Cisne Negro

Esqueça o clássico Os Sapatinhos Vermelhos (1948). Cisne Negro (Black Swan, 2010), de Darren Aronofsky, não é sobre uma jovem bailarina apaixonada pela dança. É um filme de terror, que vive na cabeça dessa artista obcecada pela perfeição, perdida completamente dentro de seu papel. Não é um relato. Não testemunhamos o mergulho total de uma bailarina em sua arte. Nós sentimos isso. É uma obra-prima do cinema sobre abraçar a arte – qualquer arte – de corpo e alma, custe o que custar. No caso de Cisne Negro, a dança, o balé. E dentro do gênero, por viver dentro da mente de sua protagonista, nunca houve outro filme tão intenso em demonstrar a autodestruição e a glória física e emocional de uma dançarina. E incluo All That Jazz (1979), de Bob Fosse, nessa comparação.
A opção de Darren Aronofsky (O Lutador, Réquiem Para um Sonho) em buscar a interpretação do que acontece na mente do artista que não sai da personagem (agora sabemos como Daniel Day-Lewis pensa num set) expõe e mistura os opostos mundos dos sonhos e da realidade. Como se fossem um só. Sem fronteiras. E não é isso que é o cinema? Estamos esquecendo disso, infelizmente. Mas, de vez em quando, surgem diretores como Darren Aronofsky, que nos puxam de volta para esse universo, onde é fácil se perder até quando as luzes do cinema acendem, deixando a experiência que é ver (e sentir) um filme grudada dentro de nós por muito, muito tempo.
Se há um problema em Cisne Negro, ele é externo, porque transforma todos os filmes anteriores de Darren Aronofsky em ensaios necessários para se chegar a esta obra-prima. Mais uma vez, ele entra no universo de um artista. Sai o homem bruto da luta livre, entra a mulher delicada, a bailarina. Os dois, no entanto, vivem esses mundos particulares e não conseguem fugir para uma outra realidade. Seria como negar suas existências. E não há muita diferença entre suas ambições. Não importa se o foco é um homem ou uma mulher. Aronofsky fala de pessoas, com sentimentos reais.
Mas o que torna Cisne Negro mais intenso que O Lutador (2008) – em todas as suas emoções – é a câmera instalada na cabeça da bailarina. No longa estrelado por Mickey Rourke, apenas acompanhamos e imaginamos a dor e os sonhos do protagonista. Nem por isso o filme é frio, claro. Pelo contrário. Mas em Cisne Negro, nós somos parte do sofrimento da personagem de Natalie Portman. É como entrar de cabeça em seu sonho, em sua ambição, o que torna este filme de Aronofsky inevitavelmente mais profundo. Como em O Lutador, em muitas cenas, o cineasta filma as costas de Natalie ou posiciona a câmera por trás, sob os ombros de sua protagonista. Mas, desta vez, os olhos da artista são os nossos olhos. As lentes vêm de trás, inclusive, no palco. Aronofsky não o filma do ponto de vista da plateia, afinal o espectador pode até entender essa passagem de O Lago dos Cisnes, observando a Princesa Odette (o cisne branco) dando lugar à Odile (o cisne negro), mas seria incapaz de compreender o que se passa na mente da artista que dança no palco. Aronofsky o filma por trás da cortina. É a representação máxima da visão particular dos artistas que estão ali, vendo Nina dançar.

Se O Lutador foi uma espécie de Réquiem Para um Lutador, Cisne Negro é o Réquiem Para uma Bailarina. Enquanto Nina (Natalie Portman) tenta aperfeiçoar sua performance nesta montagem de O Lago dos Cisnes, ela caminha rumo à perdição. Em certo momento do filme é impossível não pensar nem por um segundo sequer na sensação desagradável que acompanha a frase “Isso não vai acabar bem”.
A atuação de Natalie Portman é mesmo tudo isso que andam dizendo, acredite. Aos 12 anos, ela começou a dançar balé. É como se a atriz estivesse se preparando para este papel e não soubesse disso. Natalie dança e se expressa sem palavras. Há uma cena orgásmica que reflete isso. E não, não é a famosa sequência lésbica entre Mila Kunis e Natalie Portman. Falo da maravilhosa cena em que Nina começa a se transformar no cisne negro. É o ápice de sua metamorfose meio kafkiana, que é muita mais que física. Ela acontece internamente. Com a câmera fechada no rosto de Natalie, que balança lentamente a cabeça pra lá e pra cá, Aronofsky vai abrindo a cena aos poucos para pegar a atriz de corpo inteiro. E o clímax é fenomenal – a bailarina finalmente pára e faz pose, com o estouro da luz cobrindo a escuridão do palco, um contraste com a transformação do cisne branco em negro.
Um filme que exala arte, sendo bem-sucedido em todos os quesitos. O elenco que cerca Natalie Portman é particularmente formidável: Mila Kunis, sua “rival”, Vincent Cassel, o diretor da companhia, Barbara Hershey, a mãe de Nina, e Winona Ryder, a bailarina veterana obrigada a se aposentar – essas duas últimas personagens são representações na cabeça de Nina de seu futuro nada promissor. Elas motivam Nina, involuntariamente, a entender que a hora de brilhar é aqui e agora.
Cisne Negro também é completo em roteiro, figurino, direção de arte, montagem, maquiagem, além da trilha de Clint Mansell adaptando Tchaikovsky e a já citada fotografia de Matthew Libatique. Por tudo isso, chega a ser estranho notar que o filme ganhe somente prêmios de Melhor Atriz. Passa a impressão errada que vale somente por Natalie Portman. A ordem não é importante, porque todos merecem, mas os aplausos na última cena devem passar obrigatoriamente por Darren Aronofsky, o arquiteto dessa obra-prima. Ele também foi perfeito. - Otavio Almeida
Cisne Negro (Black Swan, 2010)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder



Perfeito


VICTOR
FilmAÇO mesmo! Mas a que cena você se refere? Fiquei curioso. Até citei a câmera seguindo Natalie por trás, como Aronofsky fez em “O Lutador”… Mas, ei, estamos diante de um autor. Não é? Abs!
Pato Negro é interessante até!
PEDRO
Hahhahahahaha… Você não gostou do filme?
Na hora que ela tá dançando e se “esfregando” na Mila, aguém notou que por um segundo o rosto da Natalie se tranforma no Cisne Negro????? Notei no cinema memso sendo bem rápido.
ROBSON
Eu acho que tem isso mesmo. Mas preciso rever pra pegar mais detalhes. É filme para ser visto e revisto. Abs!
Eu estava pensando aqui: pq dois dos melhores filmes que misturam ilusão com realidade (Cidade dos Sonhos do David Lynch e agora Cisne Negro) tem cenas lésbicas rápidas mas ótimas rsrsrsrrsrsrsr.
Mas falando sério, já vi quase todos os filmes que vão concorrer ao Oscar e pra mim Cisne Negro continua no topo.
ROBSON
Bom, talvez porque isso esteja na cabeça da esmagadora maioria dos homens. Abs!
Que filmaço!!!! Achei q/ Aronofski se superou, assim como Portman. Tem q/ ser dela o Oscar de melhor atriz! E a cena da apresentação do ato em q/ ela dança Code de Odile, q/ é a variação do Cisne Negro? Q/ metamorfose linda aquela no palco!Até Winona Ryder surpreendeu em seu pequeno papel, mais q/ em outros maiores q/ já atuou!Esse filme pode nortear trabalhos acadêmicos em várias áreas.Tão intenso seu enredo como toda a produção e elenco. Ah, e apesar de não ter nada contra cenas lésbicas, mas não são minhas favoritas, também foi muito bem trabalhada no filme,denotando sensualidade,e acima de tudo, um crescimento da personagem de Portman! Nota 1000!!!
Abçs
Otávio, eu estou até agora procurando uma descrição pra esse filme. Mas nem será tão preciso, pois a última sua frase já o define muito bem.
Esse Oscar já é de Natalie.
Fico impressionada como uma pessoa se doa tanto pra um trabalho.
E concordo plenamente com você em relação à cena orgásmica.rsrs.
Suspirei tanto que procurava ar e não encontrava.rsrs
E concordo também que não só Natalie merece ser reconhecida nesse oscar, mas tudo bem. É a Academia, né?rs
Bjos!
RAQUEL
O filme é sensacional! Que bom que gostou! E tem razão. O filme pode ser explorado, estudado em diversas áreas. Bjs!
PÂMELA
É orgásmica, não é? Acho que a palavra é essa, hehe… bjs!
Otávio, querido, claro que, como leitor assíduo de suas críticas sublimes, não podia deixar de comentar sobre esse filme aqui. Não mesmo. Hehe!
Bom, acho que este será um dos meus comentários mais enxutos, pois não há muito mais a dizer.
Assim como um insano Tarantino colocou na boca de seu personagem ao fim de Bastardos algo do tipo “Sabe, acho que essa é a minha obra-prima!”, um gênio de nosso tempo, que tem por sobrenome Aronofsky, fez a linda e absurda Natalie Portman dizer ao fim de seu ato que tudo “Foi perfeito”.
E se o longa do Tarantino é uma verdadeira obra-prima, e se sua frase final é justa e metalinguística, o que dizer de Natalie e Aronofsky dizendo juntos a nós todos que tudo “Foi perfeito”? Acho que não há nada a dizer!
E o Oscar vai para… Natalie Portman!
E se Aronofsky ganhasse o seu também seria mais que justo, já que Nolan não foi convidado para a festa!
No mais, Black Swan é uma obra-prima do nosso tempo! E posso dizer que, desde já, está entre meus preferidos!
P.S.: A cena em ela se torna o Cisne Negro é mais que orgásmica! Mais, muito mais! Mas apesar de saber que é mais que isso, não consigo atinar com a palavra exata! Por falta de um léxico que defina o inefável, fiquemos com “orgásmica” mesmo! rsrs!
Tenho mais a dizer, mas já cansei de escrever e você de ler! Rsrs! Desculpe, disse que seria um comentário enxuto. Não foi! Haha…
Duas palavras e uma frase definem Black Swan. Sublime. Obsessão. “Foi perfeito”.
Amplexos…
MAGNO
Interessante você dizer isso, porque na cena final (o “fui perfeita”), eu lembrei na hora da última cena de “Bastardos Inglórios”, com Brad Pitt dizendo que talvez tenha sido sua obra-prima. Os Srs. Tarantino e Aronofsky são metidos ou não? Pior que eles têm razão. Abs!
Natalie Portman, com certeza em sua melhor atuação…Perfeita!
EDUARDO
Concordo! Abs!
Maravilhoso!
Olá ! Voltei do cinema há pouco e, claro, não paro de pensar no filme.
Pesquisando pela web, cheguei aqui.
Espetacular o filme e, concordo, o ápice é a cena da transformação em Cisne Negro.
Incrível a maneira como, seguindo a bailarina por trás, a câmera incorpora e evidencia o delírio, a sensação de perseguição, [que a personagem chega a verbalizar nas cenas finais], e nos faz sentir as emoções da personagem, não como platéia, mas como se entrássemos nela.
O desdobramento da personagem em duas pessoas, tão maravilhosamente interpretado por Natalie Postman, que transmite ora o medo, ora “o malévolo” de modo intenso, com uma mudança no olhar que chega a causar calafrios.
Excelente roteiro, que mostra com perfeição o desencadeamento do surto, as vozes que riem, as alucinações visuais, os delírios persecutórios, a mãe protetora-exigente-enclausurante.
O filme do ano ? Gostei tanto de “A Origem”, que não consigo escolher.
E passado o Oscar… Dane-se o Oscar !!! As bilheterias mundiais darão à toda a equipe o reconhecimento devido.
Grande abraço. Fabíola
Vc viu os comentários da duble da Natalie,falando que ela fez uns 80% das cenas,e nao ganhou credito algum!
FRAN: Vi sim. Ela merece crédito, claro. Mas isso não muda o resultado da atuação de Natalie e o próprio filme. Afinal, ela é uma atriz.
Filme fantástico que ainda não sei se é drama ou horror!
Como ja disse Marlon Brando “ninguém ganha prêmio sosinho”. O filme é completo e Vicente Cassel prova que limite não foi feito também para ele. Quanto a declaração da bailarina duble… e daí?! o filme não ganhou prêmio de Balé, ganhou pela interpretação fantástica de Natalie como ATRIZ não como bailarinha. Bobagem! Prêmios merecidíssimos, pra mim ganhava como melhor filme também. Acho Dircurso do Rei acadêmico demais.
EDEN: Também acho que “Cisne Negro” merecia mais que o Oscar de melhor Atriz.
Adorei “Cisne Negro”, mas acho que o melhor do ano até agora é “Bravura Indômita”. E você, Otávio: entre os dois, qual é o melhor, na sua opinião?
RENATO
Cara, eu estou pensando nisso o ano inteiro. Difícil. Vou rever os dois filmes, que só vi no cinema, para tomar uma decisão. Abs!
Pois é… ando pensando seriamente nisso também. ;]
Abraços.
maneirro
GENTE POR FAVOR ALGM AQUI FAZ BALLET PROFISSIONAL? POR FAVOR… ME ADD NO FACE https://www.facebook.com/profile.php?id=100002180622133