Além da Vida

Você já deve ter lido ou escutado pensamentos como “A morte não é o fim, mas um novo começo”. Acredito que a maioria interprete isso como um comentário otimista sobre o que acontece com aqueles que partiram, um devaneio sobre a vida após a morte. Mas para Clint Eastwood, em Além da Vida (Hereafter, 2010), o pensamento está direcionado àqueles que ainda estão vivos, mas que acabaram de perder um ente querido. Para o cineasta, este “novo começo” é aqui e agora. E é uma dica estimulante, até porque muitos que passam por isso se entregam a um natural e compreensível período de sofrimento e dor.
Stanley Kubrick disse certa vez que filmes de terror são otimistas, afinal comprovam que há vida após a morte. O longa de Clint Eastwood está longe de se encaixar no gênero, mas mantém essa aura otimista. Por mais que flerte com o sobrenatural, ele está interessado nos vivos. Mas sua habilidade como contador de histórias é inegável ao ponto que consegue manter interessado tanto o espectador cético quanto os que acreditam no Céu e no Inferno.
Clint olha para três situações diferentes, guiadas por Marie LeLay (Cécile De France), uma jornalista francesa que escapa da morte durante o massacre do tsunami de 2004, que não consegue se desprender de tal experiência traumática; além do americano George Lonegan (Matt Damon), um médium que acredita ter uma maldição e não um dom, e o menino inglês Marcus (Frankie McLaren e George McLaren), que perde seu irmão gêmeo – e único companheiro – em um acidente estúpido.

Tanto o tsunami quanto a tragédia envolvendo o menino são fatalidades que acontecem sem aviso prévio em nossas vidas. Estamos tão vivos, quando somos jovens, que esquecemos que podemos morrer a qualquer segundo. E escapar da morte é uma experiência que costuma deixar feridas que jamais cicatrizam. É o que acontece com Marie e Marcus. No caso de George, ele se recusa a ganhar dinheiro com seus “poderes”, porque passou tanto tempo fazendo isso, em contato com o mundo dos mortos, que esqueceu o que é estar vivo. Numa cena fantástica, ao lado de uma nova amiga, Melanie (Bryce Dallas Howard), que pode levá-lo a viver um relacionamento normal após muito tempo, George degusta diversos sabores durante uma aula de culinária com os olhos vendados. Mesmo sem ver o que está provando, ele vivencia sensações extraordinárias com a força do paladar. E tenta fazer com que Melanie sinta o mesmo. De certa forma, há um certo erotismo nesta cena – Clint ilustra sensações que comprovam que estamos vivos.
O filme tem outras três sequências soberbas e o destaque vai para a assustadora tsunami. A sensação de horror, desespero, a grandiosidade da situação, com a morte chegando para roubar a nossa vida, toda a sequência destroi qualquer filme da série Premonição. E é melhor que o 2012 de Roland Emmerich inteiro. Há também a cena do metrô, protagonizado pelo garoto, que é de arrepiar, você vai ver. São duas sequências que não deixam dúvidas de que Clint Eastwood sabe dirigir qualquer coisa. É um cineasta que acredita no cinema como uma viagem ao lado de lá da tela. Mas a melhor das cenas de Além da Vida não tem sustos nem efeitos visuais e mostra o quanto Clint está focado na história e em seus atores – e o quanto roteiro e elenco são importantes na realização de um filme. É simples: George finalmente encontra Marcus, que quer se comunicar com o irmão falecido. Ao perder contato com a alma do menino, George vê nos olhos de Marcus a decepção. Imediatamente, ele inventa uma história para o garoto, para que este encontre a paz em vida. É tocante como Clint arranca essa emoção da sutileza. Um gesto que aproxima os dois personagens da vida. Mais tarde, você vai ver, o menino retribui o carinho que resulta numa cena final que beira o sublime.

Mesmo assim, Além da Vida está longe da perfeição. Um filme não se sustenta somente com cenas muito bem dirigidas. É o roteiro de Peter Morgan (A Rainha, Frost/Nixon, O Último Rei da Escócia) que atrapalha, com problemas evidentes no desenvolvimento das situações e até mesmo nos diálogos pobres fora do segmento conduzido por Matt Damon. Apoiado em clichês, o politizado roteirista, inclusive, admitiu não acreditar na vida após a morte. Talvez não tenha se inspirado fora de seu habitat, o que é compreensível. Mas faz o filme perder pontos.
Também acho que Clint não acredite no além da vida. Mas, como diretor, ele se esforça para conduzir as três histórias até seus inevitáveis encontros. E eles acontecem de forma plausível, suave, sem exageros. Mas até chegar lá, fica difícil conduzir a trama de Marie exigindo total atenção do público. Somente a cena do tsunami vale essa passagem do filme. A trama do menino é menos desinteressante que a da jornalista francesa, mas não tem a força da situação vivida pelo personagem de Matt Damon, que está ótimo.
Bravamente, Clint faz o que pode para segurar o filme, que, no fim, parece até uma produção europeia no que diz respeito ao ritmo. Mesmo com a falta de paixão no texto preguiçoso de Peter Morgan, o diretor acaba escrevendo certo por linhas tortas. Afinal, Clint não erra.
(Otavio Almeida)
Além da Vida (Hereafter, 2010)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Matt Damon, Cécile de France, Bryce Dallas Howard, Frankie McLaren e George McLaren



