A Rede Social

A Rede Social (The Social Network, 2010) tem ambições maiores do que ser um filme sobre a criação do Facebook. Seria idiotice pensar que é só isso. E é muito mais que a história de seu responsável rumo ao posto de mais jovem bilionário do mundo. Vejo A Rede Social ilustrando muito mais um grupo que uma geração necessariamente: os filhos de uma classe média (bem) alta pra cima.
Prefiro analisar o filme por dois pontos:
1) Dentro do mundo que nós vemos, A Rede Social é uma aula sobre capitalismo e empreendedorismo para leigos, especialmente os jovens que estudam para entrar (ou sair) da faculdade, sonhando com um futuro promissor. Também serve para exibição em grandes empresas, com seus cursos, palestras e atividades extracurriculares. Portanto, não chore por Eduardo Saverin (Andrew Garfield), o brasileiro cheio da grana, que investe seu dinheiro, sua amizade e sua confiança em Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e a criação do hoje tão famoso Facebook. Somente para ser traído pelo melhor amigo e sair da brincadeira com o rabo entre as pernas, enquanto indivíduos enraizados no sistema capitalista, como Sean Parker (Justin Timberlake), capturam novos produtos (o Facebook) e conduzem sutilmente seus verdadeiros (e ingênuos) criadores ao lucro imediato e à rede de grandes corporações que sustenta os EUA e o mundo. O que acontece com Eduardo é até curioso se lembrarmos da evolução do próprio Brasil nas últimas décadas, afinal ele deveria se vender e ajustar ao sistema se quisesse progredir. Como os EUA ensinaram ao mundo moderno, todos precisam de sua intervenção. Portanto, o que acontece com Eduardo neste filme não é nada pessoal. São apenas negócios. A fila anda. Já Mark Zuckerberg é o sonho desse sistema transformado em realidade: Ele é o gênio que cria e é absorvido pelos magnatas que só lucram e não se esforçam. Não importa se o Facebook é a melhor ou a pior invenção da História. O importante é lucrar, afinal existem consumidores para isso. E se Mark tinha 19 anos quando tudo isso aconteceu, a América precisa mesmo celebrar. É o império crescendo e se renovando rápido e cedo demais. Esqueça a discussão de que o garoto é apenas um garoto e deveria pensar em outras coisas. São apenas negócios.
2) Mark Zuckerberg se vê como um gênio. E ele é. Mas seu ego é tão grande que mais parece uma espécie de Deus moderno, que está acima dos outros em corpo e mente. E como ele resolve isso? Criando o Facebook à sua imagem e semelhança: No mundo real, Mark é anti-social, não consegue se relacionar com amigos e muito menos pode ter uma namorada. Sua cabeça está a mil por hora. Enquanto a pessoa à sua frente raciocina sobre o que acabou de ouvir, Mark já está em outro assunto. Como então ele pode se relacionar com as pessoas sem mudar seu jeito? Criando algo como o Facebook, que como o próprio diz em certo momento do filme, não sabe ainda para o que serve. Se Mark Zuckerberg é um Deus, o Facebook é o seu reino e todos nós somos seus filhos.

Acha que fui irônico nesses dois pontos que me explicam A Rede Social? Será que somos tão vazios assim? Bom, não sou eu que digo nem David Fincher, que apenas expõe a situação. É o que também estou fazendo neste texto. Você julga.
Somente na última (e melhor) cena, lembramos que estamos mesmo num filme. É o momento “Rosebud”de Mark Zuckerberg. É quando vemos brotar valores básicos e importantes, quando o cinema se desprende da realidade e procura encantar. Ora, que eu saiba A Rede Social não é um documentário. Ali, David Fincher finalmente se impõe e desce do muro. Mesmo que sutilmente, ele escancara seu lado nessa história toda ao observar como é triste enxergar humanidade lá no fundo de Mark Zuckerberg, com sua alma presa (sem perspectiva de liberdade) à necessidade de se afirmar. Se sente pena do protagonista, Fincher sugere o quanto somos patéticos por segui-lo e acreditarmos nesta qualidade de comunicação.
