dezembro 30th, 2010

O ano para a TV americana

Vinícius Pereira

O CASO CONAN VS. LENO

O renome da TV americana não é limitado às séries. Na verdade, um dos casos mais comentados de 2010 veio justamente de programas que não são exatamente populares em terras brasileiras. Tudo começou em 2009, quando o apresentador de talk show Conan O’Brien (então do Late Night) passou a ocupar a cadeira que pertenceu a Jay Leno por quase duas décadas no famoso programa da NBC, The Tonight Show – a Leno, foi oferecido um novo programa no horário nobre da emissora. De início, a mudança até mostrou-se acertada quando a estreia de The Jay Leno Show atraiu quase 18 milhões de espectadores, mas o canal certamente não previa que esse número caísse para apenas 6 milhões já na segunda semana do programa (pelo horário entrar em conflito com séries de sucesso). Isso não somente diminuiu os números alcançados pela programação local que entrava no ar na sequência, como foi considerado um dos principais motivos para a grande queda de audiência observada no Tonight Show, agora apresentado por Conan.

Obviamente a NBC não estava satisfeita e em Janeiro foi iniciado um conflito de grandes proporções que inclusive foi assunto recorrente de talk shows de outras emissoras, como o Late Show with David Letterman. A intenção inicial do canal era tirar Jay Leno do horário nobre, colocando seu programa às 23:35 (após as notícias locais), e mover o show de Conan para as 00:05, o que também diminuiria em meia-hora o programa seguinte, Late Night with Jimmy Fallon. Conan O’Brien prontamente recusou a proposta, em respeito à tradição do Tonight Show em ser exibido depois da programação local e também para não interferir no programa de Jimmy Fallon. Após muitas negociações e especulações da mídia, foi divulgado que a NBC e Conan chegaram a um acordo de $45 milhões para sua saída da emissora. Em seu último programa, que foi ao ar em 22 de Janeiro, Conan não somente agradeceu ao massivo apoio do público (responsável pelas campanhas “I’m with Coco” e “Team Conan”) e figuras públicas, como fez um discurso que certamente pode ser considerado um dos momentos marcantes da TV em 2010.

Ao fim, o conflito que gerou até um livro, não só manchou a credibilidade da NBC, como a imagem de Jay Leno. Retornando ao Tonight Show, Leno enfrentou críticas do público (e até mesmo de outros comediantes), além de ver seu show ficar atrás na audiência para David Letterman pela primeira vez desde a sua volta. Conan, que estreou em Novembro seu novo programa (agora na TBS), saiu intacto do conflito e, mais que isso, provou que há honestidade no mundo da TV.

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O FIM DO LARRY KING LIVE

Por falar em talk shows, não podemos esquecer que 2010 também marcou o fim do Larry King Live após 25 anos de exibição. King, considerado um dos apresentadores mais reconhecidos dos Estados Unidos, anunciou em Junho que deixaria o programa, apesar de pretender continuar apresentando de forma ocasional especiais na CNN. Larry King Live não só foi o show com maior duração na história da emissora, como o mais assistido. O último programa, exibido em 16 de Dezembro, contou com a participação de Barack Obama e Bill Clinton, além de diversos jornalistas renomados agradecendo a King pela grande contribuição ao longo dos anos. No seu discurso final, a sua última palavra não foi um “adeus”, mas um “até logo” em outro marcante momento do ano.

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O ADEUS A SÉRIES CONSAGRADAS

Não é tão raro assim ver séries que alcançam um sucesso tão notável que acabam transcendendo a sua própria mídia e invadem outros segmentos. Entretanto, são poucos que podem realmente dizer que causaram alguma mudança no modo de fazer televisão ou na maneira como a mesma é vista. Lost e 24 Horas certamente pertencem ao segundo grupo. Foi através das duas que as séries de TV passaram a se popularizar nessa década, um fenômeno que cresce a cada dia. Ambas também se enquadram no típico caso de série “até quem não gosta, comenta” – não que esses superem os fãs. Encerradas em sua sexta e oitava temporadas, respectivamente, ambas não chegaram ao final com altos índices na audiência (mas satisfatórios para seus estágios), mas ficarão marcadas para sempre na história da televisão.

