Bravura Indômita
Sempre achei que o humor irônico dos irmãos Joel e Ethan Coen seria compreendido e exaltado pela maioria quando os cineastas deixassem seu mundo particular, que é um parque de diversões exclusivo de seus fãs, para falarem, enfim, a língua do grande público, numa história de valores universais, com começo, meio e fim. Em outras palavras, os Irmãos Coen uniram o útil ao agradável. Finalmente fizeram um filme para as pessoas e não para eles. Finalmente fizeram um filme com… trama. Vamos colocar assim: Se você odeia os Irmãos Coen, mas ama filmes, não há como sair insatisfeito de Bravura Indômita (True Grit, 2010). E pra você que reverencia o cinema dos Coens, saiba que a adaptação do livro de Charles Portis que analisa o Velho-Oeste clássico em seus últimos dias, caiu como uma luva para os cineastas.
Em primeiro lugar, Bravura Indômita não é um remake do (apenas bom) western de 1969. É uma releitura fiel do livro que originou o longa com John Wayne. Alguns acham que os Coens deixaram sua famosa ironia de lado. Mas não é verdade. O humor cínico dos cineastas brota da tragédia, da violência e dos costumes dos cidadãos de cantos diferentes dos EUA. O que acontece em Bravura Indômita é o casamento perfeito desse estilo com o texto de Portis, devidamente respeitado pelos Coens. Não é a situação que é absurda. É da grosseria das poucas, mas corretas palavras que constroem os ótimos diálogos do filme que nasce a ironia vinda do sentimento de amor e amizade derrubando a máscara do falso pudor inicialmente colocada nos rostos dos personagens principais – Mattie Ross (Hailee Steinfeld, um achado), Rooster Cogburn (Jeff Bridges) e LaBoeuf (Matt Damon). Com a lealdade e a justiça substituindo qualquer indiferença ou preconceito, o trio se encaixa como símbolo da mitologia americana honrada pelos Coens: o western.
Mas a verdadeira protagonista, que se assume como narradora no prólogo e no epílogo, é a menina Mattie Ross, que teve o pai covardemente assassinado por um vagabundo, Tom Chaney (Josh Brolin), que se junta ao bando do temido Lucky Ned (Barry Pepper). Para guiá-la nesta jornada de vingança e pegar o desgraçado, Mattie oferece uma recompensa ao veterano federal Reuben “Rooster” Cogburn. Só que os dois precisam lidar com a companhia forçada do Texas Ranger LaBoeuf, que tem a missão de punir o bandido por um crime cometido em sua jurisdição. Mas esqueça os adultos. A bravura indômita do título pertence a Mattie Ross – e o filme segue completamente seu ponto de vista . É ela que deve ir até o fim em sua saga de vingança. E o preço é alto, como entendemos na conclusão do filme.
No lugar de um clímax empolgante, os Coens privilegiam a reflexão. Tudo isso porque o escritor Charles Portis não queria endeusar o faroeste nem seus mocinhos. Uma reflexão que é a síntese de Bravura Indômita: Mattie Ross tem 14 anos, mas é a única adulta do filme. Ela se vê rodeada de homens imaturos, verdadeiras crianças aprisionadas em corpos de adultos. Por ter essa visão do sexo oposto fica fácil entender o que acontece com ela no fim. Completando esse pensamento, há uma paixão platônica, verdadeira, impossível e recíproca entre Mattie e Cogburn. Ele vê na menina a coragem e a determinação que teve no passado. Ela tem tudo para se tornar um Rooster Cogburn de saias.

O livro de Charles Portis foi lançado em 1968. O filme que deu o único Oscar de Melhor Ator a John Wayne saiu um ano depois. Enquanto o diretor Henry Hathaway enalteceu exageradamente o auge do heroísmo em seu momento de glória, como se a história fosse sobre a era de ouro do faroeste, Joel e Ethan Coen não seguem os códigos do gênero, preferem o conteúdo de Portis, um artista à frente de sua época. Ao contrário do filme original, eles olham discretamente e reavaliam com certo saudosismo os mitos de um tempo que chega ao seu inevitável fim. E os mitos não conseguem compreender esse futuro intruso. Preste atenção na cena do tiro ao alvo, que desmitifica o caubói e ilustra um termo recorrente dos Coens, que é No Country For Old Men. Apesar de corajoso, Cogburn é um velho bêbado, ranzinza, nada gentil e xinga pra valer. Nada a ver com os bons modos do caubói clássico. Desde meados dos anos 50, o gênero já vinha sendo desconstruído. E Charles Portis foi um dos “culpados” no rompimento do Western como filme de gênero. O grande Henry Hathaway não respeitou isso.