Perfeito


É, Otávio, Clint não erra.
Clint é um mestre. Não só faz desse filme maior do que ele é, como consegue distrair alguns dos erros do roteiro. Destaque para a cena do tsunami, brilhante.
Eu acho que Clint Eastwood é Benjamin Button.
Gostei muito do filme, me identifiquei com o tom emocional – e também espiritual – do filme. Só acho que poderia ter desenvolvido mais a história dos personagens. Eu acho que foi um ponto fraco, visto que conhecemos muito pouco deles, contudo. E concordo, a história menos interessante é a da jornalista, na minha opinião.
É um filme com uma narrativa BEM lenta, acho que por isso muita gente anda torcendo o nariz por aí.
Me emocionei com Frankie McLaren e George. Foi a história mais comovente. E, de fato, o tsunami da cena inicial é impactante.
VINÍCIUS
Amém!
RODRIGO
Falou e disse! A cena do tsunami deve terminar 2011 como uma das melhores do ano. Abs!
PAULO RICARDO
Só que Clint é mais bonito. Abs!
CRISTIANO
Ô jornalista chatinha, né? Abs!
Esses dias, no Twitter, Pablo Villaça comentou que o público costuma perdoar erros de certos diretores só porque eles são conceituados e que, se esses mesmos erros fossem cometidos por outros diretores, o público faria um bombardeio. Sinto que isso acontece com Clint, um diretor protegido demais. “Além da Vida”, pelo menos pra mim, é o cúmulo da inexpressividade dele. Fiquei impressionado com a montagem tão preguiçosa e com a história morna. Uma completa decepção!
MATHEUS
Não protejo o Clint. Só gostei do filme e tive uma opinião contrária a sua. Eu, por exemplo, adoro David Fincher e os Irmãos Coen, mas dei duas estrelas para “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Se o Pablo Villaça disse isso é porque ele protege algum diretor. Freud explica. Abs!
Otávio, estou “sangrando” de vontade de assistir a esse filme. Ainda não estreou aqui em minha cidade. Clint é um Monstro! E quem disser o contrário, é favor não falar mais comigo. Rsrs!
Amplexos…
MAGNO
O filme é bom. Não está entre os melhores do Clint. Isso pelos motivos que apontei no texto. Mas é bom. E entendo que não agrade a alguns cinéfilos. Se nem o “melhor filme do ano” (A Rede Social) agradou a todos… Normal. Abs!
Não discuto sobre a versatilidade deste monstro chamado Eastwood – mas como venho de duas decepções dele (Invictus e A Troca, gostando medianamente de Gran Torino), minhas expectativas estão em pleno controle.
A temática de ALÉM DA VIDA me encanta, na verdade – e o filme parece misturar uma série de elementos bem distintos (drama, horror, misticismo). Porém, você fala que Morgan não dá conta do recado.
Vou ter de ver, e rápido.
WEINER
Hehe, eu, por exemplo, não me encanto necessariamente com o tema de “Além da Vida”. Mas gostei do filme. E como Clint o conduz, apesar dos problemas de roteiro. Abs!
Eu não entendo o que as pessoas veem em Pablo Villaça, rs.
Bom, de qualquer forma, preciso conferir rápido! É Clint! Isso basta, pelo menos pra mim!
Weiner, cara, eu acho Invictus perfeito! Perfeito mesmo! Merecia muito mais estar entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme 2010 que quase meia dúzia dos concorrentes (Um Sonho Possível e Amor sem Escalas! Pelo amor de Deus!).
E A Troca eu também acho muito bom, apesar de não ser perfeito, mas decepção, nunca!
Gran Torino é espantosamente bom!
Clint é Clint…
Amplexos Otávio. E Weiner…
Otávio, achei um dos melhores filmes do Clint nos últimos anos junto de Gran Torino, contados a partir de Sobre Meninos e Lobos. Mas Além da Vida é até melhor que esse, creio, por enquanto.
CRISTIANO
Quem???
MAGNO
Eu acho que “A Troca” está no nível de “Além da Vida”. Um Clint menor, mas sempre bom.
PEDRO
Melhor que “Gran Torino” ou “Sobre Meninos e Lobos”? Meu favorito dele é “Sobre Meninos e Lobos”. Abs!
Melhor que Sobre Meninos e Lobos, que Gran Torino não.=. Vou postar um top 5 dele lá no blog em breve. Abs, tchê!
PEDRO
O Sr. é polêmico, mas tem visão! Abs!
Vou conferir! pelo trailer, vale a pena.
RAQUEL
Vale sim! Clint é Clint! Bjs!