Enterrado Vivo

Paul Conroy (Ryan Reynolds) trabalha como motorista de caminhão entregando suprimentos no Iraque. Após uma emboscada, seus amigos são mortos. Ele sobrevive, mas é capturado. O detalhe importante: Você não vê nada disso. Após cerca de dois minutos com a tela do cinema completamente escura, ouvindo apenas a respiração do protagonista e seus gritos de horror, a plateia vê o filme começar com Paul Conroy acordando dentro de um caixão, na companhia de um isqueiro e um celular com pouca bateria. Ele faz ligações para pedir ajuda. Ao explicar sua situação, entendemos como ele chegou até ali. Não há flashbacks. E a câmera do diretor espanhol Rodrigo Cortés não sai do caixão. Enterrado Vivo (Buried, 2010) é um filme nascido de uma ideia simples, feito com recursos modestos e, ainda assim, capaz de arrebatar o espectador com diferentes emoções.
Ser enterrado vivo no cinema não é novidade, afinal Frank Darabont fez um filme para a TV chamado Buried Alive, enquanto Quentin Tarantino virou referência no assunto com uma simples sequência de Kill Bill – Volume 2. Mas se todos os roteiros já foram feitos, o estreante Rodrigo Cortés sabe que temas podem ser explorados com criatividade, algo que pode e deve sair da exploração do cérebro humano. Um fiapo de narrativa pode capturar o espectador e atingir níveis de brilhantismo – a arte e a inteligência são capazes de driblar orçamentos reduzidos.
Ter Ryan Reynolds como protagonista ajuda muito um filme pequeno como este. E olha que o cara ainda nem vestiu a roupa do Lanterna Verde. Vamos ser justos: Se Ryan Reynolds não dá conta do recado, Enterrado Vivo não funciona. Por mais que o filme conte com um diretor promissor, além de um roteiro esperto, assinado pelo americano Chris Sparling. Felizmente, ele acerta o tom. Embora não seja um ator de primeira linha, Ryan Reynolds está bem no papel, segurando a mão do espectador nesta viagem claustrofóbica, tensa, angustiante. E sem óculos 3-D para alcançar tal resultado emocional – você vai torcer, rir, sofrer e talvez até chorar com Paul Conroy. Repare como o diretor Rodrigo Cortés, aliado à fotografia de Eduard Grau (Direito de Amar) explora o caixão de vários ângulos, dando a impressão de que o lugar não é tão apertado e fechado assim – são delírios que permitem uma aula ao exemplificar o exercício dos vários tipos de planos cinematográficos. Essa ligação com o espectador é evidente, passando longe de convicções políticas, levando-o a ser talvez o único a se preocupar de verdade com Conroy. Mas há uma discussão social inserida aí, que reflete o cinismo dos tempos atuais.
Por mais que algumas situações pareçam insólitas, Rodrigo Cortés não entrega milagres ao seu protagonista, ou soluções fantásticas que só acontecem no cinema. Para sair dali, Paul Conroy terá de lidar com a primeira ideia que surgir em sua cabeça. Assim como faríamos na mesma situação. Se o próximo passo de Conroy não é exatamente o que você faria naquele instante, a desaprovação é imediata com esperadas reações como “Ah, que burro!”, “Não, seu idiota!”, ou “Mas que imbecil!” Não culpe a inteligência do personagem. Isso vem da intolerância humana, algo que já é natural em cada um de nós.
A verdade é que com pouco tempo para pensar e agir, você talvez fizesse 90% das tentativas de Paul Conroy. O diretor analisa o indivíduo agindo sozinho numa sensação desesperadora. E critica a dependência que temos do sistema ou mesmo das pessoas. Hoje em dia, somos reféns dos “benefícios” oferecidos pelas grandes corporações. O que dizer então das pessoas mais próximas, que sempre nos ajudam? Muita gente prefere esperar pelo socorro; pelo príncipe encantado ou um super-herói. Rodrigo Cortés acredita que qualquer um pode agir, com suas próprias forças, sem esperar sentado pela ajuda dos outros, que podem ter outras prioridades na hora em que você mais precisa.
Não há dúvidas de que o filme é pessimista. Rodrigo Cortés não tem fé na Humanidade. Mas restabelece nos cinéfilos incrédulos, tristes com a atual safra, a fé na sétima arte ao lembrar o que é o prazer de assistir a um bom filme.
(Otavio Almeida)
Enterrado Vivo (Buried, 2010)
Direção: Rodrigo Cortés
Roteiro: Chris Sparling
Elenco: Ryan Reynolds



Perfeito


Assisti o trailer e fiquei sufocada c/ apenas alguns minutos de exibição do q/ passa Paul Conroy no filme. Parece ser uma produção bacana, mas não sei se conseguirei assistir até o final.Tenho claustrofobia e alguns traumas com caixão, e o filme parece bem convinvente no assunto!!!!
abçs
As sennsações que o filme desperta é a prova de que o cinema não precisa de 3D para envolver o espectador. Um longa bem produzido é capaz de nos tragar para a narrativa em poucos minutos.
Não tenho coragem de assistir esse filme, deve ser angustiante!!! Mesmo a crítica elogiando tanto, sorry!
As maiores surpresas de 2010 no gênero suspense/terror foram este filme e O Demônio.
E falando em Ryan Reynolds, é uma vergonha a divertídissima comédia Paper Man não ter vindo pra cá:
http://www.imdb.com/title/tt0437405/
Seu texto está ótimo!
Eu ainda estou em choque com o filme – e olhe que tem dias que vi. Acho que é um grande filme, principalmente na maneira técnica que é perfeito. Concordo contigo. A fotografia, principalmente o modo como é filmado, a forma de a câmera se posicionar e captar a tensão crescente. Incrível como o filme não perde a tensão ou fica no tédio, pelo contrário, é mais suspense que muitos filmes por aí…e Ryan está magnifíco, ao meu ver, sua melhor atuação.
Num mundo mais permissível, o filme poderia ter indicações ao Oscar, por que não? Gostei mesmo.
A cena da C**** é muito tensa…uma das mais tensas que já vi no cinema. Gosto do momento que ele conversa com a mãe…e outras cenas que não vou contar aqui.
Não acho o filme pessimista assim como você diz, achei bem real e a situação que ele se encontra só poderia levá-lo para aquele fim…
Abraço!