David Fincher é um cineasta que levou uma nova geração a amar o cinema. Tem toda a atenção de seu público, então parece o cara certo para contar esse tipo de história. Niilista, já criticou o capitalismo e sua sociedade viciada em consumo na obra-prima chamada Clube da Luta. Ali, o diretor foi radical, exagerado. Se arriscou, ousou e foi genial abordando temas atuais. Mas não apontou o dedo para alguém ou algum específico sucesso americano. Em A Rede Social, Fincher põe os dois pés no chão e apenas observa as consequências dos medos de Tyler Durden, protagonista de Clube da Luta. Mas aponta o dedo. Por isso é imparcial, frio. Entendo quando dizem que A Rede Social ilustra uma “geração”. Porque é só isso. Apenas ilustra. Nada mais. Antes de culpar Fincher de falta de ousadia, é até compreensível que o diretor não critique essa sociedade e seu mundo particular nem mesmo o Facebook e seus usuários. Seria um tiro no pé levar a raiva de Clube da Luta para este filme, porque de fato ainda estamos tentando entender o fenômeno das redes sociais e seus propósitos.

Talvez o filme – feito pelo mesmo diretor – tivesse um impacto dramático maior se seu lançamento acontecesse anos depois. Fincher poderia sonhar e esquecer suas obrigações com os fatos. Como Platoon, lançado por Oliver Stone após a Guerra do Vietnã, ou A Lista de Schindler visto por Steven Spielberg bem depois do Holocausto, ou Boa Noite e Boa Sorte, narrado por George Clooney após o Macarthismo, ou O Povo Contra Larry Flynt e a liberdade de expressão já incorporada – filmes com seus assuntos devidamente compreendidos pelo planeta; Hollywood falando do passado para criticar o momento. Mas como A Rede Social foi feito em 2010, Fincher o entregou da melhor forma possível: acadêmico. É como se Fincher quisesse gritar que a Humanidade não deu certo e que estamos perdendo a guerra contra as máquinas. Mas alguma coisa o impede. Algo que não o segurou em Clube da Luta. Ou mesmo Seven, sua outra obra-prima. E não impediu os diretores citados neste parágrafo. Enfim, os anos ensinam.
O que não diminui a qualidade do texto verborrágico de Aaron Sorkin, da série The West Wing, que dá voz a vários personagens se atropelando em palavras, mas que jamais se entendem. Um roteiro perfeitamente compreendido e vivido pelo fabuloso elenco que destaca Jesse Eisenberg, o nerd fechadão que se encaixa com sobras na personalidade de Mark Zuckerberg pretendida por Fincher e Sorkin. Assim como Justin Timberlake (quem diria?), o vilão por fora, mas covarde por dentro. Genial nos negócios, mas com uma mentalidade de um alface para assuntos pessoais. Seria o Zuckerberg de amanhã? Mas contra todos os gostos, prefiro elogiar Andrew Garfield, o novo Homem-Aranha do cinema, como Eduardo Saverin. A única emoção existente em A Rede Social nasce enrustida e morre extravasada com este personagem. Sua construção, execução e conclusão são brilhantes. Destaque também para a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, a mais original dos últimos anos ao lado de Sangue Negro e A Origem. Como os jovens deste filme, transmite inconsequência, angústia, desejos reprimidos, reclusão e falta ou total desconhecimento do que é responsabilidade.
(Otavio Almeida)
A Rede Social (The Social Network, 2010)
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin (Baseado no livro “Bilionários Por Acaso”, de Ben Mezrich)
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Max Minghella, Joseph Mazzello e Rashida Jones



Perfeito


Um texto tenso mas ao mesmo tempo bastante reflexivo … Quando se vê ao lado da emoção, falta santificar o Eduardo e demonizar o Mark … mas olhando profundamente … quem é o certo? quem é o errado … O filme é imparcial e o publico será o juiz de quem estará com a razão …
Abraços champs!
JOÃO PAULO
Exato! Do lado emocional, defendo o Eduardo. Mas conhecendo as coisas como são… bem, são apenas negócios. Só que é extremamente difícil separar as duas coisas. Abs!
Esse filme é ótimo, mas nem se compara a perfeição de Benjamin Button!!!