Já os Coens são fiéis até na forma. Repare como os cineastas preferem planos fechados, afinal a jornada é intimista, com cortes rápidos que ora acentuam o humor, ora aumentam a tensão. Eles também não se deslumbram com as paisagens naturais – algo que seduzia o mestre John Ford –, exceto numa sequência rápida, cuja montagem indica passagem de tempo, onde épossível ver o trio cavalgando em imensas planícies com belas montanhas ao fundo – momento em que reina a genialidade do diretor de fotografia Roger Deakins, habitual colaborador dos Coens. Ainda assim, os irmãos arrumam tempo para homenagear o gênero sutilmente, como na cena em que Cogburn atira dentro de uma mina antes de entrar – a visão é toda de John Wayne à frente da porta de sua amada cunhada em Rastros de Ódio (1959).
Jeff Bridges está impagável. Peço perdão de joelhos a John Wayne, mas como Rooster Cogburn, ele perde para o The Dude. E não são meros detalhes, como Bridges usando o tapa-olho na vista direita, enquanto Wayne o utiliza no olho esquerdo. Sério: Wayne foi o maior caubói do cinema. Bridges não se iguala como mito, mas neste papel especificamente, ele não só honra como vence o duelo. É como se Jeff Bridges tivesse nascido para o papel. Ganhou um Oscar de Melhor Ator um ano antes por Coração Louco, quando merecia muito mais por Bravura Indômita. – Otavio Almeida
Bravura Indômita (True Grit, 2010)
Direção e roteiro: Joel Coen & Ethan Coen
Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper



Perfeito


Ótimo texto, Otávio! Não conheço muito Faroestes, mas estou com muita vontade de assistir a esse filme.
Se ele sair aqui na minha cidade será uma Glória, pois até agora espero por O Discurso do Rei.
Com base nessa descrição, vc acha q Mattie Ross pode bater Melissa Leo no Oscar?
Bjs!
PÂMELA
Aposto nela. Melissa Leo andou desrespeitando suas concorrentes numa entrevista e a Academia está de olho. Bjs!
Gostei desse filme. E só kkk
DOUGLAS
Hmm, isso aconteceu comigo em “A Rede Social”. Abs!
Filmaço! Empatado com Cisne Negro como melhor filme lançado em 2011 até agora.
LUCAS
Agora sim! Obrigado pela ajuda! Mais alguém?
Chato isso! Ela, uma atriz consagrada, que ja concorreu ao Oscar, quando tem a grande oportunidade de ganhar faz uma besteira dessa.
Então, que a Academia faça uma boa escolha.
Bjs!
E apoiando O Lucas e vc, concordo em tudo de bom que falarem de Cisne Negro. Aquilo é a perfeição em forma de filme.
Não consigo expressar o quanto amo-o.
Otávio, falou e disse. Um filme maravilhoso, que podia fazer um sucesso tão grande quanto os Imperdoáveis, pois nada deve a esse. Aliás, é um filme praticamente sozinho no gênero, feito com brilhantismo. Que me desculpe Colin Firth, mas ele só leva o Oscar graças a Geoffrey Rush, pois o que o Jeff Bridges fez nesse filme pode ser encarado como se fosse sua despedida, pois é a atuação de sua vida. Fazia tempo que não via um ator entrar e incorporar uma personagem que fica até difícil de lembrar que aquilo ali é apenas uma atuação. E minha torcida desde já é pela Hailee Steinfeld, que me encantou com sua terna bravura, realmente um achado! E parabéns aos Cohen, que conseguiram finalmente achar o ponto de equilibrio entre o cinema de autor e o simples ato de fazer um bom filme naquilo que realmente interessa: contar uma boa história de forma simples e com naturalidade, sem interferência e sem aparentar esforço ao fazê-lo.
Mais um filmaço dos irmãos Coen.abs.
Um filme acima dos outros. De qualquer outro filme oscarizável. Os Coen não erram, Otávio!
PÂMELA
E eu torço pela menininha… Embora ela seja a atriz principal do filme. Bjs!
DENIS
Pois é. Ia de Colin Firth. Mas agora torço por Jeff. Fantástico. Abs!
PAULO RICARDO
FilmAÇO! Abs!
PEDRO
Hmm… Acertam em 99% dos filmes, eu diria. E aqui, foram 100%. Abs!
Te disse que era um grande filme, Otávio. Também peço perdão a Wayne.
VINÍCIUS
Hahahaha, e de joelhos!
Muito bem escrito!
Só discordo que os irmãos tenham mudado de estilo, acho que foi o contrário, o público q está cada vez mais interessado no trabalho deles!
CASSIANO
Valeu! Mas eu disse que eles não mudaram. Só apontei para o fato de que eles escolheram uma trama que une o erudito e o popular. Abs!
Belo texto. Não sou fanático por faroestes, mas sou por filmes. E esse é um bom filme. Ainda que eu sinta falta do que fez os Coen, viraram… os Coen. As características são sutis, mas os Coen nunca foram sutis. Enfim…
Achei o filme por vezes prolixo, e um tanto burocrático. Senti que a história demorou a se desenvolver em algumas partes, o que denotou um tanto de desinteresse – por minha parte -.
