novembro 26th, 2010

Um Homem Misterioso

O Americano
Os anos marcados nas rugas e no olhar de Jack (George Clooney) indicam um certo cansaço. Talvez queira parar de trabalhar ou mudar de profissão, mas ele é um daqueles tipos que só acordam para mudanças na vida quando levam um baita susto, como a demissão, por exemplo. Ou quando tem em sua cola algum concorrente tentando matá-lo. Ah, sim, esqueci de mencionar que Jack é um assassino profissional. E muito bom no que faz. Mas para eliminá-lo do mercado, a concorrência talvez precise de um plano inteligente, afinal não é qualquer um que consegue se aproximar dele e apagá-lo do mapa ao mesmo tempo. Ou uma coisa ou outra.

Mas sua carreira tem um preço: a solidão. Chegando ao pequeno vilarejo de Castel del Monte, na Itália, onde aguarda por instruções para executar um novo serviço, Jack ironicamente sente a monotonia do local abrir seus olhos para um futuro menos frio e solitário. Principalmente quando conhece a prostituta Clara (a italiana Violante Placido), sua única hora de lazer em dias onde nada acontece a não ser esperar pelo próximo trabalho. Assim começa Um Homem Misterioso (The American, 2010), baseado no romance A Very Private Gentleman, de Martin Booth, com direção do holandês Anton “Control” Corbijn.

É o começo, lento, lento e lento, que dita o ritmo de todo o filme. Mas no meio de tantos longas de espionagem, com agentes secretos e assassinos de aluguel correndo pra lá e pra cá, com a câmera tremendo em cenas de luta e perseguições de carros, Corbijn foge da tendência ao explorar a solidão interior de Jack e o silêncio que predomina ao seu redor. O diretor evoca o passado para não repetir o que já está ficando desgastado no presente. O ritmo de Um Homem Misterioso é o cinema dos anos 70, mas com um olhar europeu, completamente distante de Hollywood. O roteiro de Rowan Joffe não traz nada de novo, mas é interessante por lembrar In Bruges (Na Mira do Chefe) sem a diversão do filme de 2008 estrelado por Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes. Embora os diretores de Um Homem Misterioso e Na Mira do Chefe sejam europeus é Anton Corbijn que se desprende dos cacoetes pop que dominaram os filmes americanos ao valorizar a típica atmosfera do cinema europeu (não o de hoje, claro, que está cada vez mais “americanizado”), que muitos gostam de chamar de “arte”. Temos todos aqueles belos cenários, mas a câmera do diretor está voltada para a mente de Jack.

O Americano e a Italiana
Dito isso, o filme depende muito da performance de George Clooney, que está perfeito como um sujeito travado emocionalmente, que viaja pelo mundo, mas não se comunica. O trabalho (matar) é o único contato que Jack mantém com as pessoas. Diálogo mais breve do que esse não existe. É “Oi, vim aqui pra te matar. Adeus. BANG!” Nem mesmo o padre da região que reconhece nele um homem de alma atormentada consegue lhe arrancar um desabafo, uma confissão. Jack prefere encontrar a purificação no sexo oral com a prostituta. Pensa que o “aqui se faz, aqui se paga” está na carne e não na alma. Chega a dizer ao padre que Deus não está muito interessado nele. E como em Na Mira do Chefe, ele está num purgatório.

Ainda bem que Jack tem a companhia de Clara e a enigmática Mathilde (a holandesa Thekla Reuten). Note como Anton Corbijn explora a beleza incomum – ao público acostumado com produções americanas – de Thekla e Violante. O charme e a sensualidade das atrizes mereciam um filme à parte, principalmente Violante. Deus, essa mulher é um furacão! É uma legítima herdeira das musas do glorioso cinema italiano ou não é?

O Americano e a Holandesa
No atual cenário, diria que somente cinéfilos terão paciência com Um Homem Misterioso. Há até referências a O Poderoso Chefão (Procissão? Jamais deixe seu acompanhante ir ao banheiro de um restaurante?) e A Ponte do Rio Kwai (a ave observando tudo do alto).

E é curioso constatar um paradoxo entre a popularidade de George Clooney, que se arrisca neste tipo de filme contrário à indústria, e as produções que oferece ao público. Fato: Nós adoramos George Clooney, mas seus filmes não são grandes, nem médios, sucessos de bilheteria. Talvez Clooney, que volta a atuar aqui como produtor, ao lado do parceiro Grant Heslov (Boa Noite e Boa Sorte), tenha algo a dizer a Hollywood. Ele é astro, mas valoriza sua imagem como ator responsável por dar ao público um filme inteligente. Se já diziam que Clooney é um astro à moda antiga, como Cary Grant, sua espécie está mesmo ameaçada, como Jack e suas borboletas em Um Homem Misterioso.

(Otavio Almeida)

Um Homem Misterioso
(The American, 2010)
Direção: Anton Corbijn
Roteiro: Rowan Joffe (Baseado no livro de Martin Booth)
Elenco: George Clooney, Violante Placido, Thekla Reuten, Paolo Bonacelli, Bruce Altman e Filippo Timi

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