Otávio,pela sua critica deu pra notar que você não gostou muito do filme(ou gostou,mas não achou o melhor do ano).E li muitas criticas sobre o filme e A Rede Social,A Origem e Toy Story 3 até agora foram os filmes mais elogiados do ano.Vou ver o filme essa semana e você foi muito feliz nos seus argumentos.Você não achou A Rede Social um filmaço,mas explicou os motivos.O meu maior medo nesse filme era David Fincher “endeusar” Mark Zuckerberg e colocar de lado o brasileiro Eduardo Saverin e os outros criadores do Facebook que tiveram sua importancia na criação do site.Vou ver o filme essa semana e vou tirar minhas conclusões,mas espero ver um filmaço e quando criamos esse tipo de expectativa a tendencia é não gostar.Não admito ver Mark Zuckerberg como um Deus e se o filme tiver essa abordagem vai me decepcionar.Você acha que A Rede Social pode ganhar meia dúzia de Oscars(Guerra ao Terror)ou sair arrastando premios(Quem Quer ser um Milionário?.Não sei se a acadêmia teria “coragem artistica” de dar o premio para A Origem(que gostando ou não é um filme complexo).Não sei não Flamenguista,mas parece que a batalha que a academia vai criar é A Origem vs A Rede Social.Eles sempre criam isso pra gerar uma expectativa.É o filme “grande da indústria hollywoodiana” contra o “independente barato”.2008 foi O Curisoso Caso de Benjamin Button contra o indepedente filme Quem Quer ser.. e ano passado foi Avatar(o mega filme de Cameron)contra o mais independente ainda Guerra ao Terror(custou apenas 11 milhões).Otávio tô sentindo que esse ano vai ser A Origem(O Blockbuster do ano com momentos de filme de arte e que arrecadou mais de 800 milhões)contra o pequeno A Rede Social.Concorda comigo ou acha que a pixar vai forçar a barra pra Toy Story ser a primeira animação a levar o careca dourado de melhor filme.
*Eu não resisto.Ano passado mengão hexa é aqui em Volta Redonda foi uma mega festa e no Rio então nem se fala.Parou a cidade de vermelho e preto.Esse ano o Fluminense levou o bi campeonato(não é tri campeão,pelo que eu sei torneio Roberto Gomes de Pedrosa não é campeonato brasileiro que foi criado em 71 e o 1° campeão foi o galo mineiro).Acabou o jogo e caiu uma tempestade no Rio de Janeiro(aqui na minha cidade tbm)e a festa foi sem graça…uahuhauhahuahu,nem isso tricolor dá sorte.É campeão e não pode comemorar.Se Muricy é penta o Luxa é Hexa rss.Abraço e 2011 o Mengão vai respirar novos ares.
Abraço
DOUGLAS
Entre “Benjamin Button” e “A Rede Social”, fico com o filme do Facebook. Abs!
PAULO RICARDO
Não que Fincher trate Zuckerberg como Deus. Essa é a minha interpretação. É como gosto de analisar o filme para entrar na discussão do criador lançando um produto que tem a intenção de unir as pessoas, enquanto ele se isola. Dentro dessa ideia, acho que Zuckerberg fez o Facebook à sua imagem e semelhança. Não intencionalmente, claro. O “Deus” colocado no texto é apenas metafórico na minha interpretação para ilustrar essa discussão que realmente há no filme. Abs!
Técnica sofisticada e temática um tanto confusa. Exatamente como Peckinpah e Aldrich faziam com seus filmes de gênero da década de 70, Otávio. Um dos grandes filmes do ano, talvez o melhor.
VINÍCIUS
Fincher ainda precisa comer muito feijão para ser comparado a Peckinpah e Aldrich. Talvez se ele voltar a ter a coragem da época de “Clube da Luta”. Sem querer agradar a Academia, como agora. Mas respeito sua opinião, claro. Abs!
Poxa, que texto maravilhoso, Otavio! Acho que você soube muito bem passar o que é “A Rede Social” e a importância dele, assim como a do Fincher para o cinema! Parabéns!
Beijos!
KAMILA
Eita! Obrigado, querida! Se você está dizendo, eu confio. Bjs!