Entretanto, temos grandes atuações, grande fotografia, montagem, e por que não, direção. O que eu falei do filme: Um bom filme. E só. Ainda que esse “só” signifique muita coisa.
ps: Jeff Bridges está realmente ótimo. Grande personagem.
Abraço.
AMENAR
Obrigado! Achei um grande filme. E um dos melhores dos Irmãos Coen. “Bom” é o original com John Wayne. Abs!
Grande texto.
Interessante esse filme, eu confesso que deixei pra ver no telão – mas, não esperava que fosse gostar tanto. Sim, gostei bastante!
Na verdade, grande parte, ao meu ver, do fascínio que esse filme exala é por conta da inspirada atuação de Hailee Steinfeld. Um absurdo a Academia indicá-la como coadjuvante, visto que seu personagem tem função de Atriz principal, sabemos disso. Mas, enfim, ela que merece o Oscar, e não Melissa Leo. Mas, duvido que seja vencedora…de qualquer forma, vai ser mais indicada, tem tudo pra crescer. A menina nos hipnotiza em cena.
De fato, eu já havia dito isso até no meu twitter, Jeff Bridges está soberbo e muito melhor que Colin Firth por “O Discurso do Rei” (ok, não desmereço nenhum dos concorrentes, pois a categoria está forte esse ano), mas sejamos sincero: seu papel aqui é mais denso e complexo que o do “Coração Louco”, hein? Mas, não será premiado não. Ainda assim, é uma personificação marcante! E concordo, ele está melhor que John Wayne. Na realidade, eu nem gosto do filme original. E nem vejo esse como um remake, mas é.
Josh Brolin, mesmo que em tão pouco tempo em cena, consegue mostrar que é um ator mais maduro. Gostei de Damon também, mas o filme é de Hailee e Brigdes!
Abraço!
Acho que sou o único aqui que não gostei do Jeff Bridges nesse filme (ahahaha…). Achei caricato e exagerado. Hailee é ótima, mas ainda prefiro a Melissa ou a Helena. A primeira metade do filme beira a sonolência, mas depois o filme anda muito bem. E o final é muito bonito.
CRISTIANO
Obrigado! E a menina merece todos os elogios! Ela é incrível! Uma pena que ela tenha sido promovida pelo estúdio como “coadjuvante”, afinal ela é a protagonista. Mais que Jeff Bridges. Mas é uma estratégia. Porque ela certamente perderia pra Natalie Portman. Mas aposto nela. Acho que a Melissa Leo dançou. Abs!
RUI
Eu acho que ele só podia ser caricato. Johnny Depp está caricato em “Piratas do Caribe” e ficou ótimo. Existem filmes e filmes. E, aqui, funciona. Abs!
Seu texto está fantástico e concordo com muito que está escrito nele. Também percebi uma direção que pouco se preocupou em imitar ou se inspirar em outras (como Howard Hawks e John Ford). Os Coen se saíram mais ao que Eastwood fez em Os Imperdoáveis, desmistificando este universo e expondo sua decadência. E claro, Stanfield é a dona da verdadeira bravura indômita, é ela que mostra verdadeira coragem – basta observar cada atitude de Mattie Ross.
Também prefiro este ao de 1969, mas discordo de você quando diz que Bridges está melhor que Wayne. Este senhor nada mais fez que assistir a todas as atuações do ícone, misturá-las e reproduzi-las com fidelidade. Pura imitação. E pior: como ele rosna! Isso se tornou uma peculiaridade insuportável, eu diria.
P.S A cena final é antológica. Linda de morrer.
WEINER
Obrigado! Mas os Coens disseram em entrevista que Jeff Bridges seguiu o que está no livro. Ele não ficou vendo e revendo o “Bravura Indômita” original pra se preparar. Se bem que a figura de John Wayne neste filme é inesquecível… Abs!
Otávio, sei que nem tem mais graça! Rsrs! Dias e dias depois venho deixar comentário… Mas o vergonhoso caso é que só agora estreou aqui em minha cidade! E mais vergonhoso ainda: meteram Bravura em uma sala pequena e com apenas duas sessões, ao passo que uma coisa chamada Justin Bieber está na maior sala com QUATRO sessões! Haha! É duro!
Vou assistir essa semana agora! Pretendo passar depois pra deixar uma pequena opinião!
Otávio, presta atenção! Até agora estou esperando: Minhas Mães e Meu Pai, Inverno da Alma, Além da Vida, O Vencedor, O Discurso do Rei, 127 Horas, etc. e etc. Nem sei como lembraram de Cisne Negro, pelo mesnos isso! É brincadeira? Não, não é brincadeira. É falta de respeito mesmo!
Ósculos