janeiro 17th, 2011

Além da Vida

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Você já deve ter lido ou escutado pensamentos como “A morte não é o fim, mas um novo começo”. Acredito que a maioria interprete isso como um comentário otimista sobre o que acontece com aqueles que partiram, um devaneio sobre a vida após a morte. Mas para Clint Eastwood, em Além da Vida (Hereafter, 2010), o pensamento está direcionado àqueles que ainda estão vivos, mas que acabaram de perder um ente querido. Para o cineasta, este “novo começo” é aqui e agora. E é uma dica estimulante, até porque muitos que passam por isso se entregam a um natural e compreensível período de sofrimento e dor.

Stanley Kubrick disse certa vez que filmes de terror são otimistas, afinal comprovam que há vida após a morte. O longa de Clint Eastwood está longe de se encaixar no gênero, mas mantém essa aura otimista. Por mais que flerte com o sobrenatural, ele está interessado nos vivos. Mas sua habilidade como contador de histórias é inegável ao ponto que consegue manter interessado tanto o espectador cético quanto os que acreditam no Céu e no Inferno.

Clint olha para três situações diferentes, guiadas por Marie LeLay (Cécile De France), uma jornalista francesa que escapa da morte durante o massacre do tsunami de 2004, que não consegue se desprender de tal experiência traumática; além do americano George Lonegan (Matt Damon), um médium que acredita ter uma maldição e não um dom, e o menino inglês Marcus (Frankie McLaren e George McLaren), que perde seu irmão gêmeo – e único companheiro – em um acidente estúpido.

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Tanto o tsunami quanto a tragédia envolvendo o menino são fatalidades que acontecem sem aviso prévio em nossas vidas. Estamos tão vivos, quando somos jovens, que esquecemos que podemos morrer a qualquer segundo. E escapar da morte é uma experiência que costuma deixar feridas que jamais cicatrizam. É o que acontece com Marie e Marcus. No caso de George, ele se recusa a ganhar dinheiro com seus “poderes”, porque passou tanto tempo fazendo isso, em contato com o mundo dos mortos, que esqueceu o que é estar vivo. Numa cena fantástica, ao lado de uma nova amiga, Melanie (Bryce Dallas Howard), que pode levá-lo a viver um relacionamento normal após muito tempo, George degusta diversos sabores durante uma aula de culinária com os olhos vendados. Mesmo sem ver o que está provando, ele vivencia sensações extraordinárias com a força do paladar. E tenta fazer com que Melanie sinta o mesmo. De certa forma, há um certo erotismo nesta cena – Clint ilustra sensações que comprovam que estamos vivos.

O filme tem outras três sequências soberbas e o destaque vai para a assustadora tsunami. A sensação de horror, desespero, a grandiosidade da situação, com a morte chegando para roubar a nossa vida, toda a sequência destroi qualquer filme da série Premonição. E é melhor que o 2012 de Roland Emmerich inteiro. Há também a cena do metrô, protagonizado pelo garoto, que é de arrepiar, você vai ver. São duas sequências que não deixam dúvidas de que Clint Eastwood sabe dirigir qualquer coisa. É um cineasta que acredita no cinema como uma viagem ao lado de lá da tela. Mas a melhor das cenas de Além da Vida não tem sustos nem efeitos visuais e mostra o quanto Clint está focado na história e em seus atores – e o quanto roteiro e elenco são importantes na realização de um filme. É simples: George finalmente encontra Marcus, que quer se comunicar com o irmão falecido. Ao perder contato com a alma do menino, George vê nos olhos de Marcus a decepção. Imediatamente, ele inventa uma história para o garoto, para que este encontre a paz em vida. É tocante como Clint arranca essa emoção da sutileza. Um gesto que aproxima os dois personagens da vida. Mais tarde, você vai ver, o menino retribui o carinho que resulta numa cena final que beira o sublime.

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Mesmo assim, Além da Vida está longe da perfeição. Um filme não se sustenta somente com cenas muito bem dirigidas. É o roteiro de Peter Morgan (A Rainha, Frost/Nixon, O Último Rei da Escócia) que atrapalha, com problemas evidentes no desenvolvimento das situações e até mesmo nos diálogos pobres fora do segmento conduzido por Matt Damon. Apoiado em clichês, o politizado roteirista, inclusive, admitiu não acreditar na vida após a morte. Talvez não tenha se inspirado fora de seu habitat, o que é compreensível.  Mas faz o filme perder pontos.

Também acho que Clint não acredite no além da vida. Mas, como diretor, ele se esforça para conduzir as três histórias até seus inevitáveis encontros. E eles acontecem de forma plausível, suave, sem exageros. Mas até chegar lá, fica difícil conduzir a trama de Marie exigindo total atenção do público. Somente a cena do tsunami vale essa passagem do filme. A trama do menino é menos desinteressante que a da jornalista francesa, mas não tem a força da situação vivida pelo personagem de Matt Damon, que está ótimo.

Bravamente, Clint faz o que pode para segurar o filme, que, no fim, parece até uma produção europeia no que diz respeito ao ritmo. Mesmo com a falta de paixão no texto preguiçoso de Peter Morgan, o diretor acaba escrevendo certo por linhas tortas. Afinal, Clint não erra.

(Otavio Almeida)

Além da Vida (Hereafter, 2010)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Matt Damon, Cécile de France, Bryce Dallas Howard, Frankie McLaren e George McLaren

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