2010 também marcou o fim de Law & Order, série policial que foi a mais longa do gênero (foram 20 anos no ar) e deu origem a uma franquia de sucesso com quatro novos shows, influenciando muitos outros. A comédia Ugly Betty também foi encerrada devido à baixa audiência, mesmo chegando ao seu melhor momento. Depois de uma tentativa frustrada de renovação em seu nono ano, Scrubs também deixou milhões de espectadores “órfãos”, ao passo que Cold Case foi encerrada após sete temporadas de sucesso – mesmo número de The Closer, a qual ainda tem uma temporada completa para ser exibida em 2011. Como nem tudo é tristeza, vale lembrar que em 2010 vimos o retorno de Futurama, animação originalmente exibida pela Fox (até 2003) que ganhou nova vida no Comedy Central.

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A PIOR TEMPORADA EM ANOS

2010 não só marcou o fim de grandes séries, como o início de algumas outras que, em sua maioria, não possuem o mesmo potencial para virarem clássicas. Uma das maiores expectativas certamente foi depositada em The Event, mais uma série que foi erroneamente chamada de “a nova Lost”. Seus bons números nos primeiros episódios (que caíram vertiginosamente em seguida) foram suficientes para a desesperada NBC encomendar uma temporada completa para o show, mas a proposta da série soa tão enganosa quanto a de Heroes e FlashForward – outros dois programas que tentaram, sem sucesso, repetir o feito de Lost. A emissora, por sinal, vai de mal a pior. Cancelou seu drama de tribunal Outlaw após o desastroso resultado dos três episódios como ainda fracassou terrivelmente em chamar a atenção do público com duas de suas maiores apostas: a série de ação policial Chase, produzida por Jerry Bruckheimer, e Undercovers, criada por ninguém menos que J.J. Abrams. Nem os números relativamente satisfatórios de Outsourced são capazes de apagar a má impressão deixada por essa comédia.

Por falar em emissoras fracassadas, não há como esquecer que a ABC passa por seu pior momento criativo em anos. Não só cancelou duas de suas estreias logo nos primeiros episódios (My Generation e The Whole Truth) como vê as suas outras apostas sofrerem na audiência (Detroit 1-8-7 e No Ordinary Family). Já a Fox foi dona do título nada lisonjeiro de ser a primeira emissora a cancelar uma série na temporada. Lone Star, um belo drama que estava além da compreensão do público comum (e teria melhor chance na TV paga), foi retirada do ar com apenas dois episódios exibidos. Já Running Wilde, nova do criador de Arrested Development, também foi merecidamente cancelada. Novamente, a única emissora que parece ter algum sucesso na audiência é a CBS, mas quando um canal tem mais de 10 milhões de espectadores com shows como Shit My Dad Says, é porque algo está muito errado.

Mas nem tudo são más notícias. Como já foi falado aqui, algumas novas séries (especialmente da TV paga) fizeram valer 2010. Dos canais acima, talvez a única que possa ser considerada bem-sucedida (comercialmente e criativamente) é Raising Hope, que pegou carona no sucesso de Glee (ela é exibida logo após a série musical) e para nossa sorte se mantém estável na audiência. Da TV a cabo, vieram as já celebradas Boardwalk Empire (HBO), The Walking Dead (AMC) e The Big C (Showtime), as quais tornaram o segundo semestre do ano mais suportável – e aqui vale uma menção a Treme (HBO), que ao contrário das demais estreou no início desse ano, e às já canceladas Rubicon (AMC) e Terriers (FX). 2010 certamente não foi dos melhores anos para as séries, porém ao que indica 2011 pode mudar esse cenário. É nisso que acreditamos e torcemos.

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