Sem dúvida, de todos os textos que li em blogs diversos, o seu foi o melhor. Vai de encontro a minha percepção do filme também…
e, ah, gostei da participação, ainda que mínima, de Joseph Mazzello no filme. (O garotinho de “Jurassic Park” cresceu!) rs
Abraço
CRISTIANO
Obrigado! E, sim, Joseph Mazzello está voltando. Ele é um dos destaques da minissérie “The Pacific”, que acabou de chegar às lojas/locadoras.
Abs!
Belo texto, Otávio. Realmente, não cabe julgar Mark e ter compaixão por Eduardo Saverin.É apenas uma questão de negócios. Talvez por conta da envolvente atuação de Andrew Garfield na pele de nosso patrício iludido, tendemos a colocá-lo na situação do mocinho injustiçado.
Abçs
RAQUEL
Obrigado! E essa questão fica com o público, né? Culpa desse elenco fantástico! Bjs!
Nooossa…parece que só eu ainda não vi. Mas dessa próxima semana não passa…
=D
Demorei para escrever pq vi o filme apenas ontem… tenho a impressão que David Fincher está ficando vez mais maduro ao contar uma história, mas ao mesmo tempo está perdendo aquele estilo provocador que fazia parte do seu cinema até anos atrás. Gostei do filme, especialmente da proporção de que o protagonista amplia sua rede social pelo mundo ao mesmo tempo que tem cada vez menos amigos – e o final do filme é genial quando ele convida a ex para ser amiga no facebook. Gostei muito de Eisenberg no papel de um sujeito genial, ressentido, com problemas crônicos de auto-estima(e mais ainda porque parece uma versão mais velha de seu papel em A Lula e a Baleia, lembra?) cheguei a ter medo de seu olhar obscuro em várias cenas. Gostei mais ainda de Andrew Garfield – principalmente pq o vi em Doutor Parnassus e ele estava completamente diferente e criou ainda mais expectativa para o novo Spider Man. Agora, acho que o filme cai bastante por conta da presença (irônica) de Justin Timberlake, acho que ele não achou o tom do personagem e parece uma pedra no caminho da tensão entre Mark e Eduardo – quando na verdade deveria servir de lança chamas numa relação prestes a ruir. Quanto aos comentários de ser apenas negócios considero que não é só isso: é uma questão ética. Mas no duelo que se anuncia para o Oscar eu ainda prefiro A Origem.
JENNYFER
Depois me diz o que achou? Bjs!
WELLINGTON
Claro que é uma questão ética. Concordo. Só que vi o filme como uma aula de capitalismo e empreendedorismo. E dentro dessa visão, doa a quem doer, acredito que o destino de Eduardo (Andrew Garfield) no filme não tem nada a ver com o lado pessoal. Para Sean Parker (Justin Timberlake) e Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) foi uma decisão visando os negócios, o lucro. Claro que não aprovo, mas é o que acontece nas empresas. E Fincher retrata isso. Só acho que ele apenas “mostrou”, “observou”. Para falar de ética, faltou mais sentimento. A cena, inclusive, embora tenha sua tensão, poderia ser mais emocional, caso o diretor realmente quisesse criticar o sistema. Ou, de repente, a cena, que é a mais forte do filme, tenha sua emoção. Mas o resto do filme não tem. Então, pra mim, trata-se de uma aula de capitalismo e empreendedorismo. Abs!
Meu comentário não era uma discordância, mas uma concordância (rs)… desculpe se pareceu o contrário. No capitalismo e no empreendedorismo nós abermos que o principal objetivo não é a ética, mas o lucro a qualquer preço (na verdade eu só tentei complementar o comentário da Raquel), o que o filme melhor retrata é isso mesmo um mundo capitalista liderado por jovens cheio de idéias inovadoras. Concordo também que falta emoção em boa parte do filme, talvez Fincher quisesse ressaltar isso mesmo nas relações contemporâneas. Abs!
ERRATA: (oops eu queria teclar) “nós sabemos que o principal objetivo não é a ética” (na linha 3)
WELLINGTON
Não se preocupe! Eu havia entendido. Só quis dizer que, pessoalmente, considero uma questão ética. Mas vi o filme ilustrando esse cenário capitalista. E aí, meu caro, infelizmente, são apenas negócios. Abs!