Um Homem Misterioso

Os anos marcados nas rugas e no olhar de Jack (George Clooney) indicam um certo cansaço. Talvez queira parar de trabalhar ou mudar de profissão, mas ele é um daqueles tipos que só acordam para mudanças na vida quando levam um baita susto, como a demissão, por exemplo. Ou quando tem em sua cola algum concorrente tentando matá-lo. Ah, sim, esqueci de mencionar que Jack é um assassino profissional. E muito bom no que faz. Mas para eliminá-lo do mercado, a concorrência talvez precise de um plano inteligente, afinal não é qualquer um que consegue se aproximar dele e apagá-lo do mapa ao mesmo tempo. Ou uma coisa ou outra.
Mas sua carreira tem um preço: a solidão. Chegando ao pequeno vilarejo de Castel del Monte, na Itália, onde aguarda por instruções para executar um novo serviço, Jack ironicamente sente a monotonia do local abrir seus olhos para um futuro menos frio e solitário. Principalmente quando conhece a prostituta Clara (a italiana Violante Placido), sua única hora de lazer em dias onde nada acontece a não ser esperar pelo próximo trabalho. Assim começa Um Homem Misterioso (The American, 2010), baseado no romance A Very Private Gentleman, de Martin Booth, com direção do holandês Anton “Control” Corbijn.
É o começo, lento, lento e lento, que dita o ritmo de todo o filme. Mas no meio de tantos longas de espionagem, com agentes secretos e assassinos de aluguel correndo pra lá e pra cá, com a câmera tremendo em cenas de luta e perseguições de carros, Corbijn foge da tendência ao explorar a solidão interior de Jack e o silêncio que predomina ao seu redor. O diretor evoca o passado para não repetir o que já está ficando desgastado no presente. O ritmo de Um Homem Misterioso é o cinema dos anos 70, mas com um olhar europeu, completamente distante de Hollywood. O roteiro de Rowan Joffe não traz nada de novo, mas é interessante por lembrar In Bruges (Na Mira do Chefe) sem a diversão do filme de 2008 estrelado por Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes. Embora os diretores de Um Homem Misterioso e Na Mira do Chefe sejam europeus é Anton Corbijn que se desprende dos cacoetes pop que dominaram os filmes americanos ao valorizar a típica atmosfera do cinema europeu (não o de hoje, claro, que está cada vez mais “americanizado”), que muitos gostam de chamar de “arte”. Temos todos aqueles belos cenários, mas a câmera do diretor está voltada para a mente de Jack.

Dito isso, o filme depende muito da performance de George Clooney, que está perfeito como um sujeito travado emocionalmente, que viaja pelo mundo, mas não se comunica. O trabalho (matar) é o único contato que Jack mantém com as pessoas. Diálogo mais breve do que esse não existe. É “Oi, vim aqui pra te matar. Adeus. BANG!” Nem mesmo o padre da região que reconhece nele um homem de alma atormentada consegue lhe arrancar um desabafo, uma confissão. Jack prefere encontrar a purificação no sexo oral com a prostituta. Pensa que o “aqui se faz, aqui se paga” está na carne e não na alma. Chega a dizer ao padre que Deus não está muito interessado nele. E como em Na Mira do Chefe, ele está num purgatório.
Ainda bem que Jack tem a companhia de Clara e a enigmática Mathilde (a holandesa Thekla Reuten). Note como Anton Corbijn explora a beleza incomum – ao público acostumado com produções americanas – de Thekla e Violante. O charme e a sensualidade das atrizes mereciam um filme à parte, principalmente Violante. Deus, essa mulher é um furacão! É uma legítima herdeira das musas do glorioso cinema italiano ou não é?

No atual cenário, diria que somente cinéfilos terão paciência com Um Homem Misterioso. Há até referências a O Poderoso Chefão (Procissão? Jamais deixe seu acompanhante ir ao banheiro de um restaurante?) e A Ponte do Rio Kwai (a ave observando tudo do alto).
E é curioso constatar um paradoxo entre a popularidade de George Clooney, que se arrisca neste tipo de filme contrário à indústria, e as produções que oferece ao público. Fato: Nós adoramos George Clooney, mas seus filmes não são grandes, nem médios, sucessos de bilheteria. Talvez Clooney, que volta a atuar aqui como produtor, ao lado do parceiro Grant Heslov (Boa Noite e Boa Sorte), tenha algo a dizer a Hollywood. Ele é astro, mas valoriza sua imagem como ator responsável por dar ao público um filme inteligente. Se já diziam que Clooney é um astro à moda antiga, como Cary Grant, sua espécie está mesmo ameaçada, como Jack e suas borboletas em Um Homem Misterioso.
(Otavio Almeida)
Um Homem Misterioso (The American, 2010)
Direção: Anton Corbijn
Roteiro: Rowan Joffe (Baseado no livro de Martin Booth)
Elenco: George Clooney, Violante Placido, Thekla Reuten, Paolo Bonacelli, Bruce Altman e Filippo Timi



Perfeito


Tô bem curiosa para conferir este filme, ainda mais porque George Clooney anda numa excelente fase como ator.
Beijos!
Parece que Clooney está diferente de seus papéis habituais, apesar de sempre parecer um galanteador. rsrs. À conferir!
Beijos!
Esse filme esta sendo vendido de forma errada.O postêr e o trailer indicam um filma na linha do 007 e O Ultimato Bourne mas a idéia de Anton Corbijn e do produtor George Clooney é um filme de espionagem com tensão e muito pouca ação.Não achei um filmaço,mas estou tentando compreender o fracasso do filme nos EUA.hehe gostei do Anton “Control” Corbijn rss,todo diretor estrangeiro quando estréia em Hollywood é um pouco rotulado.Com o holandês não é diferente.Outro detalhe importante no seu texto,concordo que o filme tem um estilo europeu e muito bom você ter lembrado do filme Inglês/Belga Na Mira do Chefe que é maravilhoso.O filme de Martin McDonagh tem tudo pra se tornar cult daqui uns anos.Abs.
Podemos dizer sem nenhum problema que Clooney firma com passos seguros que é um ator completo. Esse ano com filmes diferentes do que o publico está acostumado, se torna um dos melhores atores dessa geração, ou até talvez trazer uma frescura multifacetada que só tinham os grandes atores do passado.
Ansioso … sim … sem duvida …
Ser vacilão em ter perdido aqui no cinema … SIM .. SEM DUVIDA … FUUUUUU!
Abraços champs!
KAMILA
Excelente mesmo! E ele não lembra em nada o Ryan Bingham de “Amor sem Escalas”. Bjs!
MAYARA
Galanteador? Ora vejam… Hahahaha… Bjs!
PAULO RICARDO
E parece mesmo “Na Mira do Chefe”, não? Mas sem a diversão… Abs!
JOÃO PAULO
Um grande ator/astro. Hollywood precisava de mais George Clooneys, que ainda por cima é diretor (e produtor). Abs!