dezembro 23rd, 2010

Tron: O Legado

Tron_Olivia Wilde
Em 1982, Tron: Uma Odisseia Eletrônica pegou carona na onda crescente dos games, que tomou conta da garotada (e dos nerds) naquela década, principalmente com os arcades e o Atari. A curiosidade em torno da computação da idade da pedra também contribuiu para o sucesso do filme da Disney. O estúdio ousou ao utilizar computação gráfica para criar um mundo virtual, de design arrojado (para a época), que vislumbrava o futuro do cinema e da tecnologia a serviço do homem no dia a dia. A história criada e dirigida por Steven Lisberger, no entanto, era tão inocente quanto estúpida. Estava na cara que a saga de Kevin Flynn (Jeff Bridges), que entrava neste mundo eletrônico para enfrentar tanques, naves e vilões fluorescentes, era menos importante que os efeitos visuais e a intenção de contribuir para a evolução tecnológica do cinema.

18 anos mais tarde, a Disney decidiu voltar a este universo. Em vez de refilmar (como de praxe), felizmente, o estúdio resolveu dar sequência à história. Em Tron: O Legado (Tron Legacy, 2010), dirigido por Joseph Kosinski e produzido por Steven Lisberger, os efeitos visuais foram atualizados, Jeff Bridges envelheceu e melhorou muito como ator, mas ao contrário do filme original, não há aqui nenhum pensamento vislumbrando o futuro. Isso quer dizer que Tron: O Legado foi feito somente para faturar uma grana preta, com a ajuda do caríssimo ingresso das sessões em 3-D e conquistar uma nova geração com uma possível franquia. Se Uma Odisseia Eletrônica olhava para frente, Legado é o presente. E no pior dos sentidos.

Começando pelo novo protagonista, Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho de Kevin, inexpressivo como um poste de luz, que brilha somente por causa dos figurinos extravagantes. É uma vergonha como representante de um fictício herdeiro de Jeff Bridges. O roteiro canastra lhe dá diversas frases de efeito deslocadas e horripilantes, que o ator parece adorar dizê-las. Sylvester Stallone escreve melhor e sabe expressar esses momentos com mais classe e dignidade. Não é o fim da linha para Garrett Hedlund, claro. Esse é o futuro de Hollywood. Portanto, não culpe o menino. Michael Bay, Stephen Sommers, esse povo vai adorar trabalhar com ele.

Pelo menos, Legado honra o original em termos de roteiro, história. A trama e os diálogos são tão toscos e esquecíveis quanto o que vimos no filme de 82. Mas Uma Odisseia Eletrônica ousou visualmente em sua época. Já Legado, simplesmente aproveita os efeitos visuais desenvolvidos, aperfeiçoados nos últimos anos por James Cameron, Peter Jackson, George Lucas e tantos outros grandes nomes. Isso mesmo: não há novidade alguma neste quesito. Aqueles que ficam deslumbrados facilmente ficarão de queixo caído por alguns minutos assim que Sam Flynn entrar no universo eletrônico, onde reencontrará seu pai e um novo inimigo, que ameaça dominar não somente esse mundo colorido, mas também a nossa realidade. Porém, aposto que, logo após a sequência das motos, até o espectador nerd começará a olhar no relógio, sentindo um pouco de cansaço de tanto azul fluorescente no meio da escuridão. É impressionante como o filme tem a capacidade de arregalar os nossos olhos num primeiro instante e, em pouco tempo, encher o saco. Outro exemplo é a trilha dançante do Daft Punk, que soa “legal” logo de cara, mas que rapidamente transforma o filme numa balada ambulante. Aliás, o filme merece inúmeras exibições em baladas madrugada adentro, no volume máximo. Esse seria o seu legado.

Tron_Visual Effects
Mas até que não é um desastre, afinal temos Jeff Bridges, que dá fôlego ao filme. Quando ele entra em cena, não diria que o filme cresce, mas resiste bravamente. O mesmo serve para a bela e talentosa Olivia Wilde, que encanta em todas as suas cenas como Quorra, peça fundamental na guerra contra o vilão do filme. Já Michael Sheen, propositalmente caracterizado de forma ridícula, dá um jeito miraculoso de injetar alguma diversão ao filme. E a história, embora sofrível, não é contada em ritmo de videoclipe, com cortes rapidíssimos, por incrível que pareça. O que é bom. Nem mesmo nas cenas de ação. Nem mesmo com a música do Daft Punk para dar um empurrãozinho nessa área. O diretor Joseph Kosinski, pelo menos, tem calma para narrar os acontecimentos e explicar seu filme. Mesmo que os intervalos na ação causem um certo incômodo numa geração acostumada com poucos diálogos em filmes do gênero.

Tron: O Legado é um exemplo que gosto de citar àqueles que têm preconceito contra filmes como Avatar. Muitos acham que a aventura de James Cameron tem roteiro fraco, história boba e só vale pelos efeitos (aquele discurso básico ou padrão). Mas filmes como Transformers 2, Tron: O Legado e Sharkboy & Lava Girl estão aí pra mostrar a esse tipo de opinião que há vida inteligente em Hollywood, que deve ser valorizada. Em qualquer gênero.

Não é o caso de Tron: Uma Odisseia Eletrônica, de 1982, que, no mínimo, imaginou o futuro. E contribuiu para a evolução do cinema.

(Otavio Almeida)

Tron: O Legado (Tron Legacy, 2010)
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Edward Kitsis e Adam Horowitz
Elenco: Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Olivia Wilde, Bruce Boxleitner, James Frain, Beau Garrett e Michael Sheen

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