novembro 8th, 2010

Um Parto de Viagem

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Um Parto de Viagem
(Due Date, 2010) é o mínimo que deveríamos esperar dessa Hollywood viciada em remakes e reinvenções. É o Antes Só do que Mal Acompanhado do século XXI. É praticamente o mesmo filme, seguindo a estrutura do roteiro criado por John Hughes, com Robert Downey Jr. no lugar de Steve Martin e Zach Galifianakis dando uma de John Candy. Mas não é refilmagem nem reinvenção. Muito menos utiliza o mesmo título. Há apenas uma atualização nos diálogos, nas situações e nas piadas para um público ligado em celulares, redes sociais, GPS e câmbio automático. Se falta criatividade em Hollywood, o diretor Todd Phillips (Se Beber, Não Case) sabe que há inspiração de sobra em seu legado, mostrando qual é o caminho ideal para a indústria apostar em fórmulas consagradas sem se repetir descaradamente.

A história você conhece: Um executivo (Steve Martin/Robert Downey Jr.) precisa voltar para casa. Em Antes Só…, o motivo é o Dia de Ação de Graças. Em Um Parto…, Downey Jr. viaja para ver o nascimento de seu filho. Nos dois filmes, os protagonistas perdem seus voos. E a culpa é toda de um gordinho solitário e chato de galochas, mas dono de um enorme coração (John Candy/Zach Galifianakis), que resolve lhe dar uma carona. No filme de Hughes, que em inglês se chama Planes, Trains & Automobiles, Martin e Candy usam todos esses veículos, mas no filme de Todd Phillips, Downey Jr. e Galifianakis não pegam trem. Mas isso é um mero detalhe.

A iniciativa é boa, mas Um Parto de Viagem não deixa de ter problemas. Em Se Beber, Não Case, Todd Phillips buscou a risada a todo instante e de todas as formas possíveis. O diretor e roteirista adora as comédias dos anos 70 e 80, com Chevy Chase, John Belushi, John Candy e Steve Martin usando e abusando do politicamente incorreto, quando o termo não era um problema, assim como o fair play. Em Um Parto de Viagem, o público deve entender que a proposta é outra. Ao seguir Antes Só do que Mal Acompanhado, Phillips não poderia repetir o clima de seu filme anterior. Foi preciso construir uma história muito bem equilibrada, com o humor (por vezes grosseiro, como manda o currículo e as inspirações do diretor), dominando 80% do filme, dando lugar (aos poucos) a uma emocionante conclusão, capaz de arrancar lágrimas de uns e outros.

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Mas esse é o ritmo de Antes Só do que Mal Acompanhado. Em Um Parto de Viagem, Todd Phillips não alcança em momento algum o equilíbrio conquistado por John Hughes entre drama e comédia. Talvez não seja um erro do diretor. Talvez seja sinal dos tempos. Sendo politicamente incorreto, não dá para virar facilmente a casaca e buscar a ternura no cinema comercial de hoje. É preciso ser comédia até o fim. Talvez nos anos 80, com uma outra linguagem, claro, e outro público, John Hughes tenha lançado o filme certo na hora certa.

Ainda acredito que a mistura entre drama e comédia seja perfeitamente possível em um filme para a massa, mas não adianta forçar. É a plateia que precisa entender e reconhecer naturalmente a proposta. Se o filme não estourar nas bilheterias, o azar é todo do público. Pensando por este lado, Phillips perdeu a chance de fazer o seu Sideways. Muito menos alcançou o nível de Antes Só do que Mal Acompanhado. E acho que Phillips força a barra em Um Parto de Viagem para arrancar gargalhadas. Mas quando o drama precisa entrar em cena, o filme não fica nem lá nem cá.

Exemplo: Qual foi a sua reação na cena em que Robert Downey Jr. se vinga do menino pentelho? Embora a atitude violenta não combine em nada com o personagem, eu dei risada, mas a maior parte do cinema estranhou. Senti-me como um espectador precisando de análise urgente. Tenho minhas dúvidas se essa cena funciona com todo mundo. Outro exemplo é a sequência do acidente de carro, após a soneca do motorista. Ali, nem eu ri. Será que era para rir? Mas se estivessem em Se Beber, Não Case, as duas cenas teriam sido perfeitas.

Como de praxe, Robert Downey Jr. está ótimo no filme, com seu senso de humor irônico, bem equilibrado com sua postura de ator dramático. Só não dá para entender como seu personagem é conquistado pelo doido varrido interpretado por Zach Galifianakis. Em Antes Só…, John Candy é um sujeito adorável e compreendemos a mudança de comportamento de Steve Martin no final. Em Um Parto…, a culpa não é de Galifianakis, que obviamente tem talento, mas seu personagem precisa de ajuda profisional e não exatamente de um amigo. Faltou a Todd Phillips um pouco mais de atenção para andar na mesma velocidade da dupla.

Um Parto de Viagem (Due Date, 2010)
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Alan R. Cohen, Alan Freedland, Adam Sztykiel e Todd Phillips
Elenco: Robert Downey Jr., Zach Galifianakis, Michelle Monaghan, Jamie Foxx, Juliette Lewis, Danny McBride, RZA e Matt Walsh

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