dezembro 6th, 2010

A Rede Social

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A Rede Social
(The Social Network, 2010) tem ambições maiores do que ser um filme sobre a criação do Facebook. Seria idiotice pensar que é só isso. E é muito mais que a história de seu responsável rumo ao posto de mais jovem bilionário do mundo. Vejo A Rede Social ilustrando muito mais um grupo que uma geração necessariamente: os filhos de uma classe média (bem) alta pra cima.

Prefiro analisar o filme por dois pontos:

1) Dentro do mundo que nós vemos, A Rede Social é uma aula sobre capitalismo e empreendedorismo para leigos, especialmente os jovens que estudam para entrar (ou sair) da faculdade, sonhando com um futuro promissor. Também serve para exibição em grandes empresas, com seus cursos, palestras e atividades extracurriculares. Portanto, não chore por Eduardo Saverin (Andrew Garfield), o brasileiro cheio da grana, que investe seu dinheiro, sua amizade e sua confiança em Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e a criação do hoje tão famoso Facebook. Somente para ser traído pelo melhor amigo e sair da brincadeira com o rabo entre as pernas, enquanto indivíduos enraizados no sistema capitalista, como Sean Parker (Justin Timberlake), capturam novos produtos (o Facebook) e conduzem sutilmente seus verdadeiros (e ingênuos) criadores ao lucro imediato e à rede de grandes corporações que sustenta os EUA e o mundo. O que acontece com Eduardo é até curioso se lembrarmos da evolução do próprio Brasil nas últimas décadas, afinal ele deveria se vender e ajustar ao sistema se quisesse progredir. Como os EUA ensinaram ao mundo moderno, todos precisam de sua intervenção. Portanto, o que acontece com Eduardo neste filme não é nada pessoal. São apenas negócios. A fila anda. Já Mark Zuckerberg é o sonho desse sistema transformado em realidade: Ele é o gênio que cria e é absorvido pelos magnatas que só lucram e não se esforçam. Não importa se o Facebook é a melhor ou a pior invenção da História. O importante é lucrar, afinal existem consumidores para isso. E se Mark tinha 19 anos quando tudo isso aconteceu, a América precisa mesmo celebrar. É o império crescendo e se renovando rápido e cedo demais. Esqueça a discussão de que o garoto é apenas um garoto e deveria pensar em outras coisas. São apenas negócios.

2) Mark Zuckerberg se vê como um gênio. E ele é. Mas seu ego é tão grande que mais parece uma espécie de Deus moderno, que está acima dos outros em corpo e mente. E como ele resolve isso? Criando o Facebook à sua imagem e semelhança: No mundo real, Mark é anti-social, não consegue se relacionar com amigos e muito menos pode ter uma namorada. Sua cabeça está a mil por hora. Enquanto a pessoa à sua frente raciocina sobre o que acabou de ouvir, Mark já está em outro assunto. Como então ele pode se relacionar com as pessoas sem mudar seu jeito? Criando algo como o Facebook, que como o próprio diz em certo momento do filme, não sabe ainda para o que serve. Se Mark Zuckerberg é um Deus, o Facebook é o seu reino e todos nós somos seus filhos.

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Acha que fui irônico nesses dois pontos que me explicam A Rede Social? Será que somos tão vazios assim? Bom, não sou eu que digo nem David Fincher, que apenas expõe a situação. É o que também estou fazendo neste texto. Você julga.

Somente na última (e melhor) cena, lembramos que estamos mesmo num filme. É o momento “Rosebud”de Mark Zuckerberg. É quando vemos brotar valores básicos e importantes, quando o cinema se desprende da realidade e procura encantar. Ora, que eu saiba A Rede Social não é um documentário. Ali, David Fincher finalmente se impõe e desce do muro. Mesmo que sutilmente, ele escancara seu lado nessa história toda ao observar como é triste enxergar humanidade lá no fundo de Mark Zuckerberg, com sua alma presa (sem perspectiva de liberdade) à necessidade de se afirmar. Se sente pena do protagonista, Fincher sugere o quanto somos patéticos por segui-lo e acreditarmos nesta qualidade de comunicação.

David Fincher é um cineasta que levou uma nova geração a amar o cinema. Tem toda a atenção de seu público, então parece o cara certo para contar esse tipo de história. Niilista, já criticou o capitalismo e sua sociedade viciada em consumo na obra-prima chamada Clube da Luta. Ali, o diretor foi radical, exagerado. Se arriscou, ousou e foi genial abordando temas atuais. Mas não apontou o dedo para alguém ou algum específico sucesso americano. Em A Rede Social, Fincher põe os dois pés no chão e apenas observa as consequências dos medos de Tyler Durden, protagonista de Clube da Luta. Mas aponta o dedo.  Por isso é imparcial, frio. Entendo quando dizem que A Rede Social ilustra uma “geração”. Porque é só isso. Apenas ilustra. Nada mais. Antes de culpar Fincher de falta de ousadia, é até compreensível que o diretor não critique essa sociedade e seu mundo particular nem mesmo o Facebook e seus usuários. Seria um tiro no pé levar a raiva de Clube da Luta para este filme, porque de fato ainda estamos tentando entender o fenômeno das redes sociais e seus propósitos.

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Talvez o filme – feito pelo mesmo diretor – tivesse um impacto dramático maior se seu lançamento acontecesse anos depois. Fincher poderia sonhar e esquecer suas obrigações com os fatos. Como Platoon, lançado por Oliver Stone após a Guerra do Vietnã, ou A Lista de Schindler visto por Steven Spielberg bem depois do Holocausto, ou Boa Noite e Boa Sorte, narrado por George Clooney após o Macarthismo, ou O Povo Contra Larry Flynt e a liberdade de expressão já incorporada – filmes com seus assuntos devidamente compreendidos pelo planeta; Hollywood falando do passado para criticar o momento. Mas como A Rede Social foi feito em 2010, Fincher o entregou da melhor forma possível: acadêmico. É como se Fincher quisesse gritar que a Humanidade não deu certo e que estamos perdendo a guerra contra as máquinas. Mas alguma coisa o impede. Algo que não o segurou em Clube da Luta. Ou mesmo Seven, sua outra obra-prima. E não impediu os diretores citados neste parágrafo. Enfim, os anos ensinam.

O que não diminui a qualidade do texto verborrágico de Aaron Sorkin, da série The West Wing, que dá voz a vários personagens se atropelando em palavras, mas que jamais se entendem. Um roteiro perfeitamente compreendido e vivido pelo fabuloso elenco que destaca Jesse Eisenberg, o nerd fechadão que se encaixa com sobras na personalidade de Mark Zuckerberg pretendida por Fincher e Sorkin. Assim como Justin Timberlake (quem diria?), o vilão por fora, mas covarde por dentro. Genial nos negócios, mas com uma mentalidade de um alface para assuntos pessoais. Seria o Zuckerberg de amanhã? Mas contra todos os gostos, prefiro elogiar Andrew Garfield, o novo Homem-Aranha do cinema, como Eduardo Saverin. A única emoção existente em A Rede Social nasce enrustida e morre extravasada com este personagem. Sua construção, execução e conclusão são brilhantes. Destaque também para a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, a mais original dos últimos anos ao lado de Sangue Negro e A Origem. Como os jovens deste filme, transmite inconsequência, angústia, desejos reprimidos, reclusão e falta ou total desconhecimento do que é responsabilidade.

(Otavio Almeida)

A Rede Social (The Social Network, 2010)
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin (Baseado no livro “Bilionários Por Acaso”, de Ben Mezrich)
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Max Minghella, Joseph Mazzello e Rashida Jones

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