janeiro 27th, 2011

Inverno da Alma

Jennifer Lawrence
Nas montanhas Ozarks, no estado de Missouri, a diretora e roteirista Debra Granik, adaptando o livro de Daniel Woodrell, pinta uma das comunidades mais assustadoras do cinema em Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010). Não sei, mas talvez seja culpa do frio. Talvez seja culpa do isolamento da civilização moderna. Talvez seja culpa da ausência de leis. Ou de autoridades capazes de impor essas leis. Talvez seja culpa de Deus, que pode ter esquecido ou abandonado este lugar onde os moradores fazem suas próprias regras. Até a polícia tem medo deles.

Neste cenário desolado, cinzento, aparentemente morto, sem alma, frio, e de tensão crescente e ininterrupta, onde ou as mulheres são submissas ou tão monstruosas quanto os homens, somos apresentados a Ree Dolly (Jennifer Lawrence), uma bela jovem de 17 anos, mas castigada pelo trabalho, pela responsabilidade que chegou cedo demais, pelo tempo, pelo ar, pela maldade ao redor. Seu sonho é ingressar no exército dos EUA, a única chance que vislumbra para deixar esse lugar para sempre. Mas seu pai, em liberdade condicional, desapareceu. Pior: Colocou sua casa como garantia de que voltará para prestar depoimento. Lá, Ree vive com sua mãe inválida e os dois irmãos pequenos. Se não encontrar o pai em cerca de uma semana, Ree e sua família perderão a casa. Como ela mesma diz, passarão a viver como animais.

Nessa terra de ninguém que poderia muito bem ter saído da imaginação de Cormac McCarthy, Ree é uma heroína moderna. Em sua jornada, caminha no frio, bate de porta em porta, encontra os tipos mais bizarros. Ree tem noção do perigo que é cruzar com essa gente que vive em volta de sua casa. Só não sabe disso quem está vendo o filme. Mesmo assim, Ree segue em frente, ainda que receba ameaças e agressões físicas. É interessante notar que Ree compreende seus vizinhos.  Ela sabe que essas pessoas sofreram e se desgastaram. Nem ao menos julga essa sociedade por viver do tráfico de drogas, inclusive seu pai.

Até seu tio durão, Teardrop (John Hawkes mostrando que a fera tem um coração lá no fundo do peito) teme esse lugar onde os fracos se curvam diante dos fortes. Por mais que se aproxime de Ree e seus irmãos – como na cena final que lembra por um breve segundo um dos melhores momentos de Amargo Pesadelo –, Teardrop precisa voltar a ser aquilo que sua terra lhe transformou. O que será provavelmente o futuro de Ree.

Jennifer Lawrence 1
Mas por que ela continua? De alguma forma, Ree sabe que seu destino será o mesmo dos moradores da região. É inevitável. Conseguindo ou não encontrar seu pai. Também sabe que não tem muito o que oferecer aos irmãos, muito menos à sua mãe. Será que Ree poderia ser julgada se entrasse para o exército, deixando esse mundo de pesadelo para trás? Acho que não. E ela escolhe ficar com a família. Isso classifica a personagem como uma heroína de verdade. Uma sobrevivente pelas circunstâncias, claro, mas capaz de atos heróicos.

A diretora Debra Granik não está interessada em situar o espectador num mundo sombrio construído pelas lentes mágicas do cinema, com uma fotografia escura ou com poucas cores. Granik filma o que há. Sem enfeites. O cenário e o semblante das pessoas, tudo dá ao filme uma identidade. Inverno da Alma parece real e apresenta pessoas reais em situações reais fazendo coisas que eu e você provavelmente faríamos se estivéssemos lá, condenados como Ree e seus irmãos. Granik não é melodramática e mantém uma certa distância emocional da história, apenas observando. Quase cai no mero relato, algo que vem tomando conta do cinema americano, infelizmente.

Seu trunfo, porém, chama-se Jennifer Lawrence. Sua fantástica atuação aproxima qualquer espectador desalmado da trama, envolvendo-o emocionalmente com a saga de Ree, fazendo-o torcer por ela. E mais ninguém. É capaz até que muita gente torça para que Ree abandone tudo, inclusive sua família, e saia logo daquele lugar. É possível ver nos olhos de Jennifer a criança amedrontada e triste que existe em Ree, embora seu corpo sugira que estamos diante de uma adulta capaz de destroçar um esquilo em nome da fome. E antes que critiquem o filme e o livro por retratarem uma região do Missouri de forma tão pobre, violenta e sem leis, tente ver o filme pelos olhos de Ree. Afinal é o mundo na visão de uma menina que não teve tempo para brincar como criança. – Otavio Almeida

Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010)
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik e Anne Rosellini
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Kevin Breznahan, Dale Dickey, Garret Dillahunt, Sheryl Lee, Lauren Sweetser e Tate Taylor

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