher e, claro, Wall Street – Poder e Cobiça, de Oliver Stone, até que Michael Douglas é um sujeito que merece toda a nossa atenção.

O Solteirão (Solitary Man, 2009)
Direção: Brian Koppelman e David Levien
Roteiro: Brian Koppelman
Elenco: Michael Douglas, Susan Sarandon, Danny DeVito, Mary-Louise Parker, Jenna Fischer, Imogen Poots e Jesse Eisenberg

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