fevereiro 7th, 2011

Cisne Negro

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Esqueça o clássico Os Sapatinhos Vermelhos (1948). Cisne Negro (Black Swan, 2010), de Darren Aronofsky, não é sobre uma jovem bailarina apaixonada pela dança. É um filme de terror, que vive na cabeça dessa artista obcecada pela perfeição, perdida completamente dentro de seu papel. Não é um relato. Não testemunhamos o mergulho total de uma bailarina em sua arte. Nós sentimos isso. É uma obra-prima do cinema sobre abraçar a arte – qualquer arte – de corpo e alma, custe o que custar. No caso de Cisne Negro, a dança, o balé. E dentro do gênero, por viver dentro da mente de sua protagonista, nunca houve outro filme tão intenso em demonstrar a autodestruição e a glória física e emocional de uma dançarina. E incluo All That Jazz (1979), de Bob Fosse, nessa comparação.

A opção de Darren Aronofsky (O Lutador, Réquiem Para um Sonho) em buscar a interpretação do que acontece na mente do artista que não sai da personagem (agora sabemos como Daniel Day-Lewis pensa num set) expõe e mistura os opostos mundos dos sonhos e da realidade. Como se fossem um só. Sem fronteiras. E não é isso que é o cinema? Estamos esquecendo disso, infelizmente. Mas, de vez em quando, surgem diretores como Darren Aronofsky, que nos puxam de volta para esse universo, onde é fácil se perder até quando as luzes do cinema acendem, deixando a experiência que é ver (e sentir) um filme grudada dentro de nós por muito, muito tempo.

Se há um problema em Cisne Negro, ele é externo, porque transforma todos os filmes anteriores de Darren Aronofsky em ensaios necessários para se chegar a esta obra-prima. Mais uma vez, ele entra no universo de um artista. Sai o homem bruto da luta livre, entra a mulher delicada, a bailarina. Os dois, no entanto, vivem esses mundos particulares e não conseguem fugir para uma outra realidade. Seria como negar suas existências. E não há muita diferença entre suas ambições. Não importa se o foco é um homem ou uma mulher. Aronofsky fala de pessoas, com sentimentos reais.

Mas o que torna Cisne Negro mais intenso que O Lutador (2008) – em todas as suas emoções – é a câmera instalada na cabeça da bailarina. No longa estrelado por Mickey Rourke, apenas acompanhamos e imaginamos a dor e os sonhos do protagonista. Nem por isso o filme é frio, claro. Pelo contrário. Mas em Cisne Negro, nós somos parte do sofrimento da personagem de Natalie Portman. É como entrar de cabeça em seu sonho, em sua ambição, o que torna este filme de Aronofsky inevitavelmente mais profundo. Como em O Lutador, em muitas cenas, o cineasta filma as costas de Natalie ou posiciona a câmera por trás, sob os ombros de sua protagonista. Mas, desta vez, os olhos da artista são os nossos olhos. As lentes vêm de trás, inclusive, no palco. Aronofsky não o filma do ponto de vista da plateia, afinal o espectador pode até entender essa passagem de O Lago dos Cisnes, observando a Princesa Odette (o cisne branco) dando lugar à Odile (o cisne negro), mas seria incapaz de compreender o que se passa na mente da artista que dança no palco. Aronofsky o filma por trás da cortina. É a representação máxima da visão particular dos artistas que estão ali, vendo Nina dançar.

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Se O Lutador foi uma espécie de Réquiem Para um Lutador, Cisne Negro é o Réquiem Para uma Bailarina. Enquanto Nina (Natalie Portman) tenta aperfeiçoar sua performance nesta montagem de O Lago dos Cisnes, ela caminha rumo à perdição. Em certo momento do filme é impossível não pensar nem por um segundo sequer na sensação desagradável que acompanha a frase “Isso não vai acabar bem”.

A atuação de Natalie Portman é mesmo tudo isso que andam dizendo, acredite. Aos 12 anos, ela começou a dançar balé. É como se a atriz estivesse se preparando para este papel e não soubesse disso. Natalie dança e se expressa sem palavras. Há uma cena orgásmica que reflete isso. E não, não é a famosa sequência lésbica entre Mila Kunis e Natalie Portman. Falo da maravilhosa cena em que Nina começa a se transformar no cisne negro. É o ápice de sua metamorfose meio kafkiana, que é muita mais que física. Ela acontece internamente. Com a câmera fechada no rosto de Natalie, que balança lentamente a cabeça pra lá e pra cá, Aronofsky vai abrindo a cena aos poucos para pegar a atriz de corpo inteiro. E o clímax é fenomenal – a bailarina finalmente pára e faz pose, com o estouro da luz cobrindo a escuridão do palco, um contraste com a transformação do cisne branco em negro.

Um filme que exala arte, sendo bem-sucedido em todos os quesitos. O elenco que cerca Natalie Portman é particularmente formidável: Mila Kunis, sua “rival”, Vincent Cassel, o diretor da companhia, Barbara Hershey, a mãe de Nina, e Winona Ryder, a bailarina veterana obrigada a se aposentar – essas duas últimas personagens são representações na cabeça de Nina de seu futuro nada promissor. Elas motivam Nina, involuntariamente, a entender que a hora de brilhar é aqui e agora.

Cisne Negro também é completo em roteiro, figurino, direção de arte, montagem, maquiagem, além da trilha de Clint Mansell adaptando Tchaikovsky e a já citada fotografia de Matthew Libatique. Por tudo isso, chega a ser estranho notar que o filme ganhe somente prêmios de Melhor Atriz. Passa a impressão errada que vale somente por Natalie Portman. A ordem não é importante, porque todos merecem, mas os aplausos na última cena devem passar obrigatoriamente por Darren Aronofsky, o arquiteto dessa obra-prima. Ele também foi perfeito. - Otavio Almeida

Cisne Negro (Black Swan, 2010)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder

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