fevereiro 25th, 2011

127 Horas

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Todo mundo sabe que Danny Boyle é um diretor elétrico, que não se contenta em filmar o roteiro e deixar seus atores dominarem a situação. Ele tem esse estilo frenético, buscando criatividade na hora de contar histórias simples com imagens que impressionam pela sincronia perfeita entre a rapidez no movimento de câmera e a agilidade na montagem das cenas. Então por que o cineasta escolheu justamente contar a história real do aventureiro Aron Ralston (James Franco), que ficou cinco dias com o braço direito preso a uma rocha em um canyon sem uma alma viva por perto?

Mas quem disse que um diretor precisa mudar ou abdicar de seu estilo em nome de uma situação que fatalmente renderia um tédio de filme? Se você conseguir chegar ao final de 127 Horas (127 Hours, 2010), agradeça a Danny Boyle.

Não que o filme seja ruim. Pelo contrário. Mas há tempos que o cinemão não mostrava algo tão forte. Talvez nunca tenha ido tão longe em termos de tortura. No caso de 127 Horas, pensamos inicialmente em escatologia, mas a tortura e sua consequente dor estão muito mais ligadas ao lado psicológico. Ao término deste filme, pergunte-se: “Por que membros decepados em filmes de ação à moda Schwarzenegger e Stallone não causam náuseas à plateia?” Isso é definitivamente um mistério do cinema. Mas, ao mesmo tempo, um milagre. E não seria justo com Ralston se a dor de sua história fosse amenizada.

Sabendo que a tragédia de Aron Ralston é tão pessoal, solitária e intimista, o filme merece aplausos por não ser chato de se ver. Como diabos Danny Boyle conseguiu colocar a gente ali no canyon, ao lado de James Franco? Bom, 127 Horas aposta na narrativa em primeira pessoa, que traduz em imagens a jornada interior do protagonista. O resultado é imersivo. É como se estivéssemos lá, dando apoio total a Aron, para que ele consiga de alguma forma deixar aquele lugar. Boyle é tão habilidoso no ato dessa condução que, no momento mais difícil do protagonista, fechar os olhos ou deixar o cinema são atitudes que soam como traição. A solução e o drama inteiro não são apelativos. Tudo acontece da maneira como tem de ser, com a razão naturalmente dando lugar ao instinto.

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O esforço de Danny Boyle é visível inclusive no controle da duração do longa, que realmente não precisava se estender por mais de uma hora e meia. Sua coragem também reside na fuga do sucesso fácil, afinal nem se preocupou em tentar repetir ou até mesmo superar Quem Quer Ser um Milionário? (2008) no imaginário coletivo.

Boyle e seu roteirista Simon Beaufoy também não impõem mudanças radicais na história real de Ralston em nome da dramaticidade. Ele não fez nada errado. Não renegou a família nem mesmo a sociedade, como o Christopher McCandless de Na Natureza Selvagem (2007). O filme não é tendencioso. Foi um acidente. E isso pode acontecer na vida de qualquer um. Sem aviso prévio. Faz parte da aventura que é viver. E ele não é um herói, mas um sobrevivente. Se bem que Ralston poderia ter dito a alguém aonde ia, mas como mostra a poderosa abertura, ilustrando o mundo agitado, cheio de gente fazendo várias coisas ao mesmo tempo, o aventureiro vive em outro ritmo, dono de horas, minutos e segundos de seu universo particular.

127 Horas é um triunfo cinematográfico em termos de história contada por meio da junção harmoniosa de imagem, som, música, fotografia, montagem e atuação. O que nos leva ao tour de force de James Franco, que praticamente segura a onda sozinho. Difícil imaginar que aquele amigo do Homem-Aranha se transformaria num grande ator. É só reparar que conhecemos Aron Ralston de verdade a partir do momento em que começa seu sofrimento – se o ator estivesse mal, os planos de Boyle iriam por água abaixo. Os méritos pertencem a James Franco. Se 127 Horas foi um teste para a sua carreira, esse cara pode fazer o que quiser daqui pra frente.

É um filme de sensações – destacando a sede, a fome, a aventura (o fantástico mergulho na piscina natural), os sonhos e a dor –, que pode buscar comparação neste ponto com Cisne Negro, outro belo filme da temporada. Mas enquanto Darren Aronofsky abraça o onírico, Danny Boyle se entrega à realidade. Por isso, a dor e o sofrimento parecem maiores.  Mas é bom ser forte para aguentar o tranco, meu amigo. Isso não é uma ode que deixa pensamentos reflexivos do tipo “como é bom viver”. 127 Horas está mais para um desabafo como “graças a Deus que estou vivo.”

Impossível é ficar indiferente a este filme, que é uma bela homenagem a um dos homens mais corajosos que já andaram por este Planeta. – Otavio Almeida

127 Horas (127 Hours, 2010)
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Treat Williams e Kate Burton

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