fevereiro 17th, 2011

Bravura Indômita

True Grit_2Sempre achei que o humor irônico dos irmãos Joel e Ethan Coen seria compreendido e exaltado pela maioria quando os cineastas deixassem seu mundo particular, que é um parque de diversões exclusivo de seus fãs, para falarem, enfim, a língua do grande público, numa história de valores universais, com começo, meio e fim. Em outras palavras, os Irmãos Coen uniram o útil ao agradável. Finalmente fizeram um filme para as pessoas e não para eles. Finalmente fizeram um filme com… trama. Vamos colocar assim: Se você odeia os Irmãos Coen, mas ama filmes, não há como sair insatisfeito de Bravura Indômita (True Grit, 2010). E pra você que reverencia o cinema dos Coens, saiba que a adaptação do livro de Charles Portis que analisa o Velho-Oeste clássico em seus últimos dias, caiu como uma luva para os cineastas.

Em primeiro lugar, Bravura Indômita não é um remake do (apenas bom) western de 1969. É uma releitura fiel do livro que originou o longa com John Wayne. Alguns acham que os Coens deixaram sua famosa ironia de lado. Mas não é verdade. O humor cínico dos cineastas brota da tragédia, da violência e dos costumes dos cidadãos de cantos diferentes dos EUA. O que acontece em Bravura Indômita é o casamento perfeito desse estilo com o texto de Portis, devidamente respeitado pelos Coens. Não é a situação que é absurda. É da grosseria das poucas, mas corretas palavras que constroem os ótimos diálogos do filme que nasce a ironia vinda do sentimento de amor e amizade derrubando a máscara do falso pudor inicialmente colocada nos rostos dos personagens principais – Mattie Ross (Hailee Steinfeld, um achado), Rooster Cogburn (Jeff Bridges) e LaBoeuf (Matt Damon). Com a lealdade e a justiça substituindo qualquer indiferença ou preconceito, o trio se encaixa como símbolo da mitologia americana honrada pelos Coens: o western.

Mas a verdadeira protagonista, que se assume como narradora no prólogo e no epílogo, é a menina Mattie Ross, que teve o pai covardemente assassinado por um vagabundo, Tom Chaney (Josh Brolin), que se junta ao bando do temido Lucky Ned (Barry Pepper). Para guiá-la nesta jornada de vingança e pegar o desgraçado, Mattie oferece uma recompensa ao veterano federal Reuben “Rooster” Cogburn. Só que os dois precisam lidar com a companhia forçada do Texas Ranger LaBoeuf, que tem a missão de punir o bandido por um crime cometido em sua jurisdição. Mas esqueça os adultos. A bravura indômita do título pertence a Mattie Ross – e o filme segue completamente seu ponto de vista . É ela que deve ir até o fim em sua saga de vingança. E o preço é alto, como entendemos na conclusão do filme.

No lugar de um clímax empolgante, os Coens privilegiam a reflexão. Tudo isso porque o escritor Charles Portis não queria endeusar o faroeste nem seus mocinhos. Uma reflexão que é a síntese de Bravura Indômita: Mattie Ross tem 14 anos, mas é a única adulta do filme. Ela se vê rodeada de homens imaturos, verdadeiras crianças aprisionadas em corpos de adultos. Por ter essa visão do sexo oposto fica fácil entender o que acontece com ela no fim. Completando esse pensamento, há uma paixão platônica, verdadeira, impossível e recíproca entre Mattie e Cogburn. Ele vê na menina a coragem e a determinação que teve no passado. Ela tem tudo para se tornar um Rooster Cogburn de saias.

True Grit_1
O livro de Charles Portis foi lançado em 1968. O filme que deu o único Oscar de Melhor Ator a John Wayne saiu um ano depois. Enquanto o diretor Henry Hathaway enalteceu exageradamente o auge do heroísmo em seu momento de glória, como se a história fosse sobre a era de ouro do faroeste, Joel e Ethan Coen não seguem os códigos do gênero, preferem o conteúdo de Portis, um artista à frente de sua época. Ao contrário do filme original, eles olham discretamente e reavaliam com certo saudosismo os mitos de um tempo que chega ao seu inevitável fim. E os mitos não conseguem compreender esse futuro intruso. Preste atenção na cena do tiro ao alvo, que desmitifica o caubói e ilustra um termo recorrente dos Coens, que é No Country For Old Men. Apesar de corajoso, Cogburn é um velho bêbado, ranzinza, nada gentil e xinga pra valer. Nada a ver com os bons modos do caubói clássico. Desde meados dos anos 50, o gênero já vinha sendo desconstruído. E Charles Portis foi um dos “culpados” no rompimento do Western como filme de gênero. O grande Henry Hathaway não respeitou isso.

Já os Coens são fiéis até na forma. Repare como os cineastas preferem planos fechados, afinal a jornada é intimista, com cortes rápidos que ora acentuam o humor, ora aumentam a tensão. Eles também não se deslumbram com as paisagens naturais – algo que seduzia o mestre John Ford –, exceto numa sequência rápida, cuja montagem indica passagem de tempo, onde épossível ver o trio cavalgando em imensas planícies com belas montanhas ao fundo – momento em que reina a genialidade do diretor de fotografia Roger Deakins, habitual colaborador dos Coens. Ainda assim, os irmãos arrumam tempo para homenagear o gênero sutilmente, como na cena em que Cogburn atira dentro de uma mina antes de entrar – a visão é toda de John Wayne à frente da porta de sua amada cunhada em Rastros de Ódio (1959).

Jeff Bridges está impagável. Peço perdão de joelhos a John Wayne, mas como Rooster Cogburn, ele perde para o The Dude. E não são meros detalhes, como Bridges usando o tapa-olho na vista direita, enquanto Wayne o utiliza no olho esquerdo. Sério: Wayne foi o maior caubói do cinema. Bridges não se iguala como mito, mas neste papel especificamente, ele não só honra como vence o duelo. É como se Jeff Bridges tivesse nascido para o papel. Ganhou um Oscar de Melhor Ator um ano antes por Coração Louco, quando merecia muito mais por Bravura Indômita. – Otavio Almeida

Bravura Indômita (True Grit, 2010)
Direção e roteiro: Joel Coen & Ethan Coen
Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper

Críticas